Edição 424 | 24 Junho 2013

O sincretismo do Vale do Amanhecer em Atlanta

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Por Márcia Junges

Criada em Brasília a partir da experiência de Dona Neiva, prática religiosa procura o equilíbrio entre o feminino e o masculino e chegou até Atlanta, nos Estados Unidos, onde funciona como alternativa do campo religioso dos brasileiros imigrantes, pondera José Cláudio Souza Alves

Surgida nos idos de 1950 e relacionada à complexa interação dos processos de mudança social, econômica, política e cultural relacionados à construção da cidade de Brasília, a religião Vale do Amanhecer guarda uma “relação direta com as experiências migratórias, sobretudo de nordestinos” trabalhadores das obras da futura capital do país, situa o sociólogo José Cláudio Souza Alves na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Caracterizada por um sincretismo peculiar, difícil de ser encontrado em outra religião, seja no Brasil ou no mundo, a Vale do Amanhecer funde “elementos do cristianismo, kardecismo, umbanda, candomblé e esoterismo”. Essa religião migrou junto de seus praticantes e se estabeleceu no norte de Atlanta, em cidades que receberam um fluxo migratório forte em 1996, oriundo de Goiás, em função das Olimpíadas. “No geral o mundo estadunidense não conhece, não sabe da existência ou sequer entende o que é o Vale do Amanhecer. São templos que se disfarçam de lojas, com fachadas simples, confundidas entre as demais fachadas”, menciona José Cláudio.

Graduado em Estudos Sociais pela Fundação Educacional de Brusque, Santa Catarina, José Cláudio Souza Alves é mestre em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica – PUC-Rio e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP com a tese Baixada Fluminense: A violência na construção do poder. Leciona na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ, no Departamento de Letras e Ciências Sociais e é autor de Dos Barões ao Extermínio: Uma história da violência na Baixada Fluminense (Duque de Caxias: APPH-CLIO, 2003). Na coletânea The Diaspora of Brazilian Religions (Leiden: Brill, 2013) colaborou com a redação do artigo The Valley of Dawn in Atlanta, Georgia: Negotiating Gender Identity and Incorporation in the Diaspora.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – IHU On-Line – Qual é o contexto de surgimento da religião Vale do Amanhecer?

José Cláudio Souza Alves – O Vale do Amanhecer foi criado num período de mudanças sociais, econômicas, políticas e culturais. Isso ocorreu durante o processo de construção da cidade de Brasília, no final dos anos 1950. Tem uma relação direta com as experiências migratórias, sobretudo de nordestinos, os “candangos”, que vieram trabalhar nos canteiros de obra da futura capital do país.

IHU On-Line – Em que medida se imbricam o nascimento dessa fé e a construção de Brasília?

José Cláudio Souza Alves – As diferentes experiências religiosas trazidas à cidade, em função do forte movimento migratório das diferentes regiões do país, com destaque para o Nordeste, são expressas em um mesmo espaço sociocultural, recebendo uma atualização a partir desta realidade de deslocamento dos lugares de origem, rupturas familiares, exploração salarial, condições precárias de vida, sofrimentos decorrentes das péssimas estruturas de trabalho e de segurança. Este contexto favorece a criação de uma religião tão múltipla, sincrética e diversa de símbolos e significados como o Vale do Amanhecer.

IHU On-Line – Como a trajetória de Neiva Chaves Zelaya, sua fundadora, se funde com a história desse credo?

José Cláudio Souza Alves – Tia Neiva, como é conhecida dentro e fora do Vale, era uma mulher simples, vinda de Sergipe, junto com a família. Após a morte do esposo, que trabalhava como motorista de caminhão, ela se viu obrigada a sustentar a família. Sua opção em trabalhar como motorista, na mesma profissão do marido, a insere no mundo masculino, de forma tensa e contraditória. Numa conjuntura marcada pelo machismo e pela virilidade masculina, exaltada no processo de exploração da mão de obra nos canteiros de construção, Neiva se depara com os limites de uma sociedade que a vê deslocada, numa família incompleta e exigindo-lhe padrões masculinos. Segundo os que analisaram o surgimento do Vale do Amanhecer, esta tensão do trabalho exercido por Neiva e a ruptura com o padrão de família dominante, no qual o homem exerce sua chefia, está diretamente relacionada à criação desta religião. Há uma interpretação de que a forma do Vale se organizar, suas práticas e sua doutrina seguem num esforço de recompor esta relação entre o homem e a mulher, no plano religioso, enquanto tentativa de compensar as rupturas desta relação no plano econômico e material, vividos por Neiva a partir do seu trabalho.

Na origem, ocorreram vários fenômenos que, inicialmente, foram interpretados por Neiva na forma de problemas psíquicos. Ela começou a ter inúmeras visões e, sentindo-se num processo de enlouquecimento, busca ajuda médica. Este sofrimento a conduz a contatos com outra mulher, que passa a iniciá-la no mundo da espiritualidade a partir de uma abordagem mediúnica e espírita. Desse encontro, entre a vivência da Tia Neiva em suas manifestações visionárias e a doutrina mediúnica e espírita desta mulher, temos a base para a criação do Vale do Amanhecer.

IHU On-Line – Como o sincretismo se apresenta nessa religião?

José Cláudio Souza Alves – Ele se apresenta numa tal amplitude e variedade, que é difícil encontrá-lo em qualquer outra religião, no Brasil ou mesmo no mundo. Fundem-se elementos do cristianismo, kardecismo, umbanda, candomblé, esoterismo, etc. com a criação de inúmeros símbolos derivados destas diferentes religiões, articulados a uma prática religiosa, rituais e doutrina que fundem, com grande liberdade, estas diferentes correntes religiosas, focando muito mais na aproximação e diálogo entre elas do que na diferença e ruptura.

IHU On-Line – Em que medida a práxis dessa religião traz um novo espaço para o feminino? E como compreender o papel de Mário Sassi no contexto do Vale do Amanhecer?

José Cláudio Souza Alves – O feminino é reassumido, mas não de forma superior ao masculino. Busca-se um equilíbrio. Na prática religiosa, estabelece-se uma regra na qual um homem e uma mulher sempre estejam juntos nos trabalhos religiosos, sendo considerados respectivamente positivo e negativo, num princípio de opostos complementares. Pouco importa a posição, se apará (médium) ou doutrinador (orientador junto ao apará), homem e mulher formam um par, atuando juntos. Mário Sassi, enquanto funcionário público federal e educacionalmente qualificado, atuou na sistematização e no arcabouço teórico/doutrinário. Ele forma com Tia Neiva o par fundador do Vale do Amanhecer. Neiva tem a prática do apará enquanto Sassi, do doutrinador, porém, num plano central e determinante para o surgimento do Vale.

IHU On-Line – Como se dá a inserção do Vale do Amanhecer junto aos imigrantes brasileiros em Atlanta, EUA?

José Cláudio Souza Alves – Ao norte de Atlanta, principalmente nas cidades de Marietta, Roswell e Sandy Spring, a partir de 1996, com o evento das Olimpíadas, ocorreu um fluxo migratório muito forte, oriundo do estado de Goiás. Neste fluxo, membros do Vale do Amanhecer iniciaram a construção de templos na região. O forte sincretismo religioso e a diversidade de elementos e símbolos religiosos favorecem o diálogo com diferentes grupos de pessoas que, em terras estrangeiras, buscam apoio, cura e superação dos seus sofrimentos imediatos. O ambiente hostil, sobretudo após a aprovação no estado da Georgia, de uma lei anti-imigrantes muito dura, em meados dos anos 2000, reforça a necessidade da busca de ajuda. O atendimento individualizado, as sessões, os rituais, as formas de passes e limpezas espirituais permitem uma mediação bastante forte e concreta para um conjunto de imigrantes que trazem consigo as experiências religiosas cultivadas no Brasil. O Vale do Amanhecer transita entre esta diversidade e riqueza de expressões, constituindo-se como alternativa nesta área do campo religioso dos brasileiros imigrantes.

