Edição 411 | 10 Dezembro 2012

Tropicalismo, “força fatal” da música popular

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Thamiris Magalhães e Graziela Wolfart

Como o tropicalismo foi um dos primeiros momentos de uma sensibilidade globalizada no Brasil (ou pós-moderna, se quiserem), ele permanece cada dia mais atual e cada vez mais atuante entre nós, assinala Frederico Oliveira Coelho

“O tropicalismo, como movimento, não tinha objetivo. Ou, se tinha, era a fixação de uma nova imagem e um novo discurso sobre a modernidade brasileira. Isso também foi, de certa forma, atingido, mas em longo prazo. Como a música também, aliás. Demorou décadas para o mundo absorver a proposta tropicalista”, enfatiza Frederico Oliveira Coelho, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, o que houve de mais original no tropicalismo foi a liberdade de fazer música e cultura de acordo com sua própria sensibilidade, suas próprias ideias, sem ter que definir a priori caminhos, discursos e representações estáticas que circulavam no país e no mundo. “O tropicalismo, como disse uma vez Rogério Duarte, foi o desejo de uma modernidade amorosa para o Brasil”.

Frederico Oliveira Coelho possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, mestrado em História Social pela mesma Universidade e doutorado em Literatura Brasileira pela PUC-Rio. É pesquisador do Núcleo de Estudos de Literatura e Música – NELIM da PUC-Rio. Trabalha como pesquisador para documentários, sítios eletrônicos, editoras e instituições culturais. Desde março deste ano é professor dos cursos de Literatura e Artes Cênicas (atual coordenador) no Departamento de Letras da PUC-Rio.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em seu livro Eu, brasileiro, confesso a minha culpa e meu pecado você faz uma distinção entre tropicália e tropicalismo musical. Quais seriam as razões dessa escolha?

Frederico Oliveira Coelho –
As razões da divisão entre tropicália e tropicalismo musical ocorreram devido à necessidade de demarcar dois eixos históricos de ação cultural no Brasil dos anos 1950-1960. Um, vindo dos desdobramentos do movimento neoconcreto carioca, do cinema novo, dos debates no âmbito da Nova Objetividade Brasileira, tudo que desaguou no conceito “tropicália”, cunhado por Hélio Oiticica. Outro, vindo da experiência de jovens músicos e intelectuais baianos, cariocas e paulistas ao redor dos dilemas da música popular brasileira – MPB no âmbito da cultura de massas e da contracultura mundial. Em 1968, esses dois eixos radicais de pensamento sobre a modernidade brasileira confluem em ações comuns que resultam no que viria a se chamar após 1968 de “cultura marginal” ou “marginália”. Digo sempre que o papel do movimento musical foi fundamental para a expansão das ideias contidas na tropicália de Oiticica, já que os músicos levaram debates do âmbito das artes visuais para a cultura de massas, programas de televisão, entrevistas em jornais e shows pelo país.


IHU On-Line – Como você avalia a produção da música popular brasileira nos anos 1960-especialmente em 1967, que é quando surge o tropicalismo?

Frederico Oliveira Coelho –
O período dos anos 1960 foi uma das chamadas “épocas de ouro” da música popular feita no Brasil. É nesse período que a sigla MPB ganha espaço e reduz os demais gêneros da canção popular (samba, bolero, baião, balada, samba-canção, bossa nova) a um grande nome guarda-chuva. A música dos anos 1960 concentra em poucos anos os desdobramentos da bossa nova de 1959, a politização cultural do país via CPC da União Nacional dos Estudantes – UNE, Teatro de Arena e as canções engajadas de Edu Lobo , Sérgio Ricardo , Sidney Miller, os primeiros e brilhantes discos de Nara Leão , a entrada do pop rock juvenil que vinha dos EUA e demais países europeus e resultou na nossa jovem guarda, a retomada do chamado “samba de morro” por parte de uma juventude urbana universitária e, claro, a complexificação do cenário musical a partir do tropicalismo e seu diálogo aberto com as vanguardas musicais brasileiras (Rogério Duprat), os grupos de pop rock que surgiam (Mutantes) e o diálogo direto com o arquivo popular da música brasileira (Luiz Gonzaga , Vicente Celestino, Dorival Caymmi ). A síntese entre a banda de pífaros de Caruaru e Sargent Peppers dos Beatles resultou em um produto musical brasileiro e universal, renovador dos impasses típicos do pensamento de esquerda do período que dividia a produção cultural entre engajados (brasileiros, populares) e alienados (estrangeiros, massificados). 1967 é o ano que em um único festival todos esses movimentos e movimentações ao redor da música popular brasileira se concretizam e explodem para todo o público – e em cadeia nacional.


