Edição 199 | 09 Outubro 2006

Thais Furtado

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Porto-alegrense de uma família grande ligada à comunicação e à política, Thaís Furtado é uma profissional jovem, mas de carreira extensa. No seu primeiro trabalho como jornalista, teve experiências inesquecíveis. Trabalhou na Veja e como editora na Zero Hora. Confira a seguir, na entrevista concedida à IHU On-Line, a trajetória de vida da jornalista.

Origens - Nasci em Porto Alegre, em 28 de maio, tenho 40 anos. Tenho cinco irmãos, sou a mais moça de seis.

Pais - Meu pai, que já faleceu, se chamava Jorge Alberto Furtado e a minha mãe, Dercy Furtado.  A minha mãe foi política desde 1972, sendo a primeira vereadora mulher de Porto Alegre. Depois foi deputada. Meu pai sempre foi um administrador de várias fundações do Rio Grande do Sul e foi secretário geral de dois ministérios, do Trabalho e da Educação. Por isso, ele morou muito tempo em Brasília, fazendo a ponte entre Brasília e Porto Alegre. Como a família era muito grande, e como meus irmãos são mais velhos, todos já tinham a vida mais ou menos encaminhada. Eu e o Jorge, meu irmão mais próximo, ainda éramos menores, mas continuamos todos em Porto Alegre com a mãe.

Família - Quase toda a família é ligada à comunicação. Todos os meus irmãos homens e eu somos da área da comunicação. O mais velho, Cláudio, é jornalista, o segundo, Sérgio, é publicitário, o Jorge, cineasta. Minha irmã Nina é médica psiquiatra, mas fez mestrado e doutorado em comunicação, e minha outra irmã, Maria da Graça, é educadora física. Eu tenho 13 sobrinhos e dois sobrinhos netos. Tenho dois filhos, o Lucas, de 13 anos, e a Sofia, de cinco.

Estudos - Eu fiz todo o primeiro e o segundo graus no Colégio Anchieta. Então minha ligação com os jesuítas é bem grande. A informação e a reflexão sempre estiveram muito presentes na minha família. Minha mãe lutou pelos direitos da mulher, pela dona-de-casa, pela aposentadoria da doméstica, então eu tive uma formação positivamente crítica. Eu ressentia um pouco o fato de ela trabalhar muito e eu ter que me “virar” sozinha. Acabei sendo muito independente. Entrei na escola com 5 anos, no primeiro ano, e me lembro de eu ter que fazer todas as minhas coisas. Eu sentia um pouco, mas isso me ajudou bastante a crescer e ser independente.

Infância - Tive uma infância normal, brincando na calçada com minhas amigas. Meu irmão mais próximo é o Jorge , que hoje é um reconhecido cineasta e tem 7 anos a mais que eu. Passamos muito tempo juntos. Ele sempre foi um parâmetro, um exemplo para mim. As minhas irmãs também sempre cuidaram muito de mim, na infância e na adolescência. Hoje são minhas grandes amigas.

Férias - Nós passávamos todas as férias em Cidreira, onde tínhamos casa. Para mim, as férias são marcantes, justamente porque tenho uma família muito grande e essa era a ocasião em que estávamos todos juntos, quando a mãe e o pai deixavam esse lado mais profissional para ficar conosco. Meu pai tocava violão, e com ele aprendi o gosto pela música. Eu adoro cantar, até hoje canto e toco violão por influência dele. Nós fazíamos muitas brincadeiras. Guardo uma boa lembrança da praia, todo mundo junto, brincando, cantando... A minha família foi sempre muito de conversar e dar opiniões do que está acontecendo no país e no mundo. Lembro também das viagens que fazia a Brasília, com a mãe e o pai. Pude conhecer um pouco do Brasil e do exterior com eles.

Estudos - Eu estudei sempre no Colégio Anchieta. Depois fiz vestibular para Jornalismo na UFRGS, em que passei com 16 anos. Cursei em três anos e meio a faculdade e, logo depois de formada, mudei para o Rio de Janeiro.

Início - Na época, achava que o mercado de trabalho lá era mais interessante para começar. Fiquei no Rio de Janeiro dois anos trabalhando como repórter de um jornal chamado O Nacional, que era do Tarso de Castro, jornalista gaúcho de Passo Fundo, extremamente polêmico e inteligente. Ele foi um dos fundadores do Pasquim, entre outros jornais da imprensa alternativa do país. O jornal tinha grandes escritores e jornalistas, como Eric Nepomuceno, Palmério Doria, Paulo Caruso, enfim, vários grandes jornalistas. Tive um ano de experiência no jornal como repórter e foi praticamente como uma segunda faculdade pra mim. Eu estava no Rio, uma cidade diferente e trabalhando com “grandes cabeças”. Esse foi um período bem importante para a minha formação. O meu primeiro dia de trabalho passei dentro da Delegacia da Mulher, que tinha sido criada há pouquíssimo tempo, vendo coisas bem pesadas. Participei de cobertura de greves, entrevistei muitas celebridades, passei um carnaval inteiro com a Xuxa e conheci várias outras celebridades. Lá eu podia fazer desde matérias políticas e de comportamento, até uma página de moda. O jornal fechou, pois tudo que o Tarso tinha de competência jornalística, faltava-lhe como administrador.

