Edição 200 | 16 Outubro 2006

A novidade da nossa época: temos um poder criador semelhante a Deus

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IHU Online

 Entrevistamos para a edição desta semana, o filósofo alemão Marc Jongen, professor de Filosofia na Staatliche Hochschule für Gestaltung, em Karlsruhe, na Alemanha. Publicamos um artigo dele na 143ª edição da IHU On-Line, de 30 de maio de 2005.

Na entrevista que nos concedeu por e-mail especialmente para a edição desta semana, Jongen afirma que “a grande novidade da nossa situação, que chega a inaugurar uma nova época, é que acabamos de receber um poder criador semelhante a Deus ao mesmo tempo em que ruiu toda e qualquer instância superior que pudesse julgar sobre a legitimidade ou não do uso desse poder”. E completa: “nós mesmos é que em todo o caso determinamos o direito de usar esse poder ou não. Mesmo a tão preconizada volta para os ´valores tradicionais´ e para as ´proibições estabelecidas por Deus´ é um ato da nossa autonomia, é um ´faz de conta´ intencional. A situação não é nada confortável, mas temos que agüentá-la”.

IHU On-Line - Será o ser humano de hoje um ente pós-humano? Como o senhor definiria esse conceito?

Marc Jongen
- A questão se o "ser humano" é ser humano ou não-humano ou pós-humano, ao que tudo indica, não é algo objetivamente verificável, mas apenas uma questão de atribuição cultural. Basta lembrar, por exemplo, sociedades escravagistas, que não admitiam que os povos subjugados – "bárbaros" ou "selvagens" – tivessem o status de ser humano, ao menos não em plenitude. Importante conquista do Iluminismo foi a de abolir semelhantes definições culturais do ser humano, para substituí-las por uma definição biológica: "ser humano" na acepção moderna é todo/a aquele/a que vem ao mundo com o código genético do Homo sapiens. Essa naturalização do que é humano possibilitou atribuir a todos os integrantes da espécie Homo sapiens direitos humanos a bem dizer "por natureza". Só que essa mesma naturalização também nos levou à situação atual na qual não só tecnológica e praticamente, mas também em princípio e em teoria se tornou possível superar o humano – ou destruí-lo, dependendo da ótica – para colocar em seu lugar uma forma de vida pós-humana. Empiricamente o ser humano de hoje certamente ainda não é um ser pós-humano, mas já assoma gigantesca no horizonte a figura do cyborg , no sentido do livro de Ernst Juenger Der Arbeiter, colocando a nós, que vivemos hoje, sob seu signo e senhorio.

IHU On-Line - Em 2001, o senhor afirmou no jornal Die Zeit que o ser humano é objeto do seu próprio experimento. Que legitimidade e autonomia tem ele para tanto?

Marc Jongen
- O título que eu queria para o mencionado artigo em Die Zeit era Homo homini fatum. A redação do jornal modificou o título para "O ser humano é seu próprio experimento". Isso tornou o sentido mais frio, técnico, mas também está justificado pelo conteúdo do ensaio, sem dúvida alguma. As violentas reações desencadeadas pelo texto eu considero sinal de que toquei o ponto nevrálgico da nossa época, sua mais séria problemática. Infelizmente este fato também deixou a maioria dos críticos cegos para a reflexão e para a ambivalência emocional do meu texto. Eu, por exemplo, de forma alguma, tomei dialeticamente o partido dos pós-humanistas americanos, e sim interpretei-os como sintoma de uma transição de época, a qual acredito seja, sim, nosso destino inexorável. Agora lembrando a sua pergunta: a grande novidade da nossa situação, que chega a inaugurar uma nova época, é que acabamos de receber um poder criador semelhante a Deus ao mesmo tempo em que ruiu toda e qualquer instância superior que pudesse julgar sobre a legitimidade ou não do uso desse poder. Em outras palavras, nós mesmos é que em todos os casos determinamos o direito de usar esse poder ou não. Mesmo a tão preconizada volta para os "valores tradicionais" e para as "proibições estabelecidas por Deus" é um ato da nossa autonomia, é um "faz de conta" intencional. A situação não é nada confortável, mas temos que agüentá-la.

IHU On-Line - Se o ser humano é seu próprio experimento, qual seria o espaço de Deus na atualidade? Poderíamos falar da "morte de Deus" e da construção do ser humano como obra de arte?

Marc Jongen
- A "morte de Deus" formulada por Nietzsche e a respectiva doutrina do além-do-homem, na verdade, somente hoje está atingindo toda a sua força descritiva, ante a possibilidade da confecção técnica do pós-humano. Só que precisamos colocar a ênfase diferente de Nietzsche, o qual, como se sabe, desenvolveu suas teses e profecias em flagrante confronto com o cristianismo. Na verdade importa entender o "super-ser-humano" não como adversário, mas como herdeiro da cultura religiosa desenvolvida. Para o filósofo da cultura e da religião Leopold Ziegler  o grau de desenvolvimento cultural do ser humano depende de ele conseguir transferir inconscientemente suas energias psíquicas para a esfera do divino, para então – note bem – reassumi-las e reintegrá-las conscientemente.
No que se refere à "ira de Deus", esse "assumir a si mesmo" em grande parte já conseguimos realizar: desde a Revolução Francesa, tomamos nas próprias mãos as rédeas do juízo sobre o mundo. Se agora nos deparamos com o desafio de assimilar também o potencial criador divino, certamente isso acarretará não menos problemas, divisões e até catástrofes do que se observou no mencionado campo político. Mesmo assim, a exigência de proibições de pesquisa e de atuação na área biotecnológica é objetivamente tão reacionária quanto a defesa do Ancien Régime na época da Revolução Francesa. Considerando a gravidade desses problemas, a metáfora que você mencionou, do ser humano como obra de arte autoplasmante, sem dúvida parece demasiado frívola. Ela somente se sustenta se admitirmos que Deus é o maior de todos os artistas e que a natureza foi a arte de Deus.

IHU On-Line - Onde ficam as questões éticas ao supormos que o pós-humano é autopoiético? Como ficam as populações que não têm acesso a essas novas tecnologias? Não ocorreria uma colonização tecnológica da humanidade com a concomitante objetificação da pessoa humana?

Marc Jongen
- Assim que abandonarmos o plano da especulação histórico-metafísica para nos voltarmos para a realidade empírica social e política, o "assumir a si mesmo" primeiro se apresenta efetivamente como desafio sobre-humano. Para mim, o perigo maior está na criação de super-seres-humanos do tipo "último-homem", a se perpetuarem tecnologicamente, assim tornando realidade efetivamente diabólica as palavras de Nietzsche: "o último-homem viverá mais tempo". Também não devemos esquecer que o desenvolvimento, a aplicação e o acesso aos métodos biotecnológicos naturalmente está totalmente sob domínio capitalista, ou seja, que a biotecnologia pode agravar ainda mais os problemas merecidamente atribuídos ao capitalismo, como objetificação, alienação, dominação de classes. Caso efetivamente venha a concretizar-se em larga escala a reforma da espécie pela engenharia genética – que ainda pode fracassar por muitos fatores –, ela somente poderá tomar um rumo benéfico se ao mesmo tempo for possível transcender a lógica de crescimento e maximização do lucro do capitalismo de hoje. Todas essas dificuldades, por maiores que sejam, não nos isentam de manejar o novo poder que nos adveio, mas apenas mostram quão profundo e abrangente é o passo de aprendizado e de desenvolvimento da humanidade que está à nossa frente.

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