IHU On-Line – É possível reconhecer a marginália como um movimento? Qual seria a sua ligação com a tropicália?

Frederico Oliveira Coelho –
A marginália foi, antes de tudo, uma palavra para amarrar em uma matéria da revista O Cruzeiro um feixe amplo de artistas e intelectuais que flertavam no final de 1968 com a radicalização do seu discurso político frente à violência e miséria social existente no regime militar do período. Não é à toa que a matéria com esse título, escrita por Mariza Alvarez Lima, sai quase ao mesmo tempo que o AI-5 (dezembro de 1968). Portanto, depois do uso jornalístico, “marginália” passa a designar ações e ideias que estariam vinculados a essa radicalização que vinha ocorrendo em 1968. Eventos como Apocalipopótese e o Seminário Cultura e Loucura (organizados por Oiticica, Rogério Duarte e Frederico Morais), os shows dos tropicalistas (com a bandeira “Seja marginal, seja herói”, também de Oiticica, como cenário), seus programas agressivos na televisão como Divino Maravilhoso, filmes como O Bandido da Luz Vermelha de Rogério Sgaznerla e Câncer de Glauber Rocha, enfim, uma série de eventos foi constituindo um espaço em comum de ação ao redor da representação do marginal urbano brasileiro. A marginália não é um movimento coeso, pois não têm manifestos nem eventos fundadores, mas ela é uma movimentação importante na virada dos anos 1960-1970 no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Salvador e outras cidades do país.


IHU On-Line – Nos anos 1960 e 1970 no Brasil tivemos alguns movimentos capazes de reunir artistas de diferentes áreas de atuação. Você acredita na possibilidade de novos movimentos artísticos de porte semelhante no cenário contemporâneo?

Frederico Oliveira Coelho –
Não acredito, pois hoje a lógica de ação cultural mudou bastante. Temos novas formas de associativismo estético que passam por coletivo sem ação conjunta articulando arte e mercado, como, por exemplo, o Fora do Eixo. Ou então esses movimentos que se tornaram “ismos” eram típicos do modernismo do século XIX/XX e hoje eles não trazem mais a coesão que era necessária naquela época. Devemos lembrar que as vanguardas que se organizaram em movimentos coletivos batalhavam por espaços de atuação, mudanças de paradigmas críticos e de criação, escreviam manifestos demarcando posições políticas etc. Hoje, muitas das mudanças que ocorrem através de coletivos são contaminadas rapidamente por outras informações que circulam no mundo em tempo real, fazendo com que rupturas sejam mais tênues e menos chocantes do que cinquenta anos atrás. O que circula pela web são centenas de ativismos políticos, músicas, imagens e obras de arte que são compartilhados por todos. Como demarcar o seu lugar específico de diferença em relação ao “sistema”, ao mainstream ou algum grande “inimigo cultural”? O tropicalismo, grosso modo, foi um movimento feito “de fora para dentro”. Não foram seus participantes que reivindicaram o nome ou a articulação entre diferentes áreas. Quem fez isso foi a imprensa da época e a crítica cultural.


IHU On-Line – Qual era o principal objetivo do tropicalismo? O senhor acha que foi alcançado?

