Edição 414 | 15 Abril 2013

Os paradoxos e desafios entre a civilização das ideias e a civilização das imagens

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Márcia Junges e Ricardo Machado

Impasses entre gerações ocasionados sobretudo em função da virtualidade são realidade com a qual professores da docência superior se deparam constantemente, pontua José Paulo Giovanetti. A mentalidade individualista exclui o Outro e o objetifica

“A juventude que hoje chega à universidade é formada na civilização da imagem. Os jovens se comunicam e se organizam internamente a partir da imagem, e os professores, sobretudo os mais velhos, são formados a partir da lógica discursiva, das ideias. Os jovens são formados quase que ‘dentro’ das imagens do Jornal Nacional, do instantâneo. O desafio do professor de ensino superior é como aprofundar os temas utilizando as imagens”. A reflexão é do filósofo e psicólogo José Paulo Giovanetti na entrevista exclusiva que concedeu pessoalmente à IHU On-Line por ocasião de sua vinda à Unisinos, em 25-02-2013, para a conferência de abertura da formação de professores desta universidade, intitulada Modernidade tardia: desafios para a docência do ensino superior. Segundo ele, o “principal desafio é como formar uma pessoa em termos de reflexão em uma civilização da imagem, ocasionando a formação de conhecimento”.

José Paulo Giovanetti é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, São Paulo, e em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. É especialista em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestre e doutor em Psicologia pela Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Leciona na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, FAJE, em Belo Horizonte, MG.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais desafios para a docência no ensino superior na modernidade tardia?

José Paulo Giovanetti – Penso que a modernidade tardia é um momento especial que estamos vivendo na contemporaneidade, no sentido de que as mudanças estão se acelerando cada vez mais e as diferenças de geração não são tão grandes. Contudo, um jovem com cinco anos a mais do que outro talvez não compreenda a linguagem do mais novo... O estilo de vida da sociedade contemporânea deve ser examinado com mais calma, pois se não entendermos sua lógica, não conseguiremos compreender o que está se passando. Nós só vemos os sintomas e não percebemos a lógica subjacente a essas mudanças.

Vejo alguns grandes desafios, hoje, para o ensino superior. O primeiro é que estamos diante de um paradoxo. A juventude que chega à universidade é formada na civilização da imagem. Os jovens se comunicam e se organizam internamente a partir da imagem, e os professores, talvez os mais velhos, mais antigos, são formados a partir da lógica discursiva, das ideias. Os jovens são formados quase que “dentro” das imagens do Jornal Nacional, do instantâneo. O desafio do professor de ensino superior é como aprofundar os temas utilizando as imagens. Digo que consigo detectar o desafio, mas não sei como operacionalizar muito bem isso. No momento em que eu estou lecionando uma disciplina, procuro passar um trecho de um filme, um slide e provocar uma discussão para passar um conteúdo. O principal desafio é de como formar uma pessoa em termos de reflexão em uma civilização da imagem, ocasionando a formação de conhecimento.

Sociedade virtual

O segundo desafio é o problema da virtualidade, já que estamos em uma sociedade virtual e o modo de viver do jovem é quase todo feito por meio de contatos desse tipo. O contato face a face não é, às vezes, o mais importante. Isso porque hoje quase tudo é feito pela internet, pelo Facebook ou pelo e-mail. Antigamente também havia comunicação de forma indireta, por telefone e por carta, mas penso que hoje o computador exacerbou isso. Trata-se de um problema complicado de comunicação em uma sociedade virtual. 

Isso leva a um terceiro problema, que é a formação dos vínculos afetivos, que na sociedade contemporânea se tornam cada vez mais frágeis. O engajamento afetivo não tem mais tanta força, não é duradouro. Ele é passageiro, como é a sociedade contemporânea que se estrutura sobre essa dimensão. Como cultivar os laços afetivos em que a relação seja mais duradoura, mais significativa, é também um dos grandes desafios.

IHU On-Line – Que horizontes se abrem com as novas tecnologias aplicadas à educação?

José Paulo Giovanetti – O primeiro horizonte é um pluralismo muito grande. Nunca na história um aluno teve tanta possibilidade de escolher uma profissão. Porém, tenho observado que uma parte significativa de pessoas, quando terminam o curso universitário, está duvidando do que fizeram. A pluralidade é muito grande na escolha da profissão, algo realizado quando a pessoa tem pouca idade e não possui a dimensão do que essa decisão irá acarretar. Assim, há alunos com 22 ou 23 anos que, ao se formarem, percebem que não era exatamente aquilo que eles queriam ter feito. E irão começar outra vez. Esse é um problema que tenho observado nas universidades e existem dissertações de mestrado que orientei que mostram isso. Algumas pessoas são influenciadas pelos pais para fazerem esta ou aquela escolha, e depois constatam que não era bem isso o que queriam. Dimensionar e tratar a pluralidade nesse mundo contemporâneo é o desafio que aparece na educação fortemente.

IHU On-Line – Em que medida a característica fragmentária de nosso tempo se reflete na educação de ensino superior?