IHU On-Line – Qual é a ruptura que se estabelece entre o papel das mulheres seguidoras do Vale do Amanhecer em Atlanta e os homens brasileiros imigrantes?

José Cláudio Souza Alves – É muito comum que, com a limpeza de casas, as mulheres ganhem mais do que os homens. A limpeza de uma casa normalmente custava US$ 80,00. Pode-se chegar a limpar quatro casas por dia. Um homem na construção civil começa ganhando de US a US a hora. Assim, pode ganhar US$ 80,00 por dia, ou seja, quatro vezes menos. Este fato permite à mulher uma autonomia jamais vista em sua vida. Facilmente, esta situação afeta as relações entre homens e mulheres, gerando muitas vezes separações. O machismo, o moralismo e o conservadorismo dos homens nas relações com suas esposas contribuem em muito para esta situação. O Vale do Amanhecer, em tudo que até aqui vimos, funciona como suporte para esta mulher, em processo de emancipação e ruptura com os padrões de relacionamentos trazidos do Brasil.

Assim, é muito comum encontrar no Vale do Amanhecer mulheres com este perfil, atuando em todos os trabalhos e serviços. Mutatis mutandi, reproduz-se em Atlanta um pouco o que ocorreu em Brasília. Mulheres imigrantes buscam reconfigurar seu papel social, que sofre rupturas a partir da nova realidade socioeconômica encontrada. O Vale do Amanhecer surge como suporte para este processo.

IHU On-Line – Que diferenças podem ser apontadas entre o Vale do Amanhecer e outros projetos familiares evangélicos?

José Cláudio Souza Alves – O projeto do Vale do Amanhecer afina-se mais com projetos de emancipação feminina frente ao modelo familiar no qual o homem predomina como o mais importante e determinante. Insere-se em projetos de mulheres em ruptura com este padrão e que se autonomizam e que, em muitos casos, buscam outros projetos familiares mais adequados ao momento que vivido. Assim, outra característica notada entre estas mulheres do Vale do Amanhecer é o de viverem experiências afetivas e de relacionamento com homens estadunidenses. Estas relações transnacionais trazem consigo todas as dificuldades próprias das diferenças de língua, cultura, costumes, etc. Mas, para as mulheres, representam, igualmente, uma importante credencial no processo migratório, a possibilidade de legalização da sua permanência nos Estados Unidos. Assim, há um conjunto de energias e de forças em jogo nestes projetos de vida, nos quais o Vale do Amanhecer se faz presente fortalecendo e alimentando espiritual e simbolicamente os envolvidos, inclusive os homens estadunidenses, que se tornam membros.

IHU On-Line – Como a sociedade norte-americana reage e interage com os seguidores dessa religião?

José Cláudio Souza Alves – No geral, o mundo estadunidense não conhece, não sabe da existência ou sequer entende o que é o Vale do Amanhecer. São templos que se disfarçam de lojas, com fachadas simples, confundidas entre as demais fachadas. A parte da sociedade que estabelece contato mais direto são os homens envolvidos com as mulheres do Vale. Para estes, há uma troca de experiências, informações e conhecimento muito rica, que altera sua forma de ver e entender o Vale e a sociedade brasileira. Por parte das mulheres do Vale, envolvidas ou não com homens estadunidenses, há uma visão comum de que os Estados Unidos seria um país cármico, um país que passa hoje por um grande processo de sofrimento e purificação. Desse modo, a vinda delas para este país está associada a um processo de ajuda, de auxílio neste processo de purificação e de superação dos carmas ali presentes.

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