Edição 408 | 12 Novembro 2012

Por uma Igreja pluripatriarcal e não somente centrada em Roma

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Graziela Wolfart | Tradução de Vanise Dresch

Para o teólogo alemão residente na França, Christoph Theobald, Roma não deveria centralizar a resolução de todas as questões e, nos diferentes continentes, deveriam existir patriarcados culturais muito mais autônomos

Na opinião do teólogo Christoph Theobald, a crise que vive hoje a Igreja se deve, em parte, à incapacidade de escuta: “à incapacidade tanto de ouvir Deus falar quanto de ouvir os outros, uma vez que Deus fala através deles, de nos escutarmos e nos entendermos mutuamente. Então, o silêncio é a condição absoluta para que se possa escutar”. Segundo ele, o silêncio de Deus pode ter duas qualidades. “Por um lado, o silêncio de alguém pode assustar porque, num grupo, quando um indivíduo se cala totalmente, não se consegue saber o que ele está pensando; por outro lado, o silêncio de Deus não é desta natureza, é o silêncio de alguém que não tem nada a acrescentar por já ter dito tudo. O amor de Deus em Cristo, a intimidade de Deus, é suficiente. Portanto, o silêncio de Deus é como se Ele escutasse o que os homens têm a dizer uns aos outros”. Ao refletir sobre o legado do Concílio Vaticano II, Theobald argumenta que uma das questões não abordadas pelo Concílio e que é de fundamental importância em nossos dias é a ecologia. “O Vaticano reforça um pouco hoje a discussão sobre o assunto, mas o Concílio não fez nenhuma referência ao tema. Eu creio que a grande questão do futuro gira em torno do aumento da população, da extinção das energias fósseis e principalmente do aquecimento climático. Trata-se, a meu ver, de uma questão espiritual porque exige grandes renúncias na vida da humanidade hoje”.

Professor de Teologia Fundamental e Dogmática nas faculdades jesuítas do Centre Sèvres (Paris), Theobald é diretor da revista Recherches de Science Religieuse e colaborador em diversas redes de reflexão teológica. Dentre seus escritos, destacam-se as seguintes obras: A revelação (2002), Transmitir um Evangelho de Liberdade (2007), ambas publicadas no Brasil pelas Edições Loyola, e O cristianismo como estilo: uma maneira de fazer teologia na pós-modernidade (2007).

Christoph Theobald esteve na Unisinos no último dia 4 de outubro, participando do XIII Simpósio Internacional Igreja, Cultura e Sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização técnico-científica, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Na ocasião, ele proferiu a conferência “As grandes intuições do Concílio Vaticano II: desafios e possibilidades de aproximações às gramáticas atuais”. Ao final da mesma, concedeu a entrevista a seguir, pessoalmente, à IHU On-Line.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que deveria fazer parte de uma releitura do Concílio Vaticano II hoje?

Christoph Theobald –
Em primeiro lugar, foi o que tentei explicar em minha conferência sobre um modo de proceder, um modo de ouvir a palavra de Deus hoje, ou seja, um modo de interpretar as Escrituras. Isso é totalmente novo no Concílio Vaticano II . Em segundo lugar, não ler somente as Escrituras, mas também os jornais, para que possamos interpretar os sinais dos tempos, os acontecimentos ao redor de nós, os debates travados no próprio seio da sociedade, por exemplo, sobre a questão ecológica, e, por fim, as utopias que circulam na sociedade – para a tradição cristã, na verdade, é a utopia messiânica de uma humanidade plenamente realizada. Eis os dois elementos que, a meu ver, estão intimamente ligados. O terceiro elemento é o acesso à interioridade, à oração, ao colóquio com Deus e à liturgia. Temos, então, três vertentes de uma mesma prática que hoje devem ser transmitidas aos crentes, aos cristãos, ensinando-os novamente, talvez, a se entenderem mutuamente, pois me preocupam um pouco os conflitos e os jogos de oposição dentro da tradição cristã.


IHU On-Line – Quais os eixos temáticos que atravessam os documentos do Concílio Vaticano II que o senhor considera mais atuais para iluminar os desafios da época em que vivemos?

Christoph Theobald –
Eu citaria, em primeiro lugar, a constituição Gaudium et spes , sobre a atividade e a presença pastoral da Igreja no mundo da época, ou seja, nos dias de hoje. Penso especialmente na primeira parte deste documento, a qual nos propõe uma antropologia moderna por assim dizer, mesmo que lhe faltem alguns elementos, como, por exemplo, a questão ecológica, que está muito pouco presente ou mesmo quase ausente. Esta é, então, uma deficiência do documento. Na sua segunda parte, todas as grandes questões humanas são abordadas: as relações entre homens e mulheres, a família, os problemas econômicos, políticos e culturais, a paz mundial. Trata-se, portanto, de um documento de grande atualidade, embora contenha deficiências. Em minha opinião, precisaríamos refletir mais hoje sobre as relações entre homens e mulheres e todas as teorias do gênero.


