Edição 411 | 10 Dezembro 2012

Tropicalismo, uma revolução?

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Thamiris Magalhães

Sem nenhum sentido utópico, o tropicalismo foi revolucionário na maneira de entender e fazer música popular e no modo de produzir uma conjunção entre significação estética e significação política, pontua Celso Fernando Favaretto

O tropicalismo foi um movimento que não precisa se repetir. “Ele foi uma intervenção e o caráter de intervenção é conceitualmente muito importante. Intervir é entrar em uma situação, trabalhar com os dados dessa situação, produzir mudanças e não precisa mais repetir. A repetição, aí, torna-se enfraquecimento”, avalia Celso Fernando Favaretto, autor de Tropicália: alegoria, alegria, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line. Para ele, não há tropicalismo depois de 1967-1968. “Há ressonâncias, influências, absorção de suas proposições até hoje”.

O tropicalismo, reativando uma série de indicações que a bossa nova já tinha colocado, é exigente, segundo Favaretto. “Ele exige que a música seja objeto de uma atenção por parte dos receptores tanto quanto as outras artes. E, naquele momento, o tropicalismo foi um desafio muito grande. Ele mudou a audição das pessoas”, conta. E continua: “Ou as pessoas mudavam o modo de ouvir a música popular ou não entendiam nada; ou rejeitavam, chamando-a de alienada politicamente ou de vício e alguma coisa que não era música brasileira, que era música estrangeira ou algo incompreensível por ser caótica nos seus textos e em suas melodias. E não era nada disso. Ela não era caótica coisa nenhuma”. Para ele, os nossos ouvidos foram totalmente transformados e foram transformados, em primeiro lugar, pelas indicações da bossa nova, e, em seguida, pela radicalização tropicalista.

Celso Fernando Favaretto possui graduação em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas – PUC-Campinas, mestrado em Filosofia pela Universidade de São Paulo – USP e doutorado em Filosofia pela mesma instituição. Tem livre-docência pela Faculdade de Educação da USP. É professor emérito da Universidade de São Paulo - USP. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Estética, Educação e Ensino de Filosofia. É autor de Tropicália: alegoria, alegria (São Paulo: Kairós Editora, 1979), obra clássica sobre o movimento da tropicália e A invenção de Hélio Oiticica (EdUSP, 1992).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Qual o contexto de surgimento do tropicalismo e que período compreende este movimento?

Celso Fernando Favaretto –
O tropicalismo surgiu em meados dos anos 1960, mas vigorou apenas entre 1967, 1968, no momento em que as propostas e projetos de intervenções políticas através das artes estavam desenvolvendo um experimentalismo de alta voltagem como não tinha sido efetivada até então no Brasil. Seja na música, com os tropicalistas, seja nas artes plásticas, com Hélio Oiticica  etc.; seja na literatura com José Agrippino de Paula , seja no teatro etc., desenvolvia-se uma atividade bifrontal: de um lado, levar a experimentação, que tinha sido detonada em todos os lugares do mundo pela pop art até os seus limites expressivos mais elevados, e, simultaneamente, de outro lado, no caso particular do Brasil, colocar essa experimentação em conjugação com a necessidade de reagir à ditadura militar, ao regime militar ditatorial imposto pelo golpe de 1964.

Da coalisão, justaposição e das intersecções entre invenções estéticas e de novas maneiras de resistência política é que nascem as melhores indicações da arte da segunda metade dos anos 1960 e que tem o seu ponto de estrangulamento com a promulgação do Ato Institucional Número 5 (AI-5) do dia 13-12-1968. Então, o tropicalismo surge exatamente no meio dessa grande voltagem de transformações. Surge também a partir de uma reflexão que vinha sendo feita desde o final dos anos 1950 e, principalmente, no início dos anos 1960, a partir da bossa nova e da atividade e técnica de João Gilberto , do trabalho de Tom Jobim  etc., e que estava sendo efetuada pelos jovens. O Caetano Veloso, desde 1965, refletia longamente sobre a tradição da música popular brasileira e das intersecções que esta música estava tendo, seja com a bossa nova, seja quando surge a jovem guarda do Roberto Carlos e Erasmo Carlos, seja com as indicações internacionais do jazz e de outras músicas, do rock especificamente.



