Edição 414 | 15 Abril 2013

Eu nasci assim, desse jeito assim, vou ser sempre assim, Gabriella

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Ricardo Machado

À Gabriella Maindrad sobra um “l” no nome e falta o bronzeado e o crespo dos cabelos da personagem de Jorge Amado, Gabriela cravo e canela. Quanto à beleza, não lhe falta nada. Do alto de seus quase 1.80 m, Gabriella é uma mulher de caminhar elegante, cabelos bem penteados e olhos pintados. A jovem de 26 anos acorda diariamente por volta das 5h para o ritual diário: banho, escova nos cabelos e maquiagem. Antes das 7h, quando vai para a parada de ônibus, já está pronta para encarar a rotina de vendedora de eletrodomésticos em um supermercado da rede Wallmart, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. Quando chega ao trabalho, Gabriella retira o crachá da bolsa, registra o ponto e guarda novamente o documento, pois lá consta seu nome de registro de nascimento: Maurício Santos de Souza. Assim começam os dias de Gabriella Maindrad, que “nasceu” há um ano e meio, mas que é mulher há mais de 26 anos.
Gabriella se vê como mulher e espera que o mundo a veja da mesma forma

Nascida na pequena cidade de São Vicente do Sul, próximo à fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, a moça vem de uma família relativamente pequena com o perfil familiar brasileiro das décadas de 1980 e 1990. Filha de pais separados, Gabriella quando assumiu de vez sua transexualidade teve o apoio da mãe e do irmão mais novo, mas perdeu o contato com o pai e o irmão mais velho. “Quando eu resolvi assumir, meu desejo de me transformar em mulher, minha mãe sofreu um pouco, mas, depois de um mês, me apoiou e, hoje, somos mais próximas que antes”, conta. No réveillon de 2013, visitou a cidade onde nasceu e foi à comemoração de ano-novo no principal clube local. “Fui à festa e foi legal. Algumas pessoas me cumprimentaram e eu gostei muito”, revela. Ela diz que não se sentiu vítima de preconceito ao voltar para o pacato município onde nasceu. “Quem acabou sofrendo mais preconceito foi minha mãe, porque algumas amigas dela deixaram de falar com ela quando souberam que eu era transexual”, lamenta.

Um corpo mercantilizado

A sociedade de consumo impôs, a contar pelo número de possibilidades de intervenções cirúrgicas e estéticas, uma espécie de tirania da beleza. Mercantilizou-se o corpo à custa de dietas, cirurgias, implantes e toda a sorte de procedimentos médicos. Gabriella sonha apenas em colocar silicone. “Quero apenas colocar a prótese nos seios, mas não pretendo fazer outras cirurgias; me sinto bem assim. E é assim que eu me sinto mulher desde sempre, não preciso de cirurgia. Isso para mim não é tão importante”, explica a moça que gasta mensalmente aproximadamente R$ 200 em consultas médicas e medicamentos hormonais.
Transformar-se em mulher requer coragem, tempo e muito dinheiro. A vontade de mudar o próprio corpo leva muitas jovens a uma situação de prostituição, o que permite uma rápida transformação. Gabriella diz que nunca se deixou seduzir pela possibilidade de se prostituir. Entretanto, isso acontece menos por uma questão moral e mais por vontade de conquistar seu espaço social de outras formas. Além do custo financeiro, transformar-se em mulher cobra a conta social e, no caso de Gabriella, custou-lhe o antigo emprego, onde já atuava como vendedora e foi demitida. Um novo emprego trouxe outra realidade. “Quando entrei na loja foi que eu comecei a me transformar e tomar hormônios. Foi bem natural, pois eu não cheguei um dia menino e no outro dia menina; foi gradativo”, relata a moça que considera ter conquistado o próprio espaço e o respeito dos colegas, embora nem todos a aceitem como ela é.


Na avaliação de Gabriella, a ideia de que transexuais estão relacionados à prostituição é cultural, mas está vinculada também à rejeição da família. “Muitas jovens não têm conhecimento de vida e começam a transformação com 16 anos, a família não aceita, e a única saída que veem para concluir a mudança é a prostituição”, salienta.
A exploração sexual resulta em um caminho para alcançar a atividade final, que é ser mulher e tudo o que isso significa em uma sociedade de consumo. Uma das formas de dimensionar o negócio que se tornou o corpo humano, para além da prostituição, é pensar o que custa se tornar mulher. Gabriella conta que a feminização é um processo muito caro. Somente as cirurgias no rosto, para afinar o nariz, ajuste da linha do cabelo na testa e outros retoques saem mais de R$ 20 mil; o silicone sai aproximadamente R$ 5 mil; a transgenitalização, troca de gênero, sai de graça no Brasil porque é realizada pelo Sistema Únicos de Saúde – SUS, mas fora do país o procedimento custa em torno de R$ 20 mil a R$ 30 mil.