IHU On-Line – Como o senhor concebe a luta hermenêutica em torno do Concílio? Como entender que este mesmo Concílio possa contribuir para embasar linhas de pensamento tão diferentes no seio da Igreja?

Christoph Theobald –
Uma questão é tradicional. Logo depois de um concílio, sempre surgem conflitos, principalmente conflitos de interpretação. Portanto, não devemos dramatizar, pois penso que, de certa maneira, esses conflitos são normais. No entanto, o problema é que a interpretação do Concílio Vaticano II gerou muitas vezes falsas oposições. Por exemplo, oposição entre uma hermenêutica de continuidade e uma hermenêutica de descontinuidade. Tal oposição é errônea porque, ao longo da história, nunca existiu continuidade sem descontinuidade, nem o inverso. É assim que funciona nossa memória humana. Então, como eu disse, existem muitas falsas oposições no debate hermenêutico atual. Penso que vivemos em uma época em que se deve fazer uma leitura rigorosa do Concílio, pois ele não pode abarcar todas as hermenêuticas. Eu diria que deve ser encontrada uma linha central de interpretação que tenha como princípio fundamental, depois de 50 anos, a possibilidade de reler as coisas de outro modo.


IHU On-Line – Quais as questões não resolvidas no Concílio que foram (ou não) retomadas no laboratório pós-conciliar?

Christoph Theobald –
Muitas questões foram retomadas depois do Concílio. Por exemplo, em relação à questão da feminização da presença eclesial, com todas as questões de carismas particulares e notadamente os ministérios, o Concílio é muito evasivo, não diz quase nada. Eu diria que a Igreja conciliar se mantém muito masculina: 2.400 bispos! Esta questão foi retomada entre o povo de Deus depois do Concílio e é bastante conflituosa atualmente. Uma segunda questão abordada pelo Concílio, mas que não foi levada adiante, é o pluriculturalismo, a pluralidade das culturas. Depois do Concílio, falou-se muito da pluralidade das religiões; desenvolveu-se muito isso, na assembleia realizada em Assis e nas assembleias seguintes, mas não se trabalhou suficientemente sobre o pluriculturalismo, nem durante nem depois do Concílio. Eu defenderia uma Igreja pluripatriarcal, ou seja, Roma não deveria centralizar a resolução de todas as questões e, nos diferentes continentes, deveriam existir patriarcados culturais muito mais autônomos. A terceira questão, talvez a mais urgente, é a ecologia. O Vaticano reforça um pouco hoje a discussão sobre o assunto, mas o Concílio não fez nenhuma referência ao tema. Eu creio que a grande questão do futuro gira em torno do aumento da população, da extinção das energias fósseis e principalmente do aquecimento climático. Trata-se, a meu ver, de uma questão espiritual porque exige grandes renúncias na vida da humanidade de hoje.


IHU On-Line – Como o senhor define o status da gramática do Vaticano II e o que este Concílio tem a dizer atualmente?

Christoph Theobald –
É claro que a gramática é um termo técnico. Na escola, a criança fala antes de aprendê-la. No entanto, a gramática é importante para aqueles e aquelas que transmitem a fé cristã. Isso significa que não se deve transmitir a fé unicamente através de fórmulas vazias e catequéticas; é preciso transmitir a gramática, ou seja, ensinar os cristãos a falarem e a agirem de modo cristão na sociedade em que vivem. Isso é decisivo no processo de transmissão. É por esta razão que insisto na gramática.


IHU On-Line – Como o senhor concebe o silêncio de Deus na sociedade contemporânea? A crise atual no seio da Igreja pode indicar este possível silêncio?

Christoph Theobald –
Digo muitas vezes que a crise se deve, em parte, à incapacidade de escuta: à incapacidade tanto de ouvir Deus falar como de ouvir os outros, uma vez que Deus fala através deles, de nos escutarmos e nos entendermos mutuamente. Então, o silêncio é a condição absoluta para que se possa escutar. Em minha opinião, é indispensável saber ficar em silêncio em nossa existência. Respondendo à pergunta sobre o silêncio de Deus, eu diria que ele pode ter duas qualidades. Por um lado, o silêncio de alguém pode assustar porque, num grupo, quando um indivíduo se cala totalmente, não se consegue saber o que ele está pensando; por outro lado, o silêncio de Deus não é desta natureza, é o silêncio de alguém que não tem nada a acrescentar por já ter dito tudo. O amor de Deus em Cristo, a intimidade de Deus, é suficiente. Portanto, o silêncio de Deus é como se Ele escutasse o que os homens têm a dizer uns aos outros.


IHU On-Line – O senhor gostaria de acrescentar algum comentário sobre o tema?

Christoph Theobald –
Prefiro me calar e respeitar o silêncio de Deus.



Leia mais...

Christoph Theobald
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

*Perfil – Christoph Theobald. Publicada na edição número 315, de 16-11-2009, disponível em http://bit.ly/Tvnp5p

* 58ª edição dos Cadernos Teologia Pública, intitulado “As narrativas de Deus numa sociedade pós-metafísica: O cristianismo como estilo”, disponível para download em http://bit.ly/Un8P6J

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