Edição 421 | 04 Junho 2013

A relação entre as novas racionalidades, a cultura e a sociedade

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Ricardo Machado

Para a decana da Escola de Gestão e Negócios da Unisinos, professora Yeda Swirski de Souza, a forma de pensar a gestão está ligada ao contexto social

De acordo com Yeda Swirski de Souza, que concedeu entrevista por e-mail à IHU On-Line, as racionalidades da gestão contemporânea dizem respeito a valores que são considerados importantes no atual contexto, permeado também pelas inovações tecnológicas. “Novas tecnologias de informação e comunicação coevoluem com negócios que competem pela inovação e customização, estruturas organizacionais mais flexíveis e formas de organização do trabalho que privilegiam sinergia e colaboração entre equipes e organizações”, explica. Para ela, as novas tecnologias e os processos de administração configuram duas hélices de um mesmo eixo. “Hoje, dificilmente a gestão poderia ser pensada de forma separada das novas tecnologias, assim como dificilmente pensamos nosso cotidiano sem eletricidade. Acredito que a questão já vai para além do impacto, uma vez que gestão e tecnologia não conseguem mais se discriminar em fenômenos separados para que possamos observar o impacto de um sobre o outro. O desenvolvimento tecnológico com evoluções e rupturas acompanha a história da humanidade e sempre impactaram os projetos de gestão”, sustenta a pesquisadora.

Yeda Swirski de Souza é professora e pesquisadora nas áreas de Comportamento Organizacional e Estratégia junto ao PPG de Administração da Unisinos. Dedica-se a projetos de pesquisa sobre empreendedorismo internacional e sobre o desenvolvimento de capacidades de empresas para negócios internacionais. Representa o Offshoring Research Network para a América Latina. Graduou-se em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, onde também fez mestrado em Administração. Fez doutorado em psicologia na PUCRS. Coordenou o Programa de Pós Graduação em Administração da Unisinos e foi editora da revista BASE. Atualmente é decana da Escola de Gestão e Negócios da Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos pensar o papel do gestor na contemporaneidade?

Yeda Swirski de Souza – Contemporaneidade remete de imediato à noção de conectividade. Certamente, a possibilidade de conectividade oportunizada pelas tecnologias, seja em nível de relações sociais seja em nível das organizacionais, marca de forma indiscutível a contemporaneidade. De qualquer forma, essa condição não é por si só determinante para que o papel do gestor ganhe características uniformes e universais. O papel do gestor pode ganhar características diferentes e isso depende de fatores como o contexto organizacional, o propósito do projeto a ser realizado, as características do ambiente externo em seus aspectos políticos e culturais.

Uma boa metáfora para pensar o papel do gestor é a do arquiteto. Nesse sentido, o trabalho do gestor começa com a criação de projetos que possam prover algum nível de felicidade para pessoas. Eu sei que essa afirmativa é muito abstrata, mas trata-se do fundamento da gestão. Organizações devem ter um fim para além de si mesmas e esse fim é social. Ou seja, o projeto de organizações e o trabalho do gestor materializam-se em objetos tangíveis tais como uma estrada, uma escola, um avião, um cinema, etc. O bom projeto otimiza e potencializa o talento de equipes e os recursos possíveis. Ainda, o gestor, como bom arquiteto, deve acompanhar as ações de execução do projeto e facilitar o seu melhor andamento.

IHU On-Line – No contexto atual, em que medida as novas tecnologias impactam na gestão e nos negócios?

Yeda Swirski de Souza – Precisamos de centenas de páginas para esboçar uma resposta a essa questão. Hoje, dificilmente a gestão poderia ser pensada de forma separada das novas tecnologias, assim como dificilmente pensamos nosso cotidiano sem eletricidade. Acredito que a questão já vai para além do impacto, uma vez que gestão e tecnologia não conseguem mais se discriminar em fenômenos separados para que possamos observar o impacto de um sobre o outro. O desenvolvimento tecnológico com evoluções e rupturas acompanha a história da humanidade e sempre impactaram os projetos de gestão. Penso que a perspectiva para analisar as relações entre tecnologias e gestão e negócios é a de entender como essas dimensões coevoluem e configuram novas formas organizacionais. Por exemplo, a revolução industrial, com sua plataforma tecnológica, evoluiu com negócios que competem em volume de produção, modelos burocráticos de organização e abordagens fordistas e tayloristas de organização do trabalho. Novas tecnologias de informação e comunicação evoluem com negócios que competem pela inovação e customização, estruturas organizacionais mais flexíveis e formas de organização do trabalho que privilegiam sinergia e colaboração entre equipes e organizações.

IHU On-Line – Podemos pensar em uma nova racionalidade da gestão? Que racionalidade seria esta?

Yeda Swirski de Souza – Devemos pensar em uma nova racionalidade. Não há certezas sobre qual racionalidade deve orientar a gestão em seus diferentes níveis. Essa discussão tem sido estimulada no principal evento internacional da área, que é o Academy of Management. A chamada deste ano estimula uma discussão sobre os sistemas econômicos e sua adequação para a construção de sociedades melhores. Além disso, consolidam-se uma cultura e uma atitude social que têm como valor a sustentabilidade social e ambiental. Essa atitude social vem se tornando também intrínseca a toda ação em gestão. Organizações, sejam elas públicas ou privadas, compõem, integram ou são atores em um sistema social e, desse modo, tendem a se comportar em sintonia com as mentalidades em seu contexto. Nova racionalidade em gestão é correlativa a novas mentalidades no campo da cultura e sociedade.

IHU On-Line – Qual a importância da formação para pensarmos modelos de gestão comprometidos tanto com a sustentabilidade quanto com o direito dos trabalhadores?

Yeda Swirski de Souza – A educação é uma responsabilidade para com o futuro. Sustentabilidade social e ambiental, como dizia antes, fazem parte de valores culturais e sociais contemporâneos. Transmitir esses valores a uma nova geração é o compromisso atual. Acredito que precisamos transmitir às novas gerações o sentido de que há chance de se construir uma sociedade melhor e isso depende de cada um se tornar também uma pessoa melhor. Em nosso país há esforços a serem empreendidos em todos os níveis. Modelos de gestão são sempre pontuais e contingenciais, e não serão suficientes para assegurar o futuro.

IHU On-Line – É razoável pensarmos em “colonialismo de ideias”? Qual o protagonismo do Brasil para pensar a gestão e os desafios da gestão na atualidade?

Yeda Swirski de Souza – Gestão e Negócios, como área do conhecimento, desenvolveu-se no Brasil muito recentemente. O sistema de pós-graduação tem cerca de quarenta anos. A pesquisa na área e a produção científica original e focada em singularidades do país e da América Latina já mostram alguma produção, mas há muito a ser feito ainda nesse sentido. Percebo nova postura entre os pesquisadores brasileiros no que se refere às relações internacionais e ao protagonismo do Brasil nos negócios e na produção do conhecimento. O Brasil é um ator econômico central na cena econômica internacional e isso estabelece relações muito mais horizontais do que a histórica relação colonialista.

IHU On-Line – Como funcionará a Escola de Gestão e Negócios da Unisinos e que papel ela ocupará no contexto atual? 

Yeda Swirski de Souza – A Escola de Gestão e Negócios da Unisinos tem como missão a articulação das ofertas nas áreas de Economia, Administração e Ciências Contábeis em seus diferentes níveis. Trata-se de um movimento cujo fim é o de buscar excelência na formação de pessoas, na pesquisa e nos projetos aplicados. Estamos como universidade nessa caminhada já faz anos. 

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