Edição 412 | 18 Dezembro 2012

Respeito e reverência diante do mal: o deus de Lars von Trier

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Graziela Wolfart

Flávia Arielo aponta que o filme Anticristo aborda Deus de forma maléfica, ou seja, “se há alguma relação existente entre Deus e a pertença do mal no mundo, isso só pode ocorrer a partir do pressuposto de Deus ser mal”
Dogville, Anticristo e Melancolia são filmes essencialmente teológicos, pontua Flávia Arielo

Ao analisar o filme Anticristo, de Lars von Trier, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Flávia Arielo explica que, por diversos momentos, “o diretor centraliza a questão do mal na natureza, que nesse caso, pode ser entendida tanto como natureza física quanto a natureza do homem”. Para ela, a relação entre Deus e o mal na obra de von Trier se dá de forma bastante peculiar em cada um dos últimos três longas-metragens do diretor – Dogville, Anticristo e Melancolia – que são, segundo Arielo, filmes essencialmente teológicos. E constata que “ao que tudo indica, através de seus filmes, Lars von Trier sugere o ser humano completamente desconectado, apartado de Deus. A ideia de Deus está implícita em muitas formas, (…) mas Ele parece não se importar com o que acontece com sua criação. Na pior das hipóteses, o Deus de Trier não apenas nos abandonou como também pode contribuir para o nosso sofrimento. O diretor não dá esperanças para essa relação em nenhum de seus filmes”. Por fim, Flávia conclui: “o fim de Anticristo demonstra que, para a razão, a única saída para a dor é a morte do mal, ou daquilo que ele representa”.

Flávia Santos Arielo possui graduação em História pela Universidade Estadual de Londrina e é especialista em História da Arte pela mesma universidade. Leciona História e História da Arte no ensino médio. É mestranda do curso de Ciências da Religião da PUC-SP.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como o conceito de mal e de maldade aparece na obra Anticristo  de Lars von Trier?

Flávia Arielo –
Lars von Trier  criou uma atmosfera fílmica que vai de encontro com a ideia de mal: as cenas são esteticamente belas, têm tratamentos que ressaltam as cores e cenas em câmera lenta. Tudo isso acaba por contrapor a ideia de bem e mal, a começar pela cena inicial, o prólogo, que nos leva à problemática central do filme: o preto e branco, a ópera como trilha sonora e as cenas lentas nos conduzem à beleza, mas então uma das formas do mal se mostra pela primeira vez – a morte de uma criança. O mal exposto no filme, em princípio, pode levar o espectador menos atento a deduções superficiais, como se o mal residisse apenas em fatores como a morte, a depressão e a perda. Mas o repertório teológico de Trier vai além disso: o mal está centrado na personagem feminina do filme e em sua descoberta. Interpretada por Charlotte Gainsbourg , a mulher faz afirmações ao longo do filme que nos indicam a posição de Trier sobre o mal. “A natureza é o templo de Satã”, diz ela, ao constatar que a natureza humana é má. Por diversos momentos o diretor centraliza a questão do mal na natureza, que nesse caso pode ser entendida tanto como natureza física quanto a natureza do homem. A desordem dessa natureza é exposta, por exemplo, em um das cenas mais fortes do filme, quando uma raposa se autoflagela e anuncia em alto e bom tom: “O caos reina”.


IHU On-Line – Como se dá a relação entre Deus e o mal na filmografia de Lars von Trier?

Flávia Arielo –
Destaco, em particular, os últimos três longas-metragens do diretor – Dogville , Anticristo e Melancolia  – como filmes essencialmente teológicos. Há que ressaltar que, como dinamarquês, Lars von Trier nasceu num país embebido pela Reforma, apesar de declarar que cresceu num ambiente familiar secular. A relação entre Deus e mal se dá de forma bastante peculiar em cada um destes filmes. Em Dogville (2003), Deus está caracterizado como o chefe da máfia, um gangster que impele sua filha – Grace (Graça) – aos piores infortúnios na cidade de Dogville. Ao final, num belo diálogo entre o gangster e Grace, tudo gira em torno de entender quem é o mais arrogante entre os dois. Em Melancolia (2011), Deus está ausente; Ele silencia e permite que a vida na Terra seja completamente fulminada por outro planeta, muito maior e mais belo, chamado Melancolia. Já em Anticristo (2009) essa relação dá demonstrações de que, se há um Deus e se fomos feitos à sua imagem e semelhança, então esse Deus é mal.


IHU On-Line – Para Lars von Trier, o que define o ser humano e sua relação com Deus?

Flávia Arielo –
Ao que tudo indica, através de seus filmes, Lars von Trier sugere o ser humano completamente desconectado, apartado de Deus. A ideia de Deus está implícita em muitas formas, como já dito, mas Ele parece não se importar com o que acontece com sua criação. Na pior das hipóteses, o Deus de Trier não apenas nos abandonou como também pode contribuir para o nosso sofrimento. O diretor não dá esperanças para essa relação em nenhum de seus filmes.


