Edição 416 | 29 Abril 2013

Charles Taylor e o debate liberais-comunitários: a necessidade de uma fusão cultural permanente

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

Acompanhe a síntese das palestras de Taylor na Unisinos

 

Uma cálida manhã de outono e uma plateia que lotou a sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, marcou a primeira conferência do filósofo canadense Charles Taylor no Brasil em 24-04-2013 . Concentrando suas ideias em torno do debate liberais-comunitários, o pensador iniciou sua fala trazendo a variedade de sentidos que tais conceitos costumam assumir em nossos dias. Isso porque as pessoas partem de bases muito diferentes para abordar tal temática. A reportagem é de Márcia Junges.

Na opinião de Taylor, é preciso compreender a influência do mundo anglo-saxão no debate liberais-comunitários. Assim, um dos autores fundamentais nesse assunto é John Rawls (1905-2002) , que inaugurou uma onda de estudos sobre o neoliberalismo. A série de teorias iniciada com Rawls é normativa, e em seu caso é a teoria da justiça que ocupa lugar central, com o volumoso A teoria de justiça.

Tocqueville  (1805-1859), grande pensador francês do século XIX, foi elencado como um autor importante para que se compreenda a democracia liberal, observa Taylor. “Tanto Rawls quanto Tocqueville estão preocupados em analisar a sociedade moderna em relação às anteriores”. E frisou: “Uma sociedade pode ser liberal sem ser democrática. Os regimes que buscavam igualar as massas eram terrivelmente autoritários”.

Joseph Schumpeter  (1883-1950), pensador austríaco que migrou para os Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, previa em sua teoria que a democracia continha espaço para manter as pessoas em uma inatividade programada, uma espécie de apatia. Esse autor escreve sobre o medo de que o poder tem de que as pessoas queiram participar demais da política, trazendo ideias intolerantes e inconvenientes. Tais autores fazem uma espécie de preempção sobre a “periculosidade” da democracia, como se fosse melhor a política nos tempos da Inglaterra do século XVIII. Algo como “vamos então deixar as elites governarem”. A partir disso percebemos que liberalismo e democracia não andam de mãos dadas necessariamente. 

Charles Taylor recuperou a ideia de tirania da maioria, tributária a Tocqueville, que alertava para o fato de que esta poderia tomar conta da sociedade. Tal posicionamento é recorrente na história norte-americana, como no período de McCarty (1908-1957) e no pós-11 de setembro. Tocqueville, um democrata destacado, queria compatibilizar democracia e liberalismo. Toda a tradição que chamamos de republicanismo é uma teoria que se preocupa com a república, a democracia autogovernante a encontrar condições para sua saúde contínua.

Em sua obra, Monstesquieu (1689-1755)  falava sobre a república, a monarquia e o despotismo. A razão que mantém a monarquia viva é a honra, e na república trata-se da virtude. Essas ideias influenciaram desde Rousseau (1712-1778) até Hannah Arendt (1906-1975), e se preocupam com a saúde de uma democracia liberal, e não simplesmente com valores em si. Esse é o estranho contexto no qual surge o debate liberais-comunitários, comenta Taylor.

Sociedades de imigração

Os liberais de inclinação normativa se depararam com várias objeções à sua teoria. Um sentido da palavra comunitarismo é a reação das pessoas a partir dessa tradição humanística cívica contra o liberalismo simplesmente normativo. Nos EUA fala-se em movimento comunitário sem grande poder político, mas com influência intelectual destacada. Contudo, pondera Taylor, temos que observar de perto que em nome da liberdade as pessoas não acabem promovendo a ascensão de certos atos negativos. A saúde de uma sociedade republicana fica periclitante quando se elevam empresas em vez de pessoas. A reação republicana é de que deveríamos ver as questões de liberdade num contexto de responsabilidade.

Outro sentido de liberalismo, bem diferente e que usa o termo comunitarismo, é aquele que fala de comunidade da república inteira, de toda a sociedade. Outros falam em comunidades culturalmente definidas. Em muitas comunidades norte-americanas e mesmo do Canadá, seus membros vêm do exterior. Durante muito tempo tais sociedades se definiram com sociedades de imigração, e estavam estruturadas para isso. O segundo tipo de sociedade de imigração são aquelas que se converteram em sociedades de imigração sem querer sê-lo, como é o caso da Europa Ocidental, caso da Alemanha após a construção do muro. Havia empregos que deveriam ser ocupados, e a taxa de natalidade estava caindo. A Alemanha Ocidental recebeu, então, um influxo de imigrantes para suprir essa lacuna. O que se fez nesse país foi definir tais trabalhadores como Gast Arbeiters.

Fusão cultural permanente

O feminismo nas sociedades do Hemisfério Norte surgiu para romper com um modo de pensar e agir. Uma das características fundamentais das democracias dessa parte do globo é a existência, ou pela primeira vez, a autoasserção das diversidades. Nesse caso temos o problema de grupos diferentes dentro das sociedades liberais mais amplas, clamando por aceitação, igualdade e liberdade. O comunitarismo poderia designar qualquer doutrina e dizer que devemos reconhecer as diferenças e dar às pessoas o que elas merecem. Esse significado é tão diferente do primeiro que chega a ser contraposto a ele.

E o que o reconhecimento realmente acarreta? “É aqui gostaria de falar em multiculturalismo, termo também confuso em sua delimitação de sentido e que significa várias coisas diferentes”, completou Taylor. Criado na Austrália e logo depois utilizado no Canadá, esse conceito foi endereçado às pessoas demonstrando as diversidades oriundas da globalização. Uma parte dos primeiros imigrantes desses locais veio das ilhas britânicas, da Itália, da Alemanha, da Espanha, da Europa Oriental e do mundo todo. O senso de diversidade cultural cresceu muito, e o multiculturalismo era um conjunto de políticas para lidar com essa diversidade. Por um lado, o multiculturalismo foi entendido como um incentivo à criação de guetos, mas tal interpretação correspondia à forma como as sociedades europeias reagiam a isso. “As pessoas diferentes não deveriam invadir a paz da sociedade, perturbando-a”, disse Taylor.

No Canadá o multiculturalismo queria integrar pessoas de todas as nacionalidades. O fato de seus ancestrais virem de outros lugares não retira a igualdade dos cidadãos de diferentes nacionalidades. Isso foi acompanhado de propostas de inserção e reconhecimento de pessoas, reconhecimento como cidadãos, com base numa cidadania comum. “Entretanto, a palavra comunitarismo pode realmente tornar esse debate muito confuso. No caso da França, a palavra multiculturalismo foi assimilada a reconhecimento de primeira espécie. A diferença é reconhecida, mas as pessoas devem ficar em seu lugar. Isso porque representam uma ameaça à república, pensam os franceses”. Entretanto, é preciso integrar as pessoas numa cidadania comum, pontua o pensador. “A pessoa estrangeira tem direitos e deveres como todos”. 

Ao longo desse debate, há dois quadros do comunitarismo; um deles, de um lado, está associado ao termo negativo, apontando que o grupo deve ser diferente sem se misturar. E, do outro lado, você reconhece e oferece a possibilidade de as pessoas viverem nesse lugar. Taylor ressaltou que a fusão das culturas é fundamental, e que estas elas em mudança permanente. “As pessoas são acostumadas com uma continuidade e uma linearidade culturais, e gostam de pensar que a sociedade continuará a ter estruturas imutáveis. Essa é uma das grandes reações emocionais. Tudo e todos que tiram essa linearidade são mal recebidos”. O interlúdio infeliz na história do Ocidente é a nossa surdez para as outras culturas, arrematou.

Democracia e reforma constante

Uma democracia moderna e diversificada tem a ver com sua própria reforma. Esse sistema político tem que se perguntar o que se está fazendo e tentando promover. “Temos lutas tremendas no Quebec sobre as diferenças religiosas, sobretudo com os muçulmanos. Na Europa e América do Norte há movimentos perigosos de islamofobia em institutos acadêmicos de direita que refletem o suposto perigo dessa religião, que deve ser combatida”, lamentou Charles Taylor. “Nas democracias modernas devemos trabalhar constantemente sobre esse tipo de exclusão”.

