Edição 199 | 09 Outubro 2006

Espelho mágico

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

O filme a seguir, em cartaz no Rio de Janeiro e São Paulo, foi visto e apreciado por um colega do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

Ficha Técnica

Nome original: Espelho Mágico
Cor filmagem: Colorida
Origem: Portugal
Ano produção: 2005
Gênero: Drama
Duração: 137 min
Classificação: livre
Direção: Manoel de Oliveira
Elenco: Leonor Silveira, Ricardo Trepa, Michel Piccoli, Lima Duarte, Marisa Paredes, Luís Miguel Cintra 

Sinopse:

Alfreda (Leonor Silveira) é uma mulher bela e rica. Casada e sem filhos, tem uma única obsessão: ver a Virgem Maria. Um jovem (Ricardo Trêpa) recém-saído da prisão vem trabalhar em sua casa e planeja forjar uma farsa para satisfazer ao sonho da patroa.

 

Virgem Maria, uma obsessão

Reproduzimos a seguir a resenha de Neusa Barbosa, publicada no sítio www.cineweb.com.br em 05-09-06.

Na rica mansão em que se desenrola a história, não há sinais ostensivos de modernidade. Não há computadores nem aparelhos de DVD à vista. Só os luxuosos carros na entrada, lá fora – um Jaguar, um Aston Martin – situam o século XXI.

Lá dentro, indagações metafísicas e religiosas perturbam a paz dos silenciosos corredores, delimitados por móveis sóbrios, que parecem ter pertencido a várias gerações. A dona da casa, a rica senhora Alfreda (Leonor Silveira), tem apenas uma única obsessão, mas nada simples: ver a Virgem Maria.

No pequeno círculo de que se compõe sua convivência, não falta quem alimente a obsessão de Alfreda. O marido, Bahia (Duarte de Almeida), com quem vive um casamento sem filhos e aparentemente sem sexo, não se opõe. Muito menos o padre Clodel (Lima Duarte, pela segunda vez num filme do diretor português) e o teólogo inglês professor Heschel (Michel Piccoli), que estimula na dona da casa a crença de que Maria e Jesus teriam pertencido à aristocracia de seu tempo.

Esse microcosmo aristocrático e como que suspenso no tempo – porque para os ricos, o tempo parece passar muito devagar, como se o possuíssem – é invadido por um cínico contraponto a partir da chegada de Luciano (Ricardo Trêpa). Recém-saído da prisão – por envolvimento com tráfico de drogas -, o jovem é trazido por seu irmão (David Cardoso) para trabalhar a serviço de Alfreda. As conversas entre Luciano e Alfreda traduzem com eloqüência exemplar - fruto da cristalina adaptação de Manoel de Oliveira do livro A Alma dos Ricos, de Agustina Bessa-Luís, e da câmera segura de Renato Berta – o choque entre dois mundos sob o mesmo teto. De um lado, está a simplória e um tanto bruta lógica das ruas trazida por Luciano, que não vê como possa sustentar-se uma idéia tão descabida no espírito da bela patroa. Do outro, a firme persistência de Alfreda no seu sonho, um dos poucos que o seu dinheiro não pode comprar.

Outro ex-presidiário, Filipe Quinta (Luís Miguel Cintra), igualmente freqüenta a mansão, afinando o piano do dono, cujo hobby é dar aulas de música. É de Filipe a idéia, combinada com Luciano, de forjar a aparição da Virgem para Alfreda. Uma operação para a qual será indispensável a participação de uma jovem disposta à farsa (Leonor Baldaque).

Nessa interdependência entre classes sociais antagônicas o filme planta uma de suas várias chaves de discussão. Outra está igualmente na maneira como as mulheres se inserem na realidade, diferentemente dos homens. Uma fala de Alfreda a Luciano coloca esta diferença com um romantismo que a muitos parecerá arcaico: “As mulheres acham sempre que algo maravilhoso vai lhes acontecer e que as promessas serão cumpridas. Homens como você só acreditam no que vocês mesmos inventam”.

Um filme de Manoel de Oliveira é sempre isso – um banho de conteúdo, um mergulho na história, um recorte de culturas, uma sinfonia de atuações (e não é por acaso que seus elencos se repetem com tanta freqüência). Por trás de tudo, há igualmente um diálogo intenso sobre o tempo – afinal, o cineasta atingiu já seus 97 anos, bagagem não lhe falta. O tempo do filme mesmo corre por trilhos bem diferentes do que costuma o cinema moderno. Oliveira é um cidadão de outra época que nos dá o privilégio de compartilhar a sua densa história pessoal conosco.

A fé como tema central

Manoel de Oliveira, o cineasta mais velho do mundo em atividade, no jornal Folha de S. Paulo, 25-10-2005, fala do filme dizendo que a “fé é o tema de Espelho Mágico (2005)”. Ele afirma:

“A fé continua tendo um papel fundamental, é o alimento da vida. Não existe criação sem um criador. Nós acreditamos no que está criado; alguns põem em dúvida o criador. Mas a prova de sua existência é a própria criatura. O problema todo é acreditar apenas no que está comprovado. A grande força da fé está no contrário, no crer sem provas.

Espelho Mágico é a história de Alfreda, dama rica cujo maior sonho é a ser agraciada com a aparição da Virgem Maria. Sua contradição é acreditar piamente na existência da Virgem Maria, mas querer a todo custo encontrá-la para fazer algumas perguntas, encontrar alguma explicação. Que explicação? Não sabemos.”

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição