Edição 420 | 27 Mai 2013

A luz de Luiza

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Ricardo Machado

A luz de Luiza vem da vontade de viver. A teimosia da pequena menina vem do berço mais tenro do mundo, a barriga da mãe. Antes mesmo de nascer, quando ainda era um minúsculo embrião as previsões médicas não eram animadoras. Na verdade não eram animadoras para quem vê a vida de forma técnica, como foi o caso da médica que fez a primeira ecografia e atestou como “gestação interrompida”. A gravidez, como a má notícia do primeiro exame, não era esperada por Laura Rosales de Oliveira, na época com 22 anos, e por Felipe Ruiz Coelho, com 31 anos na ocasião. Porém, na semana seguinte ao primeiro exame um novo revelou batimentos cardíacos no pequeno embrião. A luz de Luiza começava a brilhar.

Naquela altura o casal não tinha a casa totalmente arrumada e a notícia do novo ente na família resultou em aceleração dos preparativos residenciais. Aos cinco meses de gestação, Laura, durante os exames de rotina, recebeu novamente uma notícia inesperada: sua filha foi diagnosticada com má formação e provavelmente deveria fazer uma cirurgia ao nascer para corrigir uma atresia de esôfago – nome técnico para a formação incompleta do canal entre a boca e o estômago. “Foi uma luta desde o início da gravidez”, conta Laura. “O pediatra disse que não era nada”, completa Felipe.

Quando as 38 semanas de gestação se completaram, exatamente nove meses, Luiza veio à luz. O parto foi relativamente tranquilo e Luiza nasceu com dois quilos e trezentos gramas, sentiu o calor do colo da mãe, depois do colo do pai, e em seguida foi para o pediatra. A pequena guerreira, como os pais a chamam carinhosamente, havia vencido sua primeira batalha. Horas mais tarde um dos médicos que tratou de Luiza disse aos pais: “A partir de hoje começa uma longa trajetória.”

A dor da memória

Enquanto os pais resgatam na memória os dias infindáveis de luta, Laura se emociona ao levar seu pensamento para o passado. A mãe conta que é difícil de relembrar todos os momentos. “Para mim é muito difícil, pois era sempre eu que a acompanhava até o bloco cirúrgico. É muito difícil entregar um filho a uma cirurgia”, relata. Ao descrever os fatos, Felipe controla a emoção e até estampa um sorriso contido entre os lábios de quem é vencedor. Luiza nasceu no dia 5 de janeiro de 2009 e a previsão inicial é que ela só poderia conhecer a própria casa um ano depois, devido aos problemas de má formação que se revelaram após o nascimento, entre eles um sopro no coração. “Aprendemos os procedimentos para os cuidados dela. Ficávamos o tempo todo no hospital. Eu tinha que cuidar ela e lavar cuidadosamente os pontos da cirurgia. Ela chorava de dor, mas eu esquecia que era pai e fazia porque ela precisava ficar bem”, conta o impávido pai-enfermeiro.

No dia da cirurgia no coração de Luiza, enquanto Felipe aguardava de pé no final do corredor do hospital, ao lado de um elevador, viu um casal de pais aos prantos. Ao mesmo tempo sua filha estava na mesa de cirurgia. Instantes depois um par de enfermeiras veio com uma maca, sobre ela e abaixo de um fino lençol branco um bebê morto. Pararam em frente a Felipe para aguardar o elevador. “Eu estava de pé, diante daquela criança e começou a passar um monte de coisas na minha cabeça. Será que é um sinal?”, conta Felipe. Não era. Horas mais tarde Laura e Felipe estavam aliviados, a luz de Luiza brilhava cada vez mais forte. A cirurgia havia sido um sucesso. Mais uma luta estava vencida.

A mais longa batalha

Pois a história das grandes batalhas da humanidade é conhecida pelos principais enfrentamentos, e a de Luiza não poderia ser diferente. O que acontece, no entanto, é que existem pequenos inimigos que se tornam grande vilões na luta diária pela sobrevivência. A mais longa batalha da pequena menina foi contra a balança. Durante um ano ela se alimentou por meio de sonda. No início era de leite materno, que a mãe laborosamente retirava todos os dias. Em seguida o alimento era um tipo de leite que custava à família R$ 2.500 por mês. “Vários professores e funcionários da Unisinos nos ajudaram. Eles recolheram dinheiro de muitas pessoas para nos ajudar. Eu tenho muito a agradecer a todo mundo”, ressalta o pai. Nos cinco primeiros meses de vida, pôr a pequena Luiza na balança era sempre um desafio, pois ela ganhava diariamente de 50 a 60 gramas e, às vezes, perdia 70 gramas por dia. Mas aos poucos ela foi conseguindo ganhar peso e ficar mais forte para enfrentar as cirurgias. 

A noite e a janela

Uma das mais simples coisas que fazemos diariamente, deitar e dormir, tem para Felipe um valor diferente. “Uma noite na UTI é horrorizante. As máquinas apitam o tempo todo. Cada minuto parece uma eternidade. Todas as noites que eu deito na minha cama, me lembro disso. Para mim é muito importante poder deitar na minha cama todas as noites”, reflete o pai que durante cinco meses passou inúmeras madrugadas dormindo dentro do próprio carro, enquanto a mãe fazia companhia à filha dormindo como podia em poltronas de hospital.

Enquanto dias e noites se passavam, Laura ia à janela do Hospital Santo Antônio, em Porto Alegre, olhar as pessoas caminhando na calçada da movimentada Avenida Independência a divagar sobre quando poderia fazer o mesmo com sua pequena Luiza. “Eu sempre olhava a janela e sonhava com o dia que eu poderia passear com ela”.

No dia 5 de junho de 2009, exatamente seis meses após o nascimento, Luiza finalmente conheceria a própria casa. O sucesso na cirurgia para corrigir o problema de sopro no coração, realizada mais ou menos um mês antes, e a boa recuperação da menina adiantou o processo. A confiança da equipe médica no cuidado dos pais foi importante para que a tormenta dos dias vividos no hospital acabasse. A notícia pegou tão de surpresa Felipe e Laura, que na euforia de colocar todas as coisas no carro, a chave do veículo ficou presa na parte de dentro do automóvel, mas nada que pudesse borrar a alegria da família, que pela primeira vez passaria a noite em casa. 

Novo lar

A luz de Luiza agora iluminava a própria casa. A menina se sentiu tão à vontade no novo lar, que mesmo passando por mais cinco cirurgias até dois anos de vida, só ficou longe dele durante uma semana na recuperação de outros procedimentos cirúrgicos. A última vez que ela se submeteu a intervenções médicas foi em outubro de 2011. Desde fevereiro do ano passado frenquenta uma escolinha infantil e faz travessuras como qualquer criança de sua idade. 

Um dos personagens marcantes dessa história é o médico Gastão Mello Coelho Silva, conhecido como doutor Gastão. “Ele foi um amigo. Nos deu conselhos. Ligávamos para ele a hora que fosse, o dia que fosse e ele sempre nos atendia. Agora quando vamos às consultas, percebemos pelo jeito que ele olha à Luiza que ela é uma vitória para ele”, conta Felipe.

Todo atendimento de Luiza foi feito por meio do convênio que o pai, motorista na Unisinos, tem com a Coopersinos – uma cooperativa de atendimento médico, que existe há 20 anos. A cooperativa conta com um fundo bancado pelos associados, cuja mensalidade varia de acordo com a faixa salarial dos empregados da Universidade. Além disso, cada procedimento realizado é subsidiado pela Universidade em parceria com o associado, conforme a faixa salarial. “Tem gente que reclama que o convênio da Coopersinos é caro. Não é, e as pessoas só percebem isso quando precisam. Essa é a conta que eu pago com mais gosto no final do mês, porque se não fosse por eles minha filha talvez não estivesse aqui”, sustenta Felipe.

O barco

Depois de todas tormentas, Felipe começou a escrever um livro cujo título já está pronto – De filha para pai – que conta todas as batalhas enfrentadas. Cauteloso, deixou para começar a rabiscar depois de tudo o que ocorreu. “Eu não queria começar a escrever e não ter um final feliz”, explica. Em seus alfarrábios, descreve o hospital como um barco. “O hospital é um barco. Estão todos remando para o mesmo destino. Uns remam forte, outros remam fraco, outros desistem e desembarcam. Vimos muitos pais lutarem e perderem seus filhos, faz parte. Somos abençoados por termos conseguido vencer”, descreve Felipe. Laura disfarça toda a força que tem ao deixar os olhos encherem-se de lágrimas, quando qualquer análise mais rápida a consideraria frágil. “Eu e ele [Felipe] nunca achamos que a Laura tinha risco de vida”, conta Laura.

Luiza agora tem quatro anos de idade. Em um dos momentos em que pegava informações por telefone para esta reportagem ouvi ao fundo do telefonema Luiza gritando e sendo repreendida pelo pai, das folias que fazia em casa. A luz de Luiza ilumina a vida dos pais e de muitas outras pessoas. A luz de Luiza é uma espécie de luz verde que acende a esperança de centenas de outras crianças e pais que ainda enfrentam a luta diária pela vida. A luz de Luiza vem da vontade de viver.

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