Edição 408 | 12 Novembro 2012

Um sistema político discriminatório e opressivo

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Thamiris Magalhães / Tradução: Luís Marcos Sander

A ocupação e as leis de segregação contra os palestinos são políticas de apartheid em termos políticos e jurídicos, argumenta Viola Raheb

Questionada se a criação de dois Estados seria uma saída para o conflito no Oriente Médio, Viola Raheb responde que a questão atualmente não é mais se a criação de dois Estados é a solução, e sim se essa solução ainda é viável. Em entrevista concedia por e-mail à IHU On-Line, Raheb diz que há alguns anos, essa solução poderia ter funcionado; “hoje, temos de perguntar se essa solução é possível à luz da política israelense de assentamentos que está em processo de expansão”. Para ela, à luz da realidade atual dentro da terra palestina, da “bantonização” da terra, essa solução é impossível. “A primeira base para alcançar qualquer acordo político é que a ocupação militar israelense seja removida junto com todos os seus instrumentos. Por isso, creio que o desafio não é qual solução, e sim os parâmetros para qualquer solução. É por esta razão que Oslo fracassou!”

Viola Raheb nasceu em 1969 em Belém, na Palestina. Obteve seu mestrado em Educação e Teologia Evangélica na Universidade Ruprecht-Karl, de Heidelberg, na Alemanha. Começou sua carreira no campo da educação formal e informal em 1995, sendo vice-diretora das Escolas Evangélicas Luteranas da Jordânia e Palestina de 1995 a 1998 e, ao mesmo tempo, chefe do Departamento de Relações Públicas do Centro Internacional de Belém. De 1998 a 2002, dirigiu o trabalho educacional da Igreja Evangélica Luterana da Jordânia e Palestina. Leciona em várias universidades e instituições de formação de professores da Áustria e Alemanha. É membro de numerosas organizações e comitês de diálogo intercultural e inter-religioso. Publicou numerosos livros e artigos e realizou vários projetos de pesquisa.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Que analogia pode ser estabelecida entre o apartheid ocorrido na África do Sul com o que está ocorrendo atualmente no mundo árabe?

Viola Raheb –
A analogia entre o apartheid na África do Sul e o que está acontecendo na terra palestina é um sistema político que extrai privilégios da discriminação e opressão. Trata-se de um sistema jurídico e cultural injusto que assegura a dominação de um grupo sobre e contra o “Outro”. No caso da África do Sul, isso ocorria por questões raciais, e no caso de Israel e da Palestina a questão não é racial