Edição 416 | 29 Abril 2013

Organização do trabalho: uma mudança de paradigma

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Graziela Wolfart

Marcia de Paula Leite acredita que é possível pensar em uma legislação que melhore a situação do mercado de trabalho atual. E cita, pontualmente, a regulamentação da terceirização
Marcia Leite: “A marca não é da mulher, mas do trabalho que se oferece a ela”

Na opinião da professora Marcia de Paula Leite, o aumento dos postos de trabalho formais, com carteira assinada, não representa o fim do trabalho precarizado. “Estamos tendo uma melhoria no sentido de que há mais trabalho com carteira assinada. No entanto, segundo alguns estudos, a maior parte desses novos empregos paga até dois salários mínimos. Isso mostra uma precariedade. Não estamos vivendo um processo de precarização, porque a situação está melhorando. Apesar de o salário mínimo ter aumentado de forma significativa nos últimos anos, ainda é um salário baixo”. Na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone, a professora percebe que, desde a década de 1980, “a forma de organização do trabalho mudou muito. Em termos de organização do trabalho, nós efetivamente mudamos de paradigma”. O que permanece, continua, “é o princípio básico do capitalismo, que é a necessidade de sempre aumentar a produtividade, diminuir os tempos mortos e aumentar o lucro. Isso faz com que continue havendo controle sobre os trabalhadores para que eles produzam a maior quantidade possível no menor tempo possível. No entanto, as formas de controle mudaram”. 

Márcia de Paula Leite possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP, mestrado em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp e doutorado em Sociologia pela USP. Atualmente é professora da Unicamp. É coautora de, entre outros, Novas configurações do trabalho e economia solidária (São Paulo: Annablume, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as permanências e rupturas do novo chão de fábrica? O que o caracteriza hoje em comparação com o cenário de 30 anos atrás?

Marcia de Paula Leite – Desde a década de 1980 mudou muita coisa. A forma de organização do trabalho mudou muito. Em termos de organização do trabalho, nós efetivamente mudamos de paradigma. Aquele sistema que tínhamos de divisão do trabalho muito rígida, dentro da fábrica, com uma organização taylorista e fordista do trabalho, está sendo transformado e substituído por novas formas de organização do trabalho mais baseadas nos princípios japoneses. Essas novas técnicas mudam a forma de a fábrica produzir. Hoje temos uma organização da produção que vai de trás para frente, quando comparamos com os princípios tayloristas e fordistas. A fábrica começa a funcionar a partir do pedido. Ao contrário de antigamente, quando as fábricas produziam a partir da entrada da matéria-prima, porque o mercado era garantido. O que permanece é o princípio básico do capitalismo, que é a necessidade de sempre aumentar a produtividade, diminuir os tempos mortos e aumentar o lucro. Isso faz com que continue havendo controle sobre os trabalhadores para que eles produzam a maior quantidade possível no menor tempo possível. No entanto, as formas de controle mudaram.

IHU On-Line – Como seriam essas novas formas de controle? 

Marcia de Paula Leite – Temos o controle pelas máquinas, que é muito maior. Nas equipes de trabalho o controle passa a ser dos próprios colegas, porque muitas vezes as empresas fazem competição e comparação entre as equipes. Além disso, temos as metas e participação nos lucros e resultados, o que causa o controle dos companheiros de equipe para que ninguém saia perdendo. Por exemplo, o colega pressiona você por sua parada a fim de tomar um café, e isso diminui a produção. Trata-se de um controle efetivo.

IHU On-Line – O que significa, na prática, o aumento dos postos de trabalho formais, com carteira assinada? É o fim do trabalho precarizado? 

Marcia de Paula Leite – Não, infelizmente não. Estamos tendo uma melhoria no sentido de que há mais trabalho com carteira assinada. No entanto, segundo alguns estudos, a maior parte desses novos empregos paga até dois salários mínimos. Isso mostra uma precariedade. Não estamos vivendo um processo de precarização, porque a situação está melhorando. Apesar de o salário mínimo ter aumentado de forma significativa nos últimos anos, ainda é um salário baixo.

IHU On-Line – Quais os desafios de pensar em uma legislação trabalhista tendo em vista uma divisão do trabalho no interior da cadeia produtiva? 

Marcia de Paula Leite – Podemos, sim, pensar em uma legislação que melhore. E pontualmente aquela que pode fazer isso é a regulamentação do trabalho da terceirização. A lógica das empresas, para aumentar o lucro, é de terceirizar o máximo possível, tudo o que podem e até o que não podem. Isso acaba gerando situações que precarizam o trabalho quando se tem trabalhadores que estão saindo de uma empresa e indo para empresas menores, com menos condições de oferecer um trabalho mais razoável. 

IHU On-Line – Como se configuram as novas articulações entre vida profissional e vida privada, submetidas aos princípios de flexibilidade e disponibilidade?

Marcia de Paula Leite – Por um lado, vemos uma intensificação do trabalho, especialmente no setor de serviços e no trabalho não industrial. Neste, há o esquema das horas extras, que continuam ocorrendo e acabam gerando uma jornada mais longa. Por outro lado, a flexibilização da jornada não é algo que tenha influenciado muito nessa dinâmica. Há realmente a existência de um pouco mais de trabalho em casa do que há alguns anos, mas isso não é um movimento muito significativo no mercado de trabalho como um todo. Há algumas profissões em que isso ocorre mais. O que eu vejo é que as pessoas continuam trabalhando e trabalhando muito.

IHU On-Line – Qual é a marca que a mulher imprime ao mundo do trabalho, mesmo ganhando menos do que os homens, apesar de possuir, algumas vezes, um nível de formação superior a eles? 

Marcia de Paula Leite – Não sei se há uma marca da mulher no mundo do trabalho. A questão é que a mulher continua carregando uma carga muito grande do trabalho doméstico, que não é distribuído entre os gêneros de modo que possa aliviar essa responsabilidade. Isso acontece mesmo quando a mulher tem um cargo importante, ou tenha mais formação. Outra coisa que podemos perceber é o estereótipo das empresas de que as mulheres não devem fazer serviço pesado, que elas são boas para a comunicação, mas não são boas para mandar. Tudo isso acaba segregando a mulher em determinados nichos que, em geral, são os menos remunerados, pouco valorizados, com menor possibilidade de carreira. A marca não é da mulher, mas do trabalho que se oferece a ela. 

Leia mais...

>> Marcia de Paula Leite já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira: 

• A permanência de um passivo social e trabalhista no Brasil. Publicada na edição número 390, de 30-04-2012, disponível em http://bit.ly/14WmqaG 

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