José Paulo Giovanetti – A atenção do aluno, hoje, é fragmentada, pois ele leva para a sala de aula seu celular e computador, que está ligado à internet, mas ao mesmo tempo presta atenção na exposição do professor. Quando se faz uma pergunta, grande parte sabe responder, mas não acompanha em profundidade. Estamos diante de outro tipo de atenção, que é a fragmentada. Antes não conhecíamos isso. O foco de nossos alunos é multidimensional. Esse é um fenômeno novo e vamos ter que trabalhar com isso. Nós professores é que, às vezes, nos sentimentos incomodados porque queremos um foco bem delimitado. 

IHU On-Line – A angústia existencial à qual o senhor se refere em um de seus capítulos de livros  é um sintoma de nosso tempo? Por quê? Em que essa angústia diz a respeito ao sujeito na pós-modernidade?

José Paulo Giovanetti – Quando se fala de angústia, ou como olhamos para a sociedade, a primeira coisa que constatamos são os sintomas de um mal estar. Por exemplo, cito a violência, a droga, o descompromisso como sintomas de que algo do indivíduo não está funcionando em uma certa harmonia e, digamos assim, realização individual. Vejo a angústia existencial como algo que reflete um mal-estar de uma desadaptação na sociedade contemporânea, que é muito materializada e que não oferece realizações no plano mais profundo do ser humano. O que a sociedade oferece? Ela diz que para você ser feliz, tem que consumir. O problema é que quando a pessoa consome, ela não se realiza plenamente, porque esta é uma das esferas do ser humano, e não é aquela do sentido, mas do prazer mais imediato. Então a angústia se dá porque as realizações que a sociedade contemporânea oferece não preenchem as aspirações mais profundas do ser humano, em uma perspectiva antropológica. Junto com a angústia há outras formas de adoecimento, como a apatia e o tédio.

A apatia significa que a pessoa não investe emocionalmente naquilo que está fazendo. No trabalho, por exemplo, há pessoas que não investem emocionalmente na própria profissão. As pessoas querem um trabalho para ter determinado capital a fim de terem uma vida em determinado padrão, mas não há envolvimento emocional com o que fazem. Destaco ainda a existência do tédio, outra questão séria desta sociedade contemporânea. Quando existem tantas informações e opções, você não sabe o que fazer. O tédio é decorrente do número imenso de possibilidades e da dificuldade de poder escolher com clareza a opção mais adequada para sua vida. A atitude de deixar a vida decidir por mim passa a ser a opção menos desgastante.

IHU On-Line – Alguns autores falam em delírio de autonomia ao se referirem à falsa sensação de inimputabilidade, sobretudo dos jovens. Em que sentido a autonomia em nossa sociedade se converteu em individualismo?

José Paulo Giovanetti – Vejo o individualismo como decorrência de vários fatores. Na concepção inicial do princípio individualista, que se estruturou a partir da Idade Média, em que afirma o sujeito com senhor dos seus atos, trata-se de algo positivo. O problema da mentalidade individualista e que se exacerbou na sociedade contemporânea é que o individualismo se fortaleceu com a objetivação do Outro. A ideia inicial era de que o sujeito se tornaria indivíduo a partir de sua relação com o Outro. Com o passar dos anos essa mentalidade foi derivando para um caminho onde o Outro foi colocado de lado na afirmação do sujeito. A relação de reciprocidade perdeu sua importância na constituição do ser humano. Na Idade Média a afirmação da pessoa passava pela religião. No pensamento antigo, a mentalidade era de que se algo acontecesse na vida de uma pessoa era porque “Deus quis assim”, transferindo a responsabilidade e a referência para fora de si. Com o surgimento da subjetividade, que possibilitou a doutrina do individualismo, avança-se no sentido que o indivíduo tem que dar conta de seus atos. O problema da autonomia se refere à exclusão do Outro, quando a pessoa pensa que não precisa dele para se estruturar. Hoje se valoriza a independência e não a interdependência. A autonomia do indivíduo deveria passar pela relação com o Outro. Essa dialética é quebrada na contemporaneidade e leva à objetivação do Outro, quando eu preciso dele para me afirmar, mas não o considero como pessoa, mas como objeto.

O problema da autonomia é pensar que posso tudo, que nada vai me acontecer e que não me preocupo com o Outro. Esse é um problema decorrente de uma sociedade centrada nos desejos e nas necessidades pessoais. 

IHU On-Line – Quais são as peculiaridades e nexos entre religião e subjetividade contemporânea?

José Paulo Giovanetti – Vejamos primeiramente o conceito de subjetividade. Creio que um dos grandes problemas é que nós reduzimos a compreensão da subjetividade somente à dimensão psicológica. A subjetividade implica toda a vivência da corporalidade, a vivência psicológica, o sentido de vida e a ressonância da experiência da intersubjetividade. A subjetividade é mais ampla que o aspecto psicológico da vida. A sociedade contemporânea tem destacado e valorizado a dimensão psicológica, colocando toda a ênfase e a realização do ser humano nos prazeres imediatos. Daí que dizemos que uma das características marcantes da atualidade é o hedonismo. Por outro lado, a religião, de certa maneira, busca oferecer uma diretividade de vida, destacando mais a dimensão espiritual do ser humano e procurando sedimentar princípios morais e humanos. Para compreender a relação que se dá entre religião e subjetividade temos que alargar o segundo conceito, isto é, conceito de subjetividade. Se entendermos que a religião é alguma coisa que implica direção de sentido de vida, poderemos relacioná-la com a subjetividade e compreendermos em profundidade o que venha a ser uma experiência religiosa real e autêntica. Se pensarmos a religião somente no âmbito do psiquismo, então a religião vai ser simplesmente para resolver as questões psíquicas, tais como aplacar a angústia de morte ou amenizar a experiência de abandono. 

IHU On-Line – Quais são as contribuições de Winnicott e Binswanger para a compreensão da subjetividade em nossos dias?

José Paulo Giovanetti – Winnicott  é considerado um psicanalista, mas eu diria que ele é primeiramente um humanista, embora seja psicanalista na forma de como equacionou sua teoria e pensou suas intuições. Sua importância para a nossa vida é que ele ressaltou as relações e os laços afetivos como a relação prioritária, originária da vida, pois é a relação mãe/bêbê a mais importante no processo de amadurecimento emocional. Por isso que é difícil excluir o Outro, pois a pessoa só pode se estruturar a partir da relação com ele. Essa é a grande contribuição, a intuição fundamental de Winnicott. As relações afetivas primárias são mais importantes e não são relações que geram exterioridade, mas relações que geram vínculos. Por outro lado, ele sustenta que existe dentro do ser humano uma tendência inata à integração que requer um ambiente facilitador. A maior importância está no cuidado do ser humano para ajudar o Outro a ser humano. O ponto de partida é de que mãe deva oferecer determinadas condições para que bebê se estruture como ser humano. 

A contribuição maior de Winnicott está relacionada a chamar a atenção para a importância das primeiras relações afetivas. É como se o eu se estruturasse a partir do nós, pois primeiro vem o nós. Winnicott era um fenomenólogo e mostrava como o ser humano cresce e se desenvolve.

Binswanger  era um psiquiatra muito insatisfeito com a psiquiatria do seu tempo, na qual se reduzia o ser humano às explicações biológicas. A loucura, por exemplo, não pode ser explicada por forças orgânicas, destacava. Binswanger traz a importância da filosofia para a psiquiatria e essa foi sua grande contribuição. No fundo Binswanger está muito próximo de Winnicott porque ele vai destacar que o “nós”(Wirheit) é fundante na constituição do eu. Ele destaca essa reflexão do ponto de vista profundamente filosófico, enquanto Winnicott fala a partir da observação empírica, mostrando a importância do Outro na organização da história pessoal do sujeito.

IHU On-Line – Quais são suas maiores lembranças da pessoa Lima Vaz?

José Paulo Giovanetti – Fui aluno de Lima Vaz  e convivi com ele na universidade também como professor. Ele continua a ser uma pessoa profundamente importante na minha vida. Lima Vaz marcou várias gerações e um grupo de pensadores e filósofos. Aprendi duas lições fundamentais com ele. A primeira é a importância de se estudar a história para podermos compreender o fio da meada de um problema, pois sem essa dimensão perdemos a noção mais ampla da questão. Em segundo lugar, lembro-me da ênfase que ele dava sobre a importância de uma antropologia filosófica como embasamento de um trabalho, como na educação e na psicologia. Tenho tentado passar para meus alunos da pós-graduação em psicologia que a filosofia deve embasar o trabalho psicológico para que não reduzamos a vida humana somente ao aspecto psicológico, como na maioria das vezes o médico reduz a vida ao seu aspecto biológico. O psicólogo corre o risco de querer explicar a vida, a angústia, o tédio, a partir de pensamentos psicológicos, o que é algo arriscado e unilateral. 

IHU On-Line – Qual é o grande legado filosófico desse pensador?

José Paulo Giovanetti – O pensamento vaziano procurou fazer uma síntese com a tradição e o pensamento moderno. Lima Vaz se inspira na tradição para, de certa maneira, repensar os problemas contemporâneos que o mundo nos coloca, sendo fiel à sua inspiração religiosa, como repensar e resguardar as intuições da filosofia clássica em um mundo contemporâneo. Refundir esses pensamentos é o legado inesgotável desse filósofo. Vi algumas teses a respeito de seu pensamento, mas ainda são muito incipientes. Lima Vaz teve insights sobre a contemporaneidade que ainda não foram explorados. É preciso se debruçar sobre o trabalho vaziano e tentar fazer aparecer as intuições mais profundas de seu pensamento.

Leia mais...

Confira a cobertura da conferência proferida por José Paulo Giovanetti em 25-02-2013:

* Modernidade tardia: desafios para a docência do ensino superior. Notícias do Dia 27-02-2013, disponível em http://bit.ly/VNFbXq 

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