Tropicalismo como intervenção

Nesse sentido, é na intersecção de reflexão do que é estética e do que é política que surge o tropicalismo, como uma intervenção, em primeiro lugar, na música popular brasileira, sendo que pela primeira vez o gênero MPB é reconhecido como um gênero propriamente artístico e não apenas ligado a entretenimento, divertimento ou à expressão de sensibilidade ou de sentimentalidade e, ao mesmo tempo, essa música se torna um ponto de confluência de manifestação da resistência política ao regime militar.

O tropicalismo nasce, portanto, ao mesmo tempo como uma exigência de reorganização na cultura, principalmente de reorganização da maneira das artes interferirem politicamente na realidade, já que o golpe militar de 1964 tinha liquidado as posições anteriores, por serem muito inadequadas à situação brasileira, e abre um momento de experimentação, juntamente com outras artes, que emerge no Brasil. Essa experimentação se expressa nos discos tropicalistas, nos seus shows, nas suas atividades de televisão, nas suas manifestações e principalmente com uma influência muito grande nos comportamentos da juventude.


Repetição como enfraquecimento

O Caetano sempre disse que, antes de tudo, o tropicalismo foi uma intervenção na música popular brasileira, com uma valoração a tal ponto que se tornou uma coisa fundamental como talvez só ficou semelhante nos Estados Unidos e um pouco em Cuba, que é uma significação social de alto nível, tanto em termos de expressão, de sensibilidade, de desejo e de pensamento quanto em termos de expressão política. Essa música foi revigorada e levada a uma atenção maior com o tropicalismo. Ela antes não tinha isso, embora fosse extraordinária em termos de música popular. Então, essa é uma marca indelével do tropicalismo. Nesse aspecto, não precisa haver outro tropicalismo. Ele foi uma intervenção e o caráter de intervenção é conceitualmente muito importante. Intervir é entrar em uma situação, trabalhar com os dados dessa situação, produzir mudanças e não precisa mais repetir. A repetição, aí, torna-se enfraquecimento.

Logo, não há tropicalismo depois de 1967-1968. Há ressonâncias, influências, absorção de suas proposições até hoje.


Tropicalismo como influência para os dias atuais

Uma vez o tropicalismo terminado com o AI-5, porque houve um impedimento daquele tipo de manifestação libertária que eles faziam, principalmente na televisão, as influências deste movimento foram enormes nos anos seguintes. A música brasileira passou a estar livre para todas as suas experimentações possíveis, o que vem acontecendo até hoje. O tropicalismo foi, portanto, um momento não só de invenção inédita no Brasil, como de liberação, no caso da música, mas também no caso do teatro, cinema e outras artes, para todas as suas aventuras e possibilidades.


IHU On-Line – Então, o senhor acredita que ainda hoje há marcas do tropicalismo na sociedade?

Celso Fernando Favaretto –
O tropicalismo foi uma coisa bem configurada historicamente. Ele é típico daquele tempo. O movimento produz uma intervenção que não era assimilável imediatamente em termos de comunicação, emocionais e sentimentais. Exigia uma reflexão para que essa intersecção entre experimentalismo artístico e significação política surgisse de uma audição nova.
Não é o momento de falar mais de tropicalismo. As marcas estão lá atrás, enquanto configuraram uma abertura experimental, um modo de pensar a relação de arte e política, muito centrada naquele momento e que tiveram que ser reformuladas, tanto nos anos 1970, em função do rigor da censura e da repressão política, das prisões, torturas etc., como depois da redemocratização, onde não cabia mais simplesmente fazer a denúncia e a exortação. Cabia construir outra coisa. A marca principal é exatamente incluir o experimentalismo e a necessidade contínua de repensar a relação entre arte e sociedade.


IHU On-Line – Quais foram as principais conquistas conseguidas pelo movimento?