Carreira - Voltei para Porto Alegre e, quase que imediatamente, fui contratada para ser repórter da sucursal da revista Veja. Fiquei como repórter cerca de um ano e depois fui convidada para ser chefe de sucursal do Rio Grande do Sul, que também foi outra experiência muito interessante. O jornalista trabalhando em uma sucursal acaba tendo que cobrir todas as áreas. A especialização também tem suas vantagens, mas isso de ter que fazer matérias um dia sobre saúde, outro sobre educação, outro sobre política, enfim, é um aprendizado enorme. A Veja, então, lançou as Vejinhas regionais, uma experiência da editora de fazer uma Veja para cada estado. Então pediram para que cada chefe de sucursal enviasse para São Paulo pautas que pudessem ser da sua Vejinha. Quando enviei as minhas, me convidaram para ir para São Paulo ser editora de todas as Vejinhas do Brasil, com exceção de Rio e São Paulo, que tinham uma estrutura maior. Adorei o trabalho, mas não me adaptei muito com a cidade e, depois de um ano, pedi para retornar para a sucursal. Quando o Augusto Nunes veio para Porto Alegre, para a Zero Hora, me convidou para ser editora Geral do jornal, onde fiquei por cerca de três anos. Foi uma outra experiência interessante, trabalhar com jornalismo diário, mas prefiro ainda as revistas. Quando tive meu primeiro filho, resolvi sair desse ritmo diário e fiquei fazendo free lancer, para revistas da Abril, entre outras. Comecei o Mestrado em Letras, porque encontrei na UFRGS uma teoria que me encantou, a Análise do Discurso. Nele eu trabalhei um assunto que me interessa muito: estudei as mudanças de sentido que ocorriam entre o texto do repórter e o do editor da revista Veja. São muitas as mudanças de sentido que acabam ocorrendo nesse processo jornalístico. Depois eu fiquei um ano como professora substituta na Fabico, na UFRGS. Logo depois, vim para a Unisinos, onde passei a coordenar a agência experimental de jornalismo. Em 2003, a três agências de comunicação se uniram formando a AgexCom, a qual eu passei a coordenar.

Casamento - Eu já fui casada duas vezes. Casei a primeira vez com 19 anos e fiquei três anos casada. Casei-me novamente e fiquei 14 anos casada e estou separa há três. Do segundo casamento, nasceram o Lucas e a Sofia.

Esporte - Faço ginástica duas vezes por semana. Quando eu estava no Anchieta, jogava basquete. Depois, na universidade, não tinha basquete feminino, então acabei abandonando.

Horas Livres - São pouquíssimas. Além do trabalho na Unisinos, continuo fazendo free lances para revistas. Mas eu fico muito com os meus filhos. Eu também adoro música, principalmente de cantar. Gosto também de ler, ir ao cinema e estar com meus amigos.

Filhos - Eu adoro brincar com a Sofia, ler histórias ou desenhar com elas. Passo o máximo do tempo livre que tenho com ela e com o Lucas. Ele gosta de escrever, é meio precoce no sentido criativo. Ele já tem roteiros de filmes e diz que quer seguir a carreira do tio. Eu tento acompanhar esse ritmo dele e incentivar. Fico o máximo do meu tempo livre com eles.

Autor - Julio Cortázar é meu autor preferido de ficção. Gosto muito da forma como ele escreve.

Música - Adoro música popular brasileira. Minha cantora preferida é a Marisa Monte. Gosto muito também de Chico Buarque, Caetano Veloso, Bebel Gilberto, Tom Jobim. Samba e chorinho também me agradam bastante.

Filme - O cinema sempre fez parte da minha vida. Não tenho um filme preferido. Gosto de dramas e de comédias.

Dia perfeito - Certamente com os meus filhos. Gosto muito de estar com eles ao ar livre, viajando. Adoro, por exemplo, ir pra praia e ficar com meus filhos sem nenhum compromisso.

Viagem - Só por falta de tempo não viajo mais. Vou mais freqüentemente para Gramado e Santa Catarina, para Armação. Uma viagem que me marcou foi quando eu tinha 10 anos e passei um mês nos Estados Unidos com meus pais e meus dois irmãos mais novos. Também fiz uma viagem para a Europa que me marcou muito. Viagem perfeita é ir sem compromisso, para descansar e curtir.

Futuro - Espero fazer um doutorado em Comunicação, usando também a Análise do Discurso. E também ver meus filhos crescerem. Investir um pouco também na música, não sei bem se isso é um sonho ou um plano.

Política - Eu não sou filiada a nenhum partido, mas sempre votei no PT e tinha uma esperança muito grande com o Lula. Acho que me decepcionei com o governo dele, mas também vejo que é muito difícil para ele governar com a mídia contra. Acho que estou num período muito crítico em relação a tudo que sempre pensei. Espero que volte a ter esperança.

Unisinos - Hoje ela é grande parte da minha vida. Eu passo muito tempo aqui. A universidade me acolheu muito bem. Lembra-me muito daquela época no Anchieta, de ter um espaço onde as pessoas pensam criticamente, onde tem vida intelectual e crítica, humana. Fiz e tenho grandes amigos aqui.

Instituto Humanitas Unisinos - Eu pude acompanhar o crescimento do Humanitas. É um espaço muito interessante, com vida crítica. Tudo que é produzido tem uma preocupação reflexiva e de busca de pensar um mundo um pouco mais humano.

 

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição