Edição 200 | 16 Outubro 2006

Fernando Gasparian. O homem que disse não ao não

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Celebrando a memória de Fernando Gasparian reproduzimos o artigo de Tom Cardoso, publicado no jornal Valor, 13-10-2006.

O empresário e editor Fernando Gasparian, que morreu no sábado, dia 7-10-2006, aos 76 anos, vítima de infecção generalizada, nunca foi um homem de esquerda - estava mais próximo do pensamento liberal americano -, mas era admirado por socialistas e odiado pela direita. Em março de 1964, enquanto boa parte da elite brasileira apoiava o golpe militar, Gasparian voltou-se radicalmente contra o regime. Com dificuldades financeiras no governo Médici - que cortou as linhas de créditos do Banco do Brasil, principal financiador de sua empresa têxtil, a América Fabril - o empresário exilou-se na Inglaterra, em 1969. Mas não se acovardou. Voltou ao país três anos depois, em pleno AI-5, para fundar o "Opinião", o incendiário jornal de resistência à ditadura. 
 
 Gasparian tornou-se persona non grata no meio empresarial, que, encantado com o milagre econômico, não entendia como um industrial podia pôr suas empresas em risco para se meter com "subversivos". E que turma de subversivos: Celso Furtado , Antonio Candido , Fernando Henrique Cardoso, Paulo Emílio Salles Gomes ,  Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima , Ênio Silveira .  Todos seus amigos e colaboradores. Proximidade que levou o economista Roberto Campos , seu desafeto ideológico, a defini-lo como "um socialista de salão e um capitalista de balcão".

Nem socialista nem capitalista. Nacionalista. Seu livro de cabeceira era "Japão: o Capital se Faz em Casa", escrito em 1973 por Barbosa Lima Sobrinho , sobre a importância de se promover o desenvolvimento com o capital nacional. Foi justamente o desencanto com a política econômica do ministro Delfim Netto  que o trouxe de volta ao Brasil, em 1972, além, claro, da perseguição e tortura a amigos, como o deputado Rubens Paiva , desaparecido nas mãos do regime. Lançar um jornal de oposição em plena vigência do AI-5   foi considerado suicídio político por alguns amigos, mas Gasparian bateu o pé. Convocou jovens jornalistas e formou um conselho editorial imbatível, formado pela nata intelectual do país.

No exterior, Gasparian fez acordos editorais com jornais progressistas da época, como Le Monde, The Guardian e Financial Times, num claro objetivo de blindar o Opinião contra eventuais ataques do regime militar. A presença de um conselho editorial respeitável também contribuiu para fortalecer politicamente o jornal.

"Barbosa Lima Sobrinho, Alceu Amoroso Lima eram nomes que estavam acima do chicote dos militares. De certa forma, nos davam retaguarda, junto com o Gasparian, que sempre segurou a barra com muita coragem", afirma Raymundo Pereira, editor-chefe do Opinião, que trabalhava com Elifas Andreato , Tárik de Souza , Tonico Ferreira, Cássio Loredano , Luis Trimano , Chico Caruso  e outras feras.

Nem a presença diária de um censor na redação foi capaz de apagar o ímpeto contestatório do Opinião. Irritado com as provocações à ditadura, um agente do Dops chegou a intimidar Gasparian dentro da gráfica do jornal: "Não tenho medo de cardeal, nem de Le Monde, nem de deputado. Se o senhor continuar desse jeito, vou dar um tiro na sua cara", ameaçou o censor. Gasparian deu de ombros. No dia seguinte, uma charge de página inteira, desenhada pelo argentino Luis Trimano, mostrava miseráveis subindo pelo corpo do ministro Delfim Netto, como formigas. Era a resposta à tentativa de intimidação do censor.

O artista gráfico Elifas Andreato, diretor de arte do Opinião, diz que, apesar das diferenças ideológicas entre o patrão e os jornalistas, o entrosamento era perfeito. "Gasparian não era de esquerda. Achava que a solução passava pela economia de mercado, enquanto a maioria da redação era afinada com os socialistas. Mas jamais censurou qualquer artigo. Ao contrário, incentivava o debate, a polêmica. Era apaixonado pelo Brasil, achava que o país merecia ser grande, não se conformava com o falso nacionalismo dos militares."

Apesar da tensão, da luta diária para driblar a censura, da falta de anunciantes, havia momentos de descontração na redação do Opinião. Andreato lembra que os jornalistas criaram uma escola de samba imaginária, chamada Unidos de Oslo. Uma noite, depois do fechamento da edição, a farra se estendeu até de madrugada. A "ala de frente" da Unidos só não esperava a visita inesperada do chefe, acompanhado do conselho editorial.
"O Gasparian chegou com Celso Furtado, Barbosa Lima Sobrinho e toda aquela gente refinada e seríssima. A redação estava transformada num salão de carnaval. Todo mundo bêbado, dançando. Raymundo Pereira, o editor, que deveria dar o exemplo, estava deitado no sofá da sala do Gasparian, com uma lauda de jornal sobre o rosto, para não ser incomodado. Nem sei como o jornal não acabou naquele dia", afirma Andreato.

O jornal acabou anos depois, em 1977. Pouco antes, em 1973, Gasparian comprou a Paz e Terra do amigo Ênio Silveira e fez da editora uma referência no meio acadêmico, dando espaço a personalidades perseguidas pelo regime, com o educador Paulo Freire , que publicou por lá o polêmico "Pedagogia do Oprimido". Pela editora, lançou a revista Argumento, nos moldes do Opinião, com Barbosa Lima Sobrinho no cargo de diretor-responsável. A censura, porém, logo implicou com o slogan bolado por Gasparian: "Contra fatos, há Argumento". E fechou a revista no quarto número.

"É uma pena que na elite brasileira existam poucas figuras como Gasparian. Ele abriu mão do seu patrimônio, do lucro fácil, para lutar por um país melhor. Foi um dos únicos empresários confrontados em 1964, enquanto muitos que hoje se dizem democratas apoiaram covardemente o golpe", afirma Pereira. Impedido de tocar suas publicações, decidiu criar em 1977, em São Paulo, a Livraria Argumento, no ano seguinte transferida para o Rio, onde funciona até hoje, no Leblon.

Com a redemocratização do país, Gasparian voltou à militância política, elegendo-se deputado federal pelo PMDB, em 1988. Como parlamentar, criou a emenda constitucional que limitava os juros a 12% ao ano e foi um feroz opositor da política monetária baseada em juros altos do amigo Fernando Henrique Cardoso, que depois seria mantida pelo governo Lula. "Ele não se conformava com o lucro extraordinário dos banqueiros. Era um apaixonado pelo Brasil, pelo progresso. Sempre que lia notícias sobre o pouco crescimento do PIB, punha-se a esbravejar no sofá de casa: 'Picaretas, canalhas, vagabundos!'", conta seu filho, Marcus Gasparian.

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