Edição 200 | 16 Outubro 2006

Uma escolha suicida

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IHU Online

“Se a nossa escolha suicida for mantida, infelizmente muitas espécies de microorganismos, de animais e de vegetais diminuirão muito”, é o que diz o professor de genética e vice-diretor no Departamento de Biologia Animal e Genética Leo Pardi da Universidade de Firenze, Marcello Buiatti. Buiatti também disse que os cálculos elaborados no Millennium Ecosystem Assessment, uma fonte da ONU dizem que a velocidade de extinção das espécies animais e vegetais é de mil vezes superior a dos períodos precedentes, incluindo os de máxima extinção. “Tudo isso acontece exatamente pela tendência humana a submeter a um único modelo produtivo o nosso Planeta, mudado pelas revoluções industriais”, completa.

Buiatti é presidente do Centro Interdepartamental Biotecnologia Agrária Química e Industrial (CIBIACI) e presidente nacional da Associação Ambiente e Trabalho, além de membro da Comissão Ministerial Ambiente Biodiversidade e Bioética. Ele concedeu uma entrevista para a revista IHU On-Line por e-mail. O professor costuma vir ao Brasil porque faz parte de um projeto de cooperação Brasil-Itália que tem sede em Brasília, mas estende-se por quatro zonas do País e refere-se à conservação da diversidade das agriculturas.

IHU On-Line - O conceito de pós-humano pressupõe evolução biológica e/ou cultural?

Marcello Buiatti -
A estratégia de adaptação humana, diferentemente do que ocorreu com outros primatas, não se baseou na variabilidade genética, mas na variabilidade cultural. A prova disso é que a nossa variabilidade genética atual, medida com refinados métodos moleculares, é muito menor do que a do gorila ou a do chimpanzé, mesmo que estes dois animais sejam muito mais numerosos do que nós. Isso deriva, no entanto, do baixo número de indivíduos que compunham a nossa espécie antes que, 50.000 anos atrás, os homens africanos se movessem daquele continente e rapidamente se expandissem por toda a Terra. Como éramos poucos, tínhamos pouca variabilidade, que se conservou como tal mesmo que tenhamos ocupado ambientes diversos. Isso porque, enquanto os animais, e assim também os outros Primatas, se adaptaram aos diversos ambientes, modificando, com a seleção natural, a sua estrutura genética, a estrutura humana permaneceu quase igual, e nós nos adaptamos com a nossa variabilidade cultural que nos permitiu modificar, em muitos modos, os ambientes nos quais nos encontrávamos.

São indícios disso as 6000 linguagens que ainda existem na Terra, mesmo que se estejam extinguindo com grande rapidez. Portanto, a nossa estratégia de adaptação utiliza a enorme capacidade de invenção do nosso cérebro , muito superior àquela do nosso DNA. Hoje sabemos que temos somente 23.000 genes, enquanto possuímos cem bilhões de neurônios que podem formar infinitas conexões. Portanto, a capacidade de informação do cérebro é infinitamente superior a do genoma. É óbvio, pelo que foi dito, que as diversas culturas são a nossa única riqueza, sem a qual a nossa espécie, muito fraca e pouco variável geneticamente, seria rapidamente extinta. Infelizmente, está em ato um processo muito perigoso de eliminação da nossa variabilidade cultural, com a extinção de linguagens, alimentos, religiões, ritos, literaturas, músicas. Estamos perdendo, contemporaneamente, também a variabilidade genética das plantas cultivadas e dos animais criados, extremamente importante para termos agriculturas independentes dos adubos, pesticidas e outros aditivos químicos. O que está acontecendo é que os camponeses são expulsos das suas terras pela agressão das agriculturas industrializadas e vão para as grandes cidades para morrerem de fome, perdendo, assim, o sentido das suas comunidades, as línguas, as culturas, e abandonando sementes e animais que são completamente perdidos.

Tudo isso porque acreditamos na equivalência dos viventes às máquinas, computadores dotados de um só programa. Se isso fosse verdade, então o nosso objetivo seria o de nos tornarmos todos iguais e “ótimos”. Na vida, as coisas não são assim: não vence quem é homogêneo e “ótimo”, mas vencem aqueles que são flexíveis, mudando facilmente quando é necessário, e assim se adaptam aos diversos ambientes, aos diversos contextos, às diversas condições de vida. Se a tendência não mudar, o pós-humano não será diferente do ponto de vista genético, no sentido que a nossa bagagem hereditária não mudará em nenhum modo. Será, porém, diferente do ponto de vista cultural, porque terá perdido a capacidade de invenção, abandonando a estratégia de adaptação que nos permitiu viver em ambientes muito diversos. O pós-humano será idêntico, ou quase, a nós do ponto de vista físico, mas estúpido (incapaz de invenções para a mudança) tanto individualmente quanto coletivamente. Ou melhor, mais do que estúpido, muito provavelmente será morto, porque, se não mudamos, morremos e nos tornamos como umas máquinas. Depende de nós mudarmos essa tendência e voltarmos à nossa fonte de vida, a diversidade, que em nós somente pode ser cultural, assim como escrevi no meu livro A Benévola Desordem da Vida.