IHU On-Line – A partir da obra cinematográfica de Trier, em especial o Anticristo, o que define as escolhas humanas a partir do livre-arbítrio dado por Deus? Qual a força do mal nesse sentido?

Flávia Arielo –
Para muitos filósofos e teólogos, o mal reside exatamente em nossas escolhas, no livre-arbítrio. Essa é uma das formas de retirar de Deus o peso da efetividade do mal. Neste filme pesa muito mais a ideia de destino do que de livre-arbítrio: somos maus por natureza e é aí que reside o sofrimento da descoberta do personagem feminina do filme. A mulher escolhe ser má, pois essa é sua essência, é assim que a humanidade é. Mas há uma escolha dessa personagem, em particular, que é primordial no filme: em uma das cenas finais o diretor revisa o prólogo e mostra o momento em que o casal está fazendo sexo no quarto, mas por outro ângulo de câmera, revelando que a mulher vê quando o filho vai saltar pela janela. A escolha foi pelo sexo e não pelo filho. O mal se revela nessa escolha.


IHU On-Line – O que seria a teodiceia negativa presente no filme Anticristo?

Flávia Arielo –
Teodiceia, como definida primeiramente por Leibniz  (século XVII), é a justificação racional de Deus. O filósofo tentava racionalizar de que forma poderia salvar Deus do julgamento daqueles que afirmavam não haver compatibilidade entre Deus ser onipotente e bom ao mesmo tempo em que a experiência mostrava que existia o mal no mundo. Dessa forma, a teodiceia nasce para compatibilizar Deus e o mal, alocando a existência do mal nas escolhas do homem, no livre-arbítrio. Anticristo aborda Deus de forma maléfica, ou seja, se há alguma relação existente entre Deus e a pertença do mal no mundo, isso só pode ocorrer a partir do pressuposto de Deus ser mal; assim, a teodiceia se torna negativa: se há alguma razão em entender o porquê do mal no mundo, do sofrimento e da dor, isso só pode ser obra de um Deus maléfico.


IHU On-Line – Em que sentido o filme Anticristo pode nos ajudar a compreender até onde alguém pode chegar para lidar com a dor?

Flávia Arielo –
O filme mostra uma mãe em agonia, primeiramente, por que perdeu um filho. Sua dor e seu sofrimento parecem não ter fim. O marido, interpretado por Willem Dafoe , é um terapeuta que tenta tirar a esposa de seu sofrimento. Mas a escolha de Lars von Trier é ridicularizar a terapia moderna, encarnada no marido; a esposa, por diversos momentos, diz a ele que o problema é maior, que o sofrimento vai além do luto e da perda, que a dor não tem fim. A dor exposta pela mulher do filme não é em si a dor da perda do filho e sim a dor de enxergar o mal inserido na natureza humana e na natureza de Deus. O marido, de início, completamente imerso em sua racionalidade, não dá credibilidade às falas de sua mulher. Em determinado momento, o homem é tocado pelo mal que a esposa expõe e ainda assim custa a crer no que ele representa. O fim de Anticristo demonstra que, para a razão, a única saída para a dor é a morte do mal, ou daquilo que ele representa.


IHU On-Line – Como a relação entre medo e fé (ou a falta dela) aparece na obra em questão?

Flávia Arielo –
O medo se evidencia no filme através das descobertas da mulher sobre a origem, a natureza humana. Ela se deprime, se angustia, e ao final constata não haver saída. Se existe alguma sombra de fé nessa obra, ela se dá pelo viés da razão e não pelo religioso. E mesmo essa fé racional é desmoralizada pelo diretor. Há uma cena bastante esclarecedora sobre isso: o marido faz uma lista dos medos da esposa, elencando-os hierarquicamente. A saída proposta por ele é que a mulher deve enfrentar diretamente o problema, ir até sua raiz. Um dos maiores medos da esposa é voltar à floresta do Éden, local onde escrevia sua tese. O marido então pede que ela se imagine deitando na grama do Éden, se misturando à grama. A imagem cinematográfica mostra a mulher se fundindo ao verde da grama até quase desaparecer. Essa seria a saída racional para o medo descartada e devassada por Trier. Tanto a razão quanto a fé – em qualquer sentido – não dão conta de acabar com o medo.


IHU On-Line – Quem é o Anticristo na visão de Lars von Trier?

Flávia Arielo –
É a revelação do Deus mau, um Deus que jogou toda sorte de males no mundo: a dor, a perda, o sofrimento, a angústia, a depressão, a morte. É um Deus que criou o mundo a sua imagem e semelhança e que a razão não dá conta.


IHU On-Line – Gostaria de acrescentar mais algum comentário sobre o tema?

Flávia Arielo –
O filme foi duramente criticado quando de seu lançamento. O diretor foi taxado de sexista e misógino. Creio que o filme vai muito além dessa visão leviana, pois se insere nas temáticas teológica e filosófica, muito caras ao diretor. Apesar do teor pesado e das cenas pouco palatáveis, Anticristo deve ser visto e interpretado como quem se depara com o mal: com respeito e reverência.

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