Celso Fernando Favaretto –
A primeira foi transformar a música brasileira de um gênero ligado mais ao entretenimento. Por mais fabulosa que fosse a música que vem dos anos 1920 e 1930, esta não era vista como um gênero, como eram a literatura, o cinema, o teatro e as artes plásticas. O tropicalismo, reativando uma série de indicações que a bossa nova já tinha colocado, é exigente. Ele exige que a música seja objeto de uma atenção por parte dos receptores tanto quanto as outras artes. E, naquele momento, o tropicalismo foi um desafio muito grande. Ele mudou a audição das pessoas. Ou as pessoas mudavam o modo de ouvir a música popular ou não entendiam nada; ou rejeitavam, chamando-a de alienada politicamente ou de vício e alguma coisa que não era música brasileira, que era música estrangeira ou algo incompreensível por ser caótica nos seus textos e em suas melodias. E não era nada disso. Ela não era caótica coisa nenhuma.


IHU On-Line – O senhor acredita que o tropicalismo foi revolucionário? Por quê?

Celso Fernando Favaretto –
Sem nenhum sentido utópico, de que revolucionário quer dizer intervir na totalidade da sociedade e mudá-la, o tropicalismo foi revolucionário, na maneira de entender e fazer música popular e no modo de produzir uma conjunção entre significação estética e significação política. Nesse sentido, o movimento foi revolucionário, sem delírios de achar que a música poderia transformar a sociedade e a realidade, assim como as outras artes também.


IHU On-Line – Onde estão essas influências, que o senhor citou acima, do tropicalismo hoje?

Celso Fernando Favaretto –
Ele inventou que a música popular brasileira poderia ser muitas coisas, simultaneamente, como dizia Gilberto Gil. Ela poderia incluir elementos da música contemporânea, eletrônica, pós-eletrônica, elementos aleatórios, aproveitar todas as produções populares de todas as gerações, que sempre foram rigorosas até hoje no Brasil, incluir o rock e os instrumentos não tradicionais, e assim por diante. Hoje, temos uma música popular brasileira extremamente culta, variada, e só não voltamos mais ao requinte, seja no canto, seja na orquestração, dos arranjos etc., porque nós já nos acostumamos. Os nossos ouvidos foram totalmente transformados e foram transformados, em primeiro lugar, pelas indicações da bossa nova, e, em seguida, pela radicalização tropicalista.


IHU On-Line – Como você definiria a tropicália? Qual a diferença entre este termo e o tropicalismo?

Celso Fernando Favaretto –
Tropicália é uma coisa. Movimento tropicalista é outra.
Esse termo tropicália tem um caráter de intervenção. O termo foi inventado pelo Hélio Oiticica, em 1967, quando ele montou um ambiente, que hoje se chama instalação. O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro ele nomeou de tropicália. Escrevi um livro sobre isso, chamado A invenção de Hélio Oiticica (EdUSP, 1992), onde analiso com detalhes o que era essa tropicália. Então, tropicália é uma proposição de ruptura de um modo de a arte relacionar-se com as artes do momento, do passado e com o contexto político-social. A música tropicália de Caetano Veloso chamou-se tropicália exatamente porque ela, no seu funcionamento interno, de fazer uma radiografia e uma crítica das mazelas do Brasil, era muito semelhante ao ambiente de Hélio Oiticica.


O novo por excelência

O ismo dá ideia de movimento. E, de fato, houve um grupo. E o tropicalismo tornou-se um movimento mesmo, no sentido de intervir na situação cultural e musical brasileira. Isso foi o tropicalismo.
O movimento se extinguiu em dezembro de 1968 com o AI-5. Qualquer proposta, não só na música, mas também no teatro, no cinema e em todo o lugar terminou com o rigor do regime, da censura, da repressão, da tortura, etc. Hoje, não tem sentido nenhum falar em ismo. Esse caráter de movimento foi típico do período moderno. Ele deixou de ser significativo depois que todas as conquistas modernas foram colocadas à disposição e localizo esse tempo exatamente no final dos anos 1960 até meados de 1970.

A partir de então, as artes vivem da reorganização interna daquelas proposições modernas e a invenção consiste muito mais numa reelaboração que traz novidades do que a tentativa de fazer o novo que nunca tinha existido antes. O tropicalismo, sim, foi o novo por excelência.

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