IHU On-Line - Qual será o espaço que outras espécies animais terão no mundo pós-humano? O homem continuará sendo o centro das questões?

Marcello Buiatti -
Se a nossa escolha suicida da qual eu falava antes for mantida, infelizmente muitas espécies de microorganismos, de animais e de vegetais diminuirão muito. Já hoje os cálculos elaborados no Millennium Ecosystem Assessment, uma fonte da ONU extremamente confiável e atualizada, nos dizem que a velocidade de extinção das espécies animais e vegetais (e não há dados sobre os microorganismos) é de mil vezes superior a dos períodos precedentes, incluindo os de máxima extinção. Tudo isso acontece exatamente pela tendência humana a submeter a um único modelo produtivo o nosso Planeta, mudado pelas revoluções industriais. Este é um modelo de alto consumo dos recursos não-renováveis, portanto determina profundas mudanças no clima e na própria estrutura da biosfera e dos ecossistemas que a constroem. E não é somente isso, mas a imposição de um único modelo de agricultura comporta inevitavelmente o aumento contínuo do desmatamento, e com isso a perda da flora e da fauna que vive nas florestas, contemporaneamente à perda de variabilidades de plantas e de animais domésticos. Em outras palavras, a autodestruição dos seres humanos é previsível exatamente porque o modelo de desenvolvimento prevalecente destrói em geral as condições de vida atuais. Naturalmente, não todas as plantas e animais serão eliminados, e principalmente os microorganismos serão capazes de sobreviver. Em última análise, os primeiros a sofrerem pelo estado do Planeta seremos nós, espécie patroa, mas extremamente frágil se fica incapacitada de mudar de modelo.

IHU On-Line - Como é possível entender os aspectos positivos e negativos do conceito de pós-humano?

Marcello Buiatti
- A nossa espécie tem diante de si escolhas que devem ser feitas com grande rapidez, e serão estas escolhas que determinarão à positividade ou não do pós-humano. Se nos dermos conta rapidamente dos erros que estamos cometendo e compreendermos que as atividades humanas e a nossa própria vida dependem das vidas dos outros seres viventes que povoam o Planeta e que todos dependemos do estado deste e do seu clima, da presença de recursos renováveis e não-renováveis suficientes, poderemos também ter um desenvolvimento positivo para a vida em geral e também para a vida humana. Para que isso aconteça, são as próprias sociedades humanas que devem mudar. É necessário que seja instaurado um processo que leve à solidariedade mundial, à eliminação das diferenças nos níveis de vida e de bem-estar das populações, ao respeito e à valorização das diversidades humanas. Uma sociedade futura positiva não poderá surgir se os homens não souberem impor a si mesmos leis de mercado que não privilegiem o mais forte, que detenham o uso indiscriminado dos recursos, principalmente aqueles da diversidade dos seres viventes e das culturas humanas. Isso não será possível se não nos dermos conta do perigo ao qual estamos indo ao encontro, e se não compreendermos que o crescimento da circulação monetária (o GNP) não é de verdade o único índice de bem-estar que devemos levar em consideração, voltando a atribuir o valor de uso aos produtos e a tudo aquilo que nos circunda. Isto é, não é correndo mais para aumentar vertiginosamente a transferência de moeda e o consumo dos quatro elementos (ar, água, fogo, ou seja, energia, solo) e da vida que teremos resultados positivos.

IHU On-Line - Como fica a ética dentro de um mundo pós-humano? Ainda é possível pensar em ética nesse contexto?

Marcello Buiatti
- Eu, pessoalmente, acredito que haja uma ética da mudança positiva, que é aquela que eu descrevi anteriormente. Essa é uma ética laica, mas que, acredito, seja perfeitamente aceitável também por quem é religioso. Se ética quer dizer ”não faça aos outros o que não queres que os outros façam a ti”, e se estendermos o sentido de “outros” a todos os seres viventes, é bem evidente que somente com esta ética nós e os outros poderemos sobreviver. Desobedecer este princípio significa de fato desobedecer também ao mandamento de não matar, porque é morte o que produzimos com a nossa corrida em direção ao precipício. Somente restabelecendo os necessários laços positivos entre os seres humanos e entre estes e os outros seres viventes conseguiremos inverter a rota, e essa é uma operação de altíssimo valor ético que começa com o fim das guerras, das discriminações, das matanças em massa de nós, humanos, e dos outros, plantas, animais e microorganismos.

IHU On-Line - Há como traçar um futuro próximo? Quais serão nossos maiores desafios, como seres humanos? Quais serão os desafios de outras espécies de animais?

Marcello Buiatti
- A nossa espécie, na sua versão atual, na minha opinião, começou a existir quando nasceu no ser humano a capacidade de representar a natureza externa como forma de arte. O processo foi o seguinte: simplesmente observando tudo o que nos circundava, passamos à sua elaboração no nosso cérebro, e após a projeção na matéria externa do fruto desta elaboração. Isso aconteceu já há 27.000 anos, com esculturas que já representavam homens, mulheres e roupas com as quais se cobriam. Esta foi à primeira forma de projeto. E o que é um projeto, de fato, senão o recolhimento de dados, a sua elaboração e a sua transformação no projeto, que depois é projetado na matéria externa? Nenhum animal é capaz de fazer isso mesmo que use de modo monótono, de geração a geração, matéria externa para realizar algumas ações. Inicialmente, a projeção servia para encontrar instrumentos aos quais fossem adaptadas casas para proteger-se do ambiente, roupas para cobrir-se, e finalmente agriculturas, quando abandonamos a caça e a pesca. As agriculturas também eram construídas para adaptar-se aos ambientes diversos, que sempre eram respeitados. Mais tarde, começou-se a produzir máquinas cada vez mais sofisticadas, que tinham cada vez menos a ver com a adaptação, e sempre mais a ver com o objetivo de construir um mundo todo máquina e todo adaptado a nós. Aconteceram as revoluções industriais e lentamente se construiu a idéia de que todo o Mundo era uma grande máquina para conhecer, e, portanto, para mudar, tornando-o otimizado, como sempre se faz com as máquinas. Na segunda metade do século XX, firmou-se a convicção de que também os seres humanos eram máquinas, e, mais precisamente, computadores, todos dotados de um só programa.

Sujeitos objetos

Deste modo, transformavam-se os sujeitos viventes em objetos, para poder modificar segundo a nossa vontade, sem nenhum perigo. De fato, as máquinas têm todas um só programa, dado pelo homem, e farão obrigatoriamente tudo o que o homem lhes disser que devem fazer. A partir daí, o passo seguinte é o de considerar todo o mundo como uma imensa máquina otimizada, regulando suas peças uma a uma. Esse é o modelo industrial que é bem representado no filme Metrópolis, de Fritz Lang. Hoje, além de manter essa “utopia mecânica”, estamos aderindo ao valor crescente da moeda como tal, pelo qual um objeto, ou uma parte da natureza, não serve porque é útil para a nossa vida, mas porque gera dinheiro. E de fato, somente uma pequena parte da transferência de moeda que ocorre com os meios informáticos mais sofisticados é coberta pela matéria, o resto é moeda como tal. E no mais, o PIB tornou-se índice de riqueza real, quando é, ao invés, somente índice de movimentos financeiros. O PIB, de fato, cresce quando há desastres, porque se investe nos reparos, cresce se o sistema sanitário público não funciona, porque se investe no privado, etc., isto é, chegamos à última fase da alienação da matéria vivente que existe, quando existe somente porque tem um nome e movimenta moeda. É esse nosso afastamento da realidade da nossa vida que nos torna incapazes de nos assustarmos diante de catástrofes naturais, incapazes de nos preocuparmos quando o clima muda e a variabilidade se perde, porque todas essas são notícias que removemos.

Não somente a nossa capacidade de adaptação é bloqueada, mas nem mesmo queremos nos dar conta dos perigos nos quais estamos nos precipitando, na tentativa de tornar “otimizada” a máquina do Mundo. Naturalmente, todo esse processo não é espontâneo, mas dirigido por grandes forças econômicas e militares que não se dão conta de quão efêmera seria sua vitória total, que levaria somente à sua destruição. O desafio que se põe é o de voltar a viver, a viver verdadeiramente sentindo a necessidade de estar bem, de mudar para sobreviver, de mobilizar os nossos grandes recursos para a vida, e não para uma utopia suicida. Este desafio deve ser afrontado agora, porque somos a única espécie que sozinha é capaz de mudar todo o Planeta, e por isso temos uma força imensa capaz ainda de inverter o processo, mas somente se houver intenção de fazer isso. Portanto, o Mundo deve estar novamente em condições de confrontar-se com as verdades da vida, de escutar também o que a ciência diz nos primeiros anos do terceiro milênio, de não fazer a política do avestruz quando chegam as notícias de catástrofes iminentes, tachando de loucos aqueles que defendem a vida. Temos que, ao invés, voltar a gozar a vida e a defender-nos de tudo o que a está suprimindo, incluídos os seres humanos aparentemente donos do Mundo, que serão os primeiros a sucumbir.

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