A sutileza do preconceito

“Hoje é cool ter amigo gay. Mas na hora de defender o casamento ou adoção a maioria das pessoas é preconceituosa”, dispara Gabriella. Exceto para fundamentalistas de todas as ordens, ser preconceituoso assumido ficou fora de moda, mas segundo a entrevistada o preconceito opera sob lógicas mais sofisticadas. “Na loja, a maioria das pessoas me chama pelo nome social. Outras, porém, chamam pelo nome de registro. Isso é bem delicado de lidar. É uma forma de preconceito”, lamenta. Para Gabriella houve conquistas importantes nos direitos dos transexuais, como a carteira de identidade social, que é aceita em órgãos públicos, mas em outros espaços é mais complicado. “A aceitação da identidade social está limitada a órgãos públicos, mas fora disso não sei como é. Na universidade, por exemplo, será que vão me chamar pelo meu nome de registro ou social na chamada?”, questiona.

Desde sua saída de casa, entre 17 e 18 anos, Gabriella tornou-se independente e assumiu sua homossexualidade, mas muitos amigos de infância e adolescência ficaram para trás. Ela é cuidadosa ao se queixar do preconceito e admite que o desafio é tentar levar uma vida normal mesmo sendo diferente aos olhos dos outros. “Fico chateada com o preconceito, mesmo o mais sutil, porque não estou fazendo nada de errado. Eu continuei trabalhando; não fico dependendo de ninguém, tenho a minha independência. É um pouco frustrante, sim, mas estou aberta a restabelecer um laço com o passar do tempo”, pondera ao confessar que gostaria de voltar a conversar com o pai e o irmão mais velho. “Já falaram na minha cara que eu nunca vou ser mulher, serei sempre ‘trans’. Talvez essa seja a forma mais aberta de preconceito”, diz.
Ser mulher, ser mãe

Gabriella valoriza-se na maquiagem e no figurino, mas está longe de ser extravagante. Tem os olhos graúdos, marcados por um traço negro e fino que delineiam as beiradas. Tem as maçãs do rosto levemente ruborizadas e sob os lábios gosta de usar um batom cor de rosa. Vaidosa, concorreu à Miss Transexual em Santa Maria, cidade onde morou e estudou seis semestres do curso de História, faculdade que somente interrompeu por necessidade de trabalhar e se sustentar. Esta foi a primeira vez que se “transformou”, nas palavras dela, em mulher. Ela conta que sai à noite como qualquer mulher da sua idade, e que é assediada por homens e nem todos percebem que ela é transexual. “Às vezes recebo cantadas de homens que pensam que sou do sexo feminino. É bom, faz bem para o ego”, conta.
Como poderia se esperar de grande parte das mulheres, ela sonha em ser mãe. Para isso, como reza a cartilha da contemporaneidade, considera que precisa primeiro estabilizar-se financeiramente e no trabalho. Por isso pretende concluir o curso de História, passar em concurso público e tentar adotar uma criança. “Acho bem importante poder adotar porque eu me imagino como mãe e boa mãe. Penso em dar todo o carinho para uma criança que foi abandonada e que seria adotada. Isso é uma coisa que eu penso muito e pretendo, mas preciso de maior estabilidade”, sustenta.

Homofobia, religiosidade e enfrentamentos

A discussão sobre a homofobia no Brasil ganhou grande repercussão midiática no país, sobretudo por conta da eleição do deputado Marco Feliciano (PSC/SP) para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. O fato é que tal discussão suscita um intenso debate muitas vezes pautado pelo discurso religioso, mas que na verdade impõe uma discussão de fundo que está relacionada ao modelo de sociedade que queremos, conforme apontam especialistas. Gabriella está por dentro do debate e considera que o problema é com as pessoas, não com as religiões. “As pessoas adoram se basear na Bíblia, mas lá não tem nenhuma passagem de que Deus não aceita pessoas diferentes. O que acontece é que as pessoas pegam o próprio preconceito e querem colocar o nome de Deus junto”, avalia.

Em relação à religiosidade, Gabriella se mostra muito segura, diz que acredita em Deus e que a fé é fundamental. “O que nos move é ter uma fé. A gente precisa de um lado espiritual para passar pelas coisas boas e ruins que a gente enfrenta no dia a dia. Deus é a luz maior, o caminho que a gente tem que seguir é fazer o bem”, frisa.

Gabriella Maindrad vive as angústias e as alegrias da mulher pós-moderna. Ao lutar por seu espaço e por respeito, luta também pelo reconhecimento institucional pleno da comunidade LGBT. Este enfrentamento social, em uma análise mais ampla, resulta um novo eixo para pensar a política brasileira. Isso porque, ao defender os próprios interesses, põem-se em discussão a desigualdade e a marginalização social. Sinal dos tempos.

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