Edição 200 | 16 Outubro 2006

“A bacia do Rio dos Sinos opera há muito tempo no limite do que é possível”

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IHU Online

O professor da Unisinos Uwe Horst Schulz analisa em entrevista exclusiva à IHU On-Line, originalmente concedida por telefone e publicada na página www.unisinos.br/ihu, a morte de mais de 68 toneladas de peixes no Rio dos Sinos na semana passada. “Para evitar esses desastres no futuro todos os envolvidos têm de conversar e trabalhar num plano de emergência. Numa situação dessas, tem de ser claro para todos o que se deve fazer”.


O biólogo Schulz é vinculado ao Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos). Ele possui graduação e doutorado em Biologia - Universität Bielefeld em 1995, e pós-doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996). Atualmente é professor adjunto da Unisinos. Tem experiência na área de ecologia, com ênfase em Ecologia de Ecossistemas, atuando principalmente nos seguintes temas: salmão, truta, reprodução, migração. Trabalhou nas áreas de impacto ambiental, educação ambiental, migração, radiotelemetria, uso de habitat, gerenciamento da pesca: comportamento, monitoramento, gerenciamento e crescimento.

IHU On-Line - A Teoria do Big Bang possui alguma aproximação com a arkhé aristotélica (a causa incausada), ou com a causa sui dos neoplatônicos (a causa como causa de si mesma)?

Mario Novello
- Veja, sua pergunta mostra como as pessoas, mesmo aquelas com acesso enorme às informações, não estão isentas de ideologia, quando esta vem sob uma roupagem “quase-científica". A teoria do Big Bang não produz uma

IHU On-Line – O que pode ter provocado esta mortandade de peixes?

Uwe Schulz
- A bacia do Rio dos Sinos opera há muito tempo no limite do que é possível. Observamos durante muitos anos uma situação de poluição crônica que sempre se agrava e ocorre todos os anos, provocando a mortandade de peixes. Existem situações em que essas mortandades são previsíveis. Por exemplo, quando o nível do rio está baixo e acontece uma forte chuva, desce uma onde de água. Essa onda que desce está mexendo com o fundo do rio e coloca em suspensão essas substâncias depositadas. Nessas ocasiões, o oxigênio da água chega a valores em volta de zero. Dessa forma, ocorre uma mortandade. Acima disso, existem empresas que se aproveitam dessa situação e quando chove forte, eles largam substâncias acumuladas nos tanques deles abrindo as comportas. Esse é um fato comprovado pelas companhias de abastecimento de água. Esse problema que aconteceu agora foi mais grave do que as mortandades normais. Na sexta-feira à noite, dia 6 de outubro, houve previsão de chuva que não ocorreu na quantidade prevista. Se alguma empresa largou substâncias tóxicas no Rio dos Sinos, não houve um efeito de diluição. Essas substâncias chegaram ao rio e podem ter provocado essa mortandade observada.

IHU On-Line – É possível determinar que tipo de poluente pode ter causado a mortalidade ou que empresa teria sido a causadora do desastre?

Uwe Schulz
- Não, não existe a suspeita. A própria Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) autuou três empresas até agora. Eu vejo isso, não em relação à mortandade de peixes.  A Fepam começou a investigar todas as empresas na bacia do Rio Portão e encontrou várias irregularidades, mas, não necessariamente ligadas à mortandade de peixes.

IHU On-Line – O que representa a mortandade de 1 milhão de peixes mortos no universo da bacia do Vale do Sinos?

Uwe Schulz -
Isso é um pouco complicado porque este valor é um número “chutado”. Na verdade, não se sabe de alguém que tenha estimado o número de peixes com mais exatidão. O que se deveria fazer era pegar uma amostra de 200 a 400 quilos e contar tudo. Tudo que temos é estimado. Entretanto, é claro que a quantidade que morreu é muito grande e provavelmente esse trecho do rio vai demorar de um a quatro anos para se recuperar.

IHU On-Line – Qual o risco de contaminação da água pela decomposição dos peixes?

