Edição 412 | 18 Dezembro 2012

Pecado: conceito que fala do nada moral que somos

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Graziela Wolfart

"O tema religioso não é trabalhado bem no cinema mais comum por conta do preconceito e da teologia terem se transformado em tecnologia de autoestima", afirma Luiz Felipe Pondé

"Só o pecador sincero vê a graça", reflete Pondé

 

“Deus prefere David a todos os heróis do Antigo Testamento, porque David nunca mente sobre si mesmo e seus pecados. Só o pecador sincero vê a graça”, afirma Luiz Felipe Pondé. Em seu ponto de vista, “quanto mais temos consciência de nossa insuficiência, mais vemos a grandeza de Deus. O erro foi isso ter virado dolorismo porque abriu espaço para a teologia da autoestima, versão barata da teologia da libertação. Quanto mais nos vemos próximos de Deus, mais ele está longe de nós. O segredo da infelicidade é nos espantar com nossa ignorância com as fórmulas da felicidade”. E, ao comparar os cineastas Lars von Trier e Terence Malick, o professor da PUC-SP sentencia: “von Trier é quase um gnóstico, sua resposta à teodiceia é negativa, sua mística é da agonia. A mística de Malick é a da graça como oposição à natureza. A primeira é generosa, a segunda autocentrada”.

Luiz Felipe Pondé leciona na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e na Universidade Federal de São Paulo – Unifesp, entre outras instituições. Graduado em Medicina, pela Universidade Federal da Bahia, e em Filosofia Pura, pela USP, é mestre em História da Filosofia Contemporânea e em Filosofia Contemporânea, respectivamente pela USP e pela Université de Paris VIII, França. Doutor em Filosofia Moderna pela USP e pós-doutor pela Universidade de Tel Aviv, Israel, escreveu O homem insuficiente (São Paulo: Edusp, 2001); Crítica e profecia. Filosofia da religião em Dostoievski (São Paulo: Editora 34, 2003); Conhecimento na desgraça. Ensaio de epistemologia pascaliana (São Paulo: Edusp, 2004); e Do pensamento no deserto: ensaios de filosofia, teologia e literatura (São Paulo: Edusp, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que destacar da mística e da teodiceia na obra de Terence Malick, principalmente pensando em A árvore da vida, contrapondo a Anticristo e Melancolia, de Lars von Trier?

Luiz Felipe Pondé – Malick  é bem diferente de Lars von Trier (Anticristo e Melancolia). A resposta de Malick é positiva; ainda que com sofrimento, a vida é permeada pela beleza e pelos afetos construtivos como o amor – a vida sem amor flashes by, como diz a mãe, em A árvore da vida. Von trier é quase um gnóstico, sua resposta à teodiceia é negativa, sua mística é da agonia. A mística de Malick é a da graça como oposição à natureza. A primeira é generosa, a segunda autocentrada.

IHU On-Line – Qual o sentido da relação entre natureza e graça proposta por Malick em A árvore da vida?

Luiz Felipe Pondé – Trata-se de uma definição inspirada em Agostinho , mas feita de forma mais didática. A personagem feminina diz: a graça não pensa em si mesma. A cena da menina segurando o bezerrinho e depois sendo carregada pelo pai da mesma forma representa a confiança na graça e a doçura de viver nela. A natureza é escrava de sua fisiologia; por isso a cena passa à mesa das refeições. A vida segundo a graça descentra você e lhe prepara para perceber que só amando você é livre do medo.

IHU On-Line – O que caracteriza o olhar artístico e humano de Malik sobre a relação do homem com o transcendente?

Luiz Felipe Pondé – O transcendente é imanente. Ele é muito neoplatônico e heideggeriano, inclusive é tradutor deste para o inglês. Neoplatônico no sentido de que o divino está posto da essência do mundo; heideggeriano no sentido de que só fazendo questões fundamentais saímos da vida inautêntica que gira ao redor de si mesma, por isso é covarde. Autenticidade para ele é viver pelo espanto, pela beleza e pelo amor.

IHU On-Line – Que relação pode ser estabelecida entre o interesse de Deus pela sinceridade do pecador e o amor da filosofia pela verdade do melancólico?

Luiz Felipe Pondé – A filosofia teme que o melancólico tenha razão na sua negação do sentido da vida desde a filosofia grega. Deus prefere David a todos os heróis do Antigo Testamento, porque David nunca mente sobre si mesmo e seus pecados. Só o pecador sincero vê a graça.

IHU On-Line – A partir da concepção judaico-cristã de Deus, qual o sentido da infelicidade humana?

Luiz Felipe Pondé – Quanto mais temos consciência de nossa insuficiência, mais vemos a grandeza de Deus. O erro foi isso ter virado dolorismo porque abriu espaço para a teologia da autoestima, versão barata da Teologia da Libertação . Quanto mais nos vemos próximos de Deus, mais ele está longe de nós. O segredo da infelicidade é nos espantar com nossa ignorância com as fórmulas da felicidade.

IHU On-Line – Como se dá a relação entre pecado e graça no filme Fim de caso (1999, Neil Jordan)?

Luiz Felipe Pondé – A pecadora é a mais íntima de Deus. Ela sabe como é tomada pelo seu desejo e por isso não tem ilusões de autonomia, e esta é nossa maior autonomia. Deus não resiste a quem percebe como somos verdadeiramente: somos pó que vê Deus. O pecado é o conceito que fala do nada moral que somos.

IHU On-Line – “O encontro entre a misericórdia e o pecador é uma das maiores afirmações do sentido da vida” . Como isso aparece no cinema?

Luiz Felipe Pondé – O tema religioso, de fato, não é trabalhado bem no cinema mais comum por conta do preconceito e da teologia terem se transformado em tecnologia de autoestima. Citaria aqui, para responder à pergunta, o russo A Ilha e o americano Silêncio das palavras, apesar de que neste não há vocabulário religioso explícito.

Leia mais...

>> Luiz Felipe Pondé já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

* A mística judaica. Publicada na edição 133 da Revista IHU On-Line, de 21-03-2005

* Parricídio, niilismo e morte da tradição. Publicada na edição 195 da Revista IHU On-Line, de 11-09-2006

* A fé é dada pela graça. Publicada na edição 209 da Revista IHU On-Line, de 18-12-2006

* A Teologia da Libertação: será que ela não crê demasiadamente nas promessas modernas e na sua gramática hermenêutica? Publicada na edição 214 da Revista IHU On-Line, de 02-04-2007

* “Perdão tem que ser graça”. Publicada na edição 388 da Revista IHU On-Line, de 09-04-2012

 

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