Edição 420 | 27 Mai 2013

Fernando Ferrari: um político de mãos limpas

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Márcia Junges

Valores defendidos pelo economista e político gaúcho continuam atuais e são objeto de debate em coletânea organizada por seu filho. Um dos ideólogos do PTB, Ferrari foi expulso do partido por denunciar manipulação do resultado da convenção para decidir o candidato à vice-presidência da República em 1960

FILHO, Fernando Ferrari. Fernando Ferrari: ensaios sobre o político das mãos limpas. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2013

Falecido em um acidente aéreo há 50 anos, pouco antes de completar 42 anos, o economista e político Fernando Ferrari deixou como um de seus principais legados a defesa de valores como justiça social, moralidade pública e desenvolvimento econômico-social. “Sendo o relator da Ordem Econômica e Social da Constituinte do Estado do Rio Grande do Sul, Ferrari apresentou proposições inovadoras sob a ótica das relações sociais de produção. Em nível nacional, foi líder do PTB, apresentou mais de 100 Projetos de Leis e entregou à Nação cerca de 30 leis de sua autoria, entre as quais, a mais importante delas, o Estatuto do Trabalhador Rural, que instituiu o início da reforma agrária no Brasil”, afirma Fernando Ferrari Filho na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O economista, que atualmente leciona na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, é o organizador da obra Fernando Ferrari: ensaios sobre o político das mãos limpas (Porto Alegre: Tomo Editorial, 2013), que rememora as cinco décadas de morte de seu pai. “O modelo político-econômico e social proposto por Ferrari, que busca uma alternativa entre os regimes autoritários e o liberalismo excludente, identifica-se com os modelos social-liberal ou social-democrata contemporâneos, nos quais as liberdades individuais são preservadas, o intervencionismo do Estado é necessário tanto para corrigir as falhas do sistema quanto para propiciar maior igualdade social e o bem comum e Estado e mercado devem ser entendidos como duas instituições simbióticas e complementares”, completou.

Fernando Ferrari Filho é graduado em Economia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, doutor em Economia pela Universidade de São Paulo – USP, e pós-doutor pela University of Tennessee System (1996). É professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando e onde nasceu Fernando Ferrari? Quem eram seus pais e seus irmãos? Quantos filhos teve e quais são seus nomes?

Fernando Ferrari Filho – Fernando Ferrari nasceu em São Pedro, em 14 de junho de 1921, então distrito de Santa Maria-RS. Em 1926, São Pedro tornou-se município: São Pedro do Sul. Seus pais eram Tito Livio Ferrari e Maria Margarida Toller Ferrari. Ferrari era um dos 11 filhos do casal Toller e Ferrari. Em 5 de maio de 1951 casou-se com Elza Ferreira, tendo 4 filhos: Silvia, Livia, Fernando e Cláudia.

IHU On-Line – Onde viveu? 

Fernando Ferrari Filho – Ferrari viveu em São Pedro, Santa Maria, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Brasília. Nas duas primeiras cidades fez ensino elementar e médio, respectivamente. Em Porto Alegre, além do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva de Porto Alegre – CPOR, cursou Ciências Econômicas na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e foi deputado estadual constituinte de 1947. No Rio de Janeiro e em Brasília, exerceu seus mandatos de deputado federal.

IHU On-Line – Qual foi sua formação acadêmica?

Fernando Ferrari Filho – Cursou Economia na PUCRS e Direito na Universidade do Rio de Janeiro. Em Santa Maria, conclui o Curso Técnico em Contabilidade. 

IHU On-Line – Qual é a atualidade das ideias de Fernando Ferrari para as lutas trabalhistas?

Fernando Ferrari Filho – Como sabemos, nos últimos 50 anos o Brasil passou por transformações substanciais nas esferas política, econômica e social. Entre 1964 e 1984 enfrentamos uma ditadura e desde 1985 buscamos uma democracia plena. Deixamos de ser uma economia subdesenvolvida e eterno “país do futuro” para sermos, além de um importante país emergente, o oitavo PIB mundial. A Constituição Cidadã de 1988 assegurou direitos essenciais, tais como saúde, educação e previdência, aos excluídos socialmente e diversos programas melhoraram a distribuição de renda. Fernando Ferrari dedicou-se a propor ações e leis que vislumbrassem essas transformações que ocorreram no Brasil nas últimas cinco décadas. Suas ideias e proposições, algumas transformadas em leis, como o Estatuto do Trabalhador Rural, base da reforma agrária no Brasil, contribuíram para a consolidação de um projeto nacional-desenvolvimentista nos anos 1950 e 1960. Ademais, os valores defendidos por Fernando Ferrari na sua Campanha das Mãos Limpas, entre os quais, justiça social, moralidade pública e desenvolvimento econômico-social, seguem mais do que atuais.

IHU On-Line – Qual foi a relevância de suas ideias para a política gaúcha e nacional?

Fernando Ferrari Filho – Ferrari e Pasqualini  foram os principais ideólogos do PTB. Sendo o relator da Ordem Econômica e Social da Constituinte do Estado do Rio Grande do Sul, Ferrari apresentou proposições inovadoras sob a ótica das relações sociais de produção. Em nível nacional, foi líder do PTB, apresentou mais de 100 Projetos de Leis e entregou à Nação cerca de 30 leis de sua autoria, entre as quais, a mais importante delas, o Estatuto do Trabalhador Rural, que instituiu o início da reforma agrária no Brasil.

IHU On-Line – Em que consistia seu projeto nacional-desenvolvimentista?

Fernando Ferrari Filho – O modelo político-econômico e social proposto por Ferrari, que busca uma alternativa entre os regimes autoritários e o liberalismo excludente, identifica-se com os modelos social-liberal ou social-democrata contemporâneos, nos quais as liberdades individuais são preservadas, o intervencionismo do Estado é necessário tanto para corrigir as falhas do sistema quanto para propiciar maior igualdade social e o bem comum e Estado e mercado devem ser entendidos como duas instituições simbióticas e complementares.

IHU On-Line – Em que medida esse projeto divergia com o trabalhismo das décadas de 1950 e 1960?

Fernando Ferrari Filho – Em relação aos princípios filosóficos do PTB, quando de sua criação, eu diria que não há divergência. As divergências de meu pai foram nos planos das ações políticas e pragmáticas, principalmente das cúpulas do PTB. Nesse sentido, quando ele rompe com o PTB e cria o Movimento Trabalhista Renovador (MTR), Ferrari resgata os referidos princípios, alicerçados nas ideias de Pasqualini. Que princípios são esses? O trabalhismo renovador, projeto econômico-social que, de certa maneira, vai ao encontro dos ideários nacional-desenvolvimentistas. Esse trabalhismo é um “sistema político-social” que tem como base a solidariedade e o cooperativismo e visa conciliar o “liberalismo político e o dirigismo econômico”.

IHU On-Line – Quais foram as circunstâncias da filiação de Fernando Ferrari ao PTB gaúcho? E como se deu seu rompimento com a sigla?

Fernando Ferrari Filho – Ferrari, ao pedir demissão do Serviço de Alimentação da Previdência Social – SAPS, após denunciar corrupção nesse órgão, retorna a Porto Alegre e é convidado a ingressar no PTB, tornando-se, conjuntamente com Pasqualini, ideólogo do partido. A ruptura com o PTB deve-se, por um lado, ao descontentamento dele com os rumos do trabalhismo na segunda metade dos anos 1950: mais “pragmático” do que filosófico. Por outro lado, ao submeter, na convenção nacional do PTB, seu nome para ser o candidato do partido à vice-presidência da República em 1960, Ferrari confrontou a cúpula do PTB, em especial Brizola  e Goulart . Quando seu nome foi derrotado na convenção, Ferrari denunciou a manipulação do resultado. Como resultado, ele não somente foi destituído da liderança do PTB na Câmara dos Deputados como também acabou sendo expulso. 

IHU On-Line – Quem foram seus maiores interlocutores?

Fernando Ferrari Filho – Além de Pasqualini, durante o período em que havia a “Ala Moça” do PTB, Brizola e Goulart eram seus interlocutores. Vargas  foi um interlocutor importante para sua ação política. Entre os oposicionistas e apesar das diferenças ideológicas, Aliomar Baleeiro, Affonso Arinos e Carlos Lacerda, entre outros, foram interlocutores constantes.

IHU On-Line – Quais foram as circunstâncias de seu falecimento?

Fernando Ferrari Filho – Em 25 de maio de 1963, pouco antes completar 42 anos, Ferrari faleceu em acidente aéreo, próximo a Torres. Na ocasião, especulou-se que o acidente foi decorrência de sabotagem, uma vez que foi encontrada areia no tanque do combustível. Houve investigações por parte da polícia e da Força Aérea Brasileira sobre as causas do acidente, mas não se chegou a uma conclusão, sendo ele atribuído às condições climáticas adversas.

Leia mais...

Confira outras entrevistas concedidas por Fernando Ferrari Filho à IHU On-Line.

* Uma política econômica única e exclusivamente para controlar a dinâmica inflacionária. Revista IHU On-Line nº 204, de 13-11-2006, disponível em http://migre.me/GlNg 

* Programa de aceleração do crescimento. Um ano depois. Notícias do Dia 23-01-2008, disponível em http://migre.me/GlNU 

* A “mão invisível” do mercado não funciona sem a “mão visível” do Estado. Revista IHU On-Line nº 276, de 06-10-2008, disponível em http://migre.me/GlMj 

* O mercado somente funciona com a “mão visível” do Estado. Revista IHU On-Line edição 330, de 04-05-2010, intitulada A crise da zona do euro e o retorno do Estado regulador em debate, disponível em http://migre.me/12P1D 

* Economia brasileira e a síndrome do Peter Pan. Revista IHU On-Line edição 338, de 09-08-2010, disponível em http://bit.ly/nqI3lJ 

* Um International Market Maker capaz de regular os mercados financeiros, publicada na edição 372, de 05-09-2011, disponível em http://bit.ly/n58LrP 

* As concepções teórico-analíticas e as proposições de política econômica de Keynes. Artigo publicado nos Cadernos IHU ideias nº 37, disponível em http://bit.ly/qowVP5

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