Uwe Schulz -
A decomposição de peixes pode nessa quantidade causar problemas, sim. Essa é a razão por que a Fepam e outras entidades envolvidas estão retirando a maior parte desses peixes do rio. O que preocupa são as substâncias que descem o Rio dos Sinos e que poderiam entrar nas tubulações das companhias de abastecimento público.

Com esse desastre, a única coisa positiva que poderia acontecer é a aprendizagem com o que ocorreu. Nós temos que trabalhar primeiro com a tentativa de reverter a situação crônica de poluição. Isso já está sendo trabalhado no Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio dos Sinos (Comitesinos), e na própria Unisinos com vários projetos que as Unidades das Ciências da Saúde e das Ciências Exatas estão desenvolvendo, mas nós temos que trabalhar com a situação aguda também. Parece que a Fepam chegou 30 horas depois do acidente. Não ficou claro se a maneira como ela foi acionada foi adequada ou se a própria reação da Fepam foi dentro do que se espera. Tem que haver um plano de alerta das companhias de abastecimento para ter certeza se as pessoas não vão ser intoxicadas com estas substâncias que podem descer no Rio dos Sinos.

IHU On-Line – Quais as principais espécies de peixe que morreram?

Uwe Schulz
- Eu tenho mais a informação divulgada na imprensa. Eram peixes de pequeno e médio porte como lambari e biru. E peixes migradores como dourado e grumatã.

IHU On-Line – O que a sociedade pode fazer numa situação dessas?

Uwe Schulz
- A sociedade tem que fazer duas coisas: ela tem que evitar esse tipo de acidente. É claro que as empresas que atuam no Rio dos Sinos fazem parte da nossa sociedade. Todos precisam de emprego e utilizam os produtos feitos aqui. Então, nós temos que exigir mais responsabilidade da parte das indústrias. Nós temos que pedir também mais responsabilidade da parte dos nossos municípios. O próprio cidadão pode intervir nisso diretamente através do seu voto. Poucos prefeitos têm uma agenda ambiental, poucos prefeitos colocam estações de tratamento de esgoto como prioridade na sua política. O cidadão tem que pedir isso para diminuir a situação de poluição crônica que o Rio dos Sinos está sofrendo. Tem que haver mais investimentos na parte de esgotos. Hoje, essa poluição crônica com esgoto é o vilão da nossa bacia.

IHU On-Line – O episódio pode prejudicar de forma definitiva a fauna do Rio dos Sinos e afluentes?

Uwe Schulz
- Nós temos que ver esse acontecimento no contexto ecológico. Se somarmos vários eventos desse tipo, a fauna pode sofrer por um período muito longo. Por usa vez, a nossa fauna tem uma capacidade muito grande de recuperação. Ela deve, porém, ter a oportunidade de fazer isso. Vai ser preciso um determinado tempo sem eventos negativos.

IHU On-Line – E quem vive da pesca na região, como vai ficar?

Uwe Schulz
- Essa é uma questão delicada. A minha hipótese é que não existem pescadores profissionais trabalhando no próprio Rio dos Sinos. Existem pescadores de subsistência que de vez em quando pescam para alimentar a própria família. Há alguns que vendem também, mas essa venda não é legal. Essa pesca de subsistência é um grande problema para o Rio dos Sinos porque ela não é executada  conforme os padrões legais. O cadastramento de 400 famílias para ganhar cestas básicas do Ministério da Pesca mostra claramente que essas pessoas não tinham cadastro no Ibama. Isso é necessário para um pescador profissional.

IHU On-Line – Mais alguma questão que o senhor queira falar sobre esse desastre?

Uwe Schulz -
Sim. O que nós estamos precisando é de um diálogo de todas as partes envolvidas. O local desse diálogo é o Comitesinos. Ele funciona como um parlamento de águas onde todas as categorias do Vale do Rio dos Sinos estão representadas. Lá estão as indústrias, os municípios, as instituições de ensino superior. Para evitar esses desastres no futuro todos os envolvidos precisam dialogar e trabalhar num plano de emergência. Numa situação dessas, deve ficar claro para todos como é preciso agir.

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