Frederico Oliveira Coelho –
Caetano Veloso sempre disse na época que o principal objetivo do que eles estavam fazendo na música era acabar com o “bom mocismo” zona sul-carioca que existia ao redor da música brasileira de sua geração. Todos eram passivos em relação a uma tradição, sem aplicar violência e radicalidade nas experimentações e possibilidades de transformar a música brasileira em uma música de qualidade universal. Isso, sem sombra de dúvida, eles conseguiram. Hoje, os Mutantes são vistos como uma das melhores bandas de rock do mundo, e não do Brasil. Os grandes nomes da cultura internacional sabem ao menos em linhas gerais o que foi o tropicalismo brasileiro. Oiticica é um dos maiores nomes da arte brasileira no mundo etc. Mas o tropicalismo, como movimento, não tinha objetivo. Ou, se tinha, era a fixação de uma nova imagem e um novo discurso sobre a modernidade brasileira. Isso também foi, de certa forma, atingido, mas em longo prazo. Como a música também, aliás. Demorou décadas para o mundo absorver a proposta tropicalista.


IHU On-Line – Muitos acreditam que o tropicalismo teve seu fim em 1968, quando Gil e Caetano são presos, confinados em Salvador e, então, forçados a deixar o país. Porém, muitos creem que mesmo no exílio de seus mentores o movimento resistiu até 1972. Ou, ainda, fincou bases de criação e avaliação artística que permanecem até hoje. E o senhor, acredita que há marcas do tropicalismo ainda hoje em nossa sociedade. Por quê?

Frederico Oliveira Coelho –
Se pensarmos o movimento atrelado à biografia de Gil e Caetano, ele acaba em 1968, com a prisão deles. O que fizeram depois, em Salvador e no exílio, eram desdobramentos pessoais de seus trabalhos. Ambos abriram mão de serem líderes de qualquer movimento quando foram exilados. (Entrevistas deles de 1969 deixam isso claro.) Mas, se quisermos pensar a questão do tropicalismo para além dos dois principais compositores, veremos que os discos de Gal Costa de 1969, 1970 e 1971 são totalmente tropicalistas, assim como os trabalhos dos Mutantes. E assim sucessivamente. O tropicalismo, como movimento musical, está em tudo, como uma espécie de “força fatal” da música popular, já que sua abertura radical para o mundo, a quebra da ideia classista de bom gosto e o cruzamento deliberado entre “alta” e “baixa” cultura ou entre o erudito/culto e o popular/massificado tornou-se regra na produção musical brasileira e na cultura como um todo. Como o tropicalismo foi um dos primeiros momentos de uma sensibilidade globalizada no Brasil (ou pós-moderna, se quiserem), ele permanece cada dia mais atual e cada vez mais atuante entre nós.


IHU On-Line – A seu ver, o que houve de mais original no tropicalismo?

Frederico Oliveira Coelho –
A liberdade de fazer música e cultura de acordo com sua própria sensibilidade, suas próprias ideias, sem ter que definir a priori caminhos, discursos e representações estáticas que circulavam no país e no mundo. A experimentação como regra criativa, o gosto pelo risco e pelo enfrentamento do consenso, a uso estratégico da cultura de massas como espaço de subversão (e não de alienação passiva). O tropicalismo, como disse uma vez Rogério Duarte, foi o desejo de uma modernidade amorosa para o Brasil.


IHU On-Line – Em relação às décadas de 1960 e 1970, a canção teria perdido a importância, a sua potência?

Frederico Oliveira Coelho –
De jeito nenhum. A canção é a forma mais sólida e estável da música brasileira. As novas experimentações sonoras ao longo dos anos 1970 não serviram para enfraquecer a canção, mas sim para fortalecer e diversificar seu formato. Hoje, com os diversos recursos eletrônicos, ritmos como o funk, o rap, o dub, o drone, os muitos rocks, a canção continua em expansão no Brasil. Basta ver trabalhos como os da Céu, Lucas Santana, Romulo Fróes, Seu Jorge, Siba, Marisa Monte, o sucesso avassalador dos Los Hermanos anos atrás, enfim, uma gana de artistas que ainda seguram a canção como gênero hegemônico e presente na música brasileira.

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