Temos um profundo mal-estar em relação à mudança em nossas sociedades. Trata-se de uma questão central nas democracias de nosso tempo. Tocqueville não precisava se preocupar com esse fator. Ele figura como um pensador interessante porque percebeu as duas as exclusões massivas que ocorriam pelos idos de 1830 nos EUA, em relação aos índios e negros. Ele descreve a exclusão dessas pessoas e discutiu a democracia americana nos termos em que os americanos a concebiam. Tal teoria está baseada em ignorar esse tipo de exclusão. Nas sociedades atuais do Hemisfério Norte isso é impossível. “Há um saudosismo de voltar ao passado, quando ‘sabíamos quem éramos’”, ironiza Taylor.

 

“Não é possível ser solidário unilateralmente”. Charles Taylor e o debate liberais-comunitários

No segundo dia do Debate liberais-comunitários: Colóquio com Charles Taylor, na quinta-feira, 25-04-2013 , o filósofo canadense iniciou sua explanação falando sobre os bens irredutivelmente sociais, tensionando a partir desse conceito como pode se constituir uma teoria crítica da política liberal. A reportagem é de Márcia Junges.

De acordo com Taylor, John Rawls afirma que a principal virtude de uma sociedade é que ela seja justa em termos de bens que podem ser distribuídos, como a prosperidade, bem-estar econômico e bem-estar nacional. Os bens não distributíveis são a amizade e o amor, o que Taylor chamou de bens de comunhão. Os bens irredutivelmente sociais incluem:

1) A confiança social – em democracias ricas e bem sucedidas não falamos sobre isso porque trata-se quase de um pressuposto, disse Taylor. “Mas estamos prestes a perder essa prerrogativa. Achamos que podemos confiar uns aos outros, quando reina uma desconfiança mútua ubíqua. Contudo, esse bem pode e deve ser partilhado”. 

2) Comunalidade – refere-se ao grau em que nos sentimos parceiros em um empreendimento na sociedade. Trata-se de algo análogo, porém mais fraco, à amizade descrita por Aristóteles no livro VII da Ética. Podem-se ter graus de comunalidade e confiança diferentes na sociedade.

3) Solidariedade – estamos dispostos a colaborar com o Outro? Nos EUA existe uma grande solidariedade em relação a certas coisas, como em desastres naturais. Já em casos de problemas pessoais como perda de emprego ou problemas de saúde, o nível de ajuda é extremamente baixo. “Mas não é possível ser solidário unilateralmente”, relembrou o filósofo canadense.

A grande ousadia da modernidade

Algo a ser desfrutado coletivamente compreende os recursos de posses coletivas, cujo bem é passível de distribuição, como o petróleo, no caso do Canadá e Brasil. Por outro lado, existem recursos culturais que fazem parte da língua e cultura. O que aconteceria se perdêssemos a grande tradição musical do Ocidente? Isso ocorre quando culturas menores são absorvidas por maiores. É estranho como na disseminação da música ocidental pelo mundo esta marginaliza aquela originária dos outros países. Na Índia as pessoas gostam de Beethoven e Mozart, mas mantêm seus gostos e tradições musicais originários.

A cultura e a língua continuam existindo porque são intercambiadas constantemente na sociedade. Mas também é assim que as línguas desaparecem, pontuou Charles Taylor, referindo-se ao ocaso de idiomas de povos originários do Canadá. E o que isso pode significar para a teoria política? Existe uma tendência na teoria política analítica anglo-saxã em termos de conceber a política em termos individuais e bens individuais. 

Na obra La societé des égaux  (Paris: Editions du Seuil, 2013. 432 pages ), de Pierre Rosanvalon  é exposto o desenvolvimento da democracia a partir da revolução americana e francesa, e os altos e baixos da ética subjacente a elas. Esse nível de igualdade é vivido pelas pessoas envolvidas no projeto democrático. Somos parceiros iguais no empreendimento coletivo da sociedade. 

A ideia da democracia moderna, na qual todas as pessoas são membros do empreendimento em pé de igualdade é a grande ousadia da modernidade, garantiu Taylor. A grande aposta da democracia moderna é que todos deveriam ser incluídos em termos de igualdade. “Existe uma impressão compartilhada entre a população de que somos cidadãos iguais. Essa percepção aflora e passa para um segundo plano frente a percepções de desigualdade. Isso é essencial da própria democracia ocidental”, frisou o pensador. “Há uma dificuldade entre os grupos de se verem e entenderem como parceiros. A igualdade de distribuição é importante na democracia, mas é preciso algo ainda maior. Trata-se dos bens irredutivelmente sociais”.

Supernormatividade

Somos obrigados a passar de uma noção puramente normativa e individual para uma outra que examina as condições da realização das normas. Essa teoria também coloca em primeiro plano certos bens sociais irredutíveis. Não teremos o tipo de sociedade que queremos a menos que tenhamos muita solidariedade, confiança mútua, comunalidade. Não chegamos nem sequer perto daquelas normas, e precisamos ter uma teoria que dê conta disso.

E o que move essa supernormatividade e concentração? É uma concepção profunda e defeituosa do raciocínio, da razão. Em Richard Dawkins  lemos que o direito é mais importante que o bem. Qual é a ação correta a ser feita? O bem é uma abreviação entre o que era a vida boa para os antigos? Surge a esperança no pensamento pós-iluminista que podemos deixar tudo isso de lado. 

“Temos uma compreensão muito reduzida da racionalidade na filosofia moderna. O raciocínio é fundamental na racionalidade, mas claramente isso não é a história toda, porque qualquer raciocínio acontece numa certa linguagem. O raciocínio só é bom na medida em que os termos sejam perceptíveis”, acrescentou Taylor. Nosso conhecimento é inseparável do contexto em que vivemos e como superamos as fontes de conflito.

Na opinião de Taylor, o que se verifica é que sentimos um impulso mais forte para ajudar certas pessoas porque formamos comunidade com elas. Aí surge a questão sobre o bem que reside nessa comunidade. De toda forma, é preciso uma mudança de paradigma. Um bom exemplo disso é a Teologia da Libertação . “Temos uma tradição cristã antiga e estabelecida que faz a opção preferencial pelos pobres. Há uma junção de compreensão onde os encontramos na história moderna”, disse o filósofo.

 

A vivência da fé numa sociedade secular. Um relato autobiográfico de Charles Taylor 

Na manhã da sexta-feira, 26-04-13, Charles Taylor esteve à frente da Conversação com teólogos/as: vivência da fé numa era secular. Um relato autobiográfico. Ele recuperou aspectos sobre sua vivência religiosa, referindo-se à experiência da igreja católica de língua inglesa em Quebec, no Canadá, cujo início se deu no século XVII.

De acordo com Taylor, há três tipos de biografias entre os cristãos no nosso tempo. Primeiramente mencionou aquelas pessoas que não vivenciaram rupturas em sua fé, prosseguindo com o credo que professavam em família, desde cedo. Essas pessoas se sentem ameaçadas pela secularização que se propaga pelo mundo, e querem se defender desse tipo de ambiente. Bento XVI se encaixa nesse perfil, comentou.

No segundo grupo de cristãos se enquadram aqueles que ainda creem, ao passo que no terceiro grupo figuram os que passaram a crer novamente. 

Os cristãos que ainda creem são aqueles que pensam que talvez tenham uma perspectiva semelhante à primeira categoria de pessoas descritas por Taylor, as tradicionais. Essas são pessoas cujo hiato que ocorreu em sua vida foi motivado pela forma contínua da fé que seus pais tinham. Descobriram nova caminhada para dentro da fé. Esse hiato aponta para formas muito diferentes de vivenciar a fé, na qual as pessoas não podem simplesmente recuperar a forma que esta tinha no passado. Isso não significa nada para elas. Mas trata-se de recuperar uma nova abordagem para a fé. O Concílio Vaticano II  constituiu a base para uma série de pessoas que voltaram a crer. Tratava-se de um empreendimento extraordinário de teólogos que organizaram esse evento.

Para os teólogos Yves Congar  e Henri De Lubac  estas formas diferentes estão no contexto de uma profunda continuidade da tradição. De certa forma, toda trajetória intelectual desses teólogos frente ao antimodernismo era de recuperar as fontes dos padres da Igreja para ver que havia uma forma de se apropriar dessa herança. A teologia por trás do Vaticano II se deu conta da importância do voltar a crer.

O retorno à fé

No grupo três há a percepção de que foi um erro abandonar a fé, e passa-se a ver sentido novamente na crença, destaca Taylor. O filósofo canadense se disse integrante dessa parcela de cristãos. “Antes do Vaticano II eu era um adolescente confuso. Agora sou um octogenário confuso”, gracejou. “Muitas coisas não eram aceitáveis na Igreja no meu tempo de juventude. A Igreja em Quebec era muito autoritária. Quando você saía da religião, era visto como uma pessoa desajustada”. Taylor mencionou a importância das obras de Congar e De Lubac nessa fase de questionamentos que viveu na juventude. 

Uma busca constante

Dando início ao debate que seguiu ao relato autobiográfico de Taylor, o coordenador do curso de Jornalismo da Unisinos, Edelberto Behs, questionou a pertinência de se falar de um quarto grupo de cristãos. Trata-se daqueles que não se ligam a nenhuma instituição, mencionou. Charles Taylor destacou que evidentemente existe uma relação entre o terceiro e a quarto grupos. As pessoas do grupo três entendem a si como envolvidos numa busca. Uma das diferenças é que não estão simplesmente mais uma vez em busca de uma verdade que colocaram em dúvida e voltaram a ela. “Mas se envolveram numa busca que residia na fé cristã e precisavam organizar isso”, assinalou. E completa: “Existe, sim, uma quarta biografia, mas seus integrantes estão no mesmo espaço. Há uma conexão entre ainda crer e crer novamente. As pessoas estão em busca sempre”.

Sociabilidade difusa

Outra temática que surgiu no debate foi a questão da relação mídia e religião. Para Edelberto Behs, a sociedade da informação está criando uma nova ambiência e transformando a religião. “Não sabemos o que vai ser isso, mas é inegável que essas relações com a fé estão em processo de mutação”. As igrejas tradicionais têm perdido espaço nesse cenário, acrescentou.

Para Taylor, a continuidade não se constitui na nova tecnologia, mas intensifica algo que já estava acontecendo. Num mundo de pessoas em busca há aqueles que habitam. Entre os buscadores já surgiram vários tipos de sociabilidades diferentes, de modo que pode haver conexão entre elas porque são pessoas que buscam de forma geral, ou querem uma disciplina de meditação. Se essas pessoas tem fé e pertencem à igreja, esse tipo de sociabilidade difusa foi incrementada, intensificada pelas novas mídias. Podemos ver isso em todos os campos, como na política. “A conectividade adquiriu uma nova qualidade. Essa busca difusa começou nos EUA. As novas mídias fazem diferença na era secular, mas não são cruciais”, ponderou o filósofo.

Convívio problemático com a diversidade

O Frei Luís Carlos Susin, da Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre – PUCRS questionou sobre a o crescimento do fundamentalismo, que toma conta de modos diferenciados de várias partes do mundo, bem como do pentecostalismo e das experiências carismáticas. Para Taylor, o fundamentalismo bíblico norte-americano introduz uma noção de sentido literal que não seria compreendida por Santo Agostinho. Existe uma tecnologia na criação de mais solidariedade fundamentalista, como a Al-Qaeda, e existe a tecnologia para as pessoas que buscam crer. Há uma sensação de ameaça que algumas pessoas experenciam. Quanto ao fundamentalismo ateísta, Taylor disse que a postura de Richard Dawkins é semelhante àquela dos bispos anglicanos do século XIX em relação a Charles Darwin.

O diálogo entre a primeira e a segunda modernidade, o sincretismo religioso brasileiro e a nova gramática do mistério foram outros temas abordados na conversa. Sobre o sincretismo, Taylor mencionou que tal experiência é também encontrada no Japão e Índia. Estamos em um mundo de múltiplas possibilidades e conexões sincretistas entre indivíduos. Vive-se na fronteira, mencionou. 

Outra questão que suscitou discussões foi sobre a possibilidade de articular politicamente a fraternidade, a igualdade e a liberdade. Para Taylor é preciso ver a estranha dialética da histórica, com essas ideias apontadas. “Elas foram assumidas em formas que negam inteiramente a fé”. Existem várias formas pelas quais esses ideais foram assumidos e distorcidos. No caso político da Revolução Francesa a igualdade foi suprimida rapidamente. No Novo Testamento vê-se um conjunto de regras que parecem corretas e inquestionáveis, mas que quando aplicadas vão contra o espírito de Deus. Em seu ponto de vista, “convivemos muito mal com a diversidade”.

Sacerdócio e gênero

Taylor se diz muito encorajado pelas ações do Papa Francisco, que foi escolhido em 13-03-2013 pelo colégio cardinalício. O Sumo Pontífice aponta para os novos tempos que vivem a sociedade e a igreja. “O mundo moderno pode ser tudo, menos relativista. Há malucos fundamentalistas por todo lado. E quando a igreja fala a partir do Evangelho, ela sempre cativa as pessoas”. 

Questionado sobre a possibilidade do Papa Francisco autorizar o sacerdócio feminino ele diz que “detestaria ser o Papa” nessa hora dada a complexidade da questão. Contudo, destacou: “È preciso romper o vínculo entre o sacerdócio e o gênero”. No futuro as pessoas se perguntarão pelo motivo que impedia as mulheres de serem ordenadas.

Confira aqui a programação completa dos eventos de Charles Taylor no Instituto Humanitas Unisinos – IHU: http://bit.ly/ZSOYZL

Leia mais...

Confira outros materiais sobre Charles Taylor publicados pelo site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

* Sociedade, Religiões e Secularização. Debate com Charles Taylor. Notícias do Dia 26-04-2013, disponível em http://bit.ly/12rNrOw 

* A contribuição de Charles Taylor à autonomia na Modernidade. Entrevista com Paulo Roberto Monteiro de Araújo, edição 220 da revista IHU On-Line, de 21-05-2007, disponível em http://bit.ly/HpAZ5r 

* O porquê do retorno do sagrado. Um artigo de Charles Taylor. Notícias do Dia 23-01-2009, disponível em http://bit.ly/I9MgrZ 

* Cidadãos modelos: uma vida melhor ajuda a integração. Notícias do Dia 15-07-2011, disponível em http://bit.ly/HsbTHN 

 

Charles Taylor no Brasil

Roteiro de atividades acadêmicas 

 Acompanhe o roteiro de atividades acadêmicas de Charles Taylor no Brasil:

23 a 29/04/2013 - Taylor participou de atividades acadêmicas no Instituto Humanitas Unisinos - IHU, em São Leopoldo-RS.

30/04/2013 – Atividade na Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUCPR em parceria com o Centro de Pesquisas e Apoio a Trabalhadores - Cepat , participando do colóquio com professores e alunos: “Desafios da filosofia e da teologia em uma sociedade secular” e ministrando a conferência: “Religiões e Sociedade nas trilhas da secularização.”

05/05/2013 – Atividades acadêmicas em Belo Horizonte nas Faculdades Jesuítas – FAJE. 

06/05/2013 - Atividades acadêmicas em Belo Horizonte Faculdades Jesuítas - FAJE, com palestra para professores e alunos de teologia.

06/05/2013 - Conferência na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas. 

07/05/2013 - A FAJE terá nova palestra para professores e alunos de teologia.

08/05/2013 - Taylor participará de atividades acadêmicas na Universidade Cândido Mendes - RJ, com a conferência “Alguns aspectos do processo de secularização”. 

10/05/2013 - Atividades acadêmicas na Universidade Federal de Rio Grande do Norte - UFRN, com a conferência “Políticas do reconhecimento: Um debate contemporâneo”.

12/05/2013 - Atividades acadêmicas na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap. Mais informações em http://bit.ly/17tbMFS.

13/05/2013 – Colóquio na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap com professores de teologia e filosofia: “Uma era Secular”, bem como a conferência “Políticas do reconhecimento”.

14/05/2013 – Colóquio na Universidade Católica de Pernambuco – Unicap com professores de teologia e filosofia “Uma era secular” e a conferência “Religiões e sociedade nas trilhas da secularização”.

A vinda de Charles Taylor ao Brasil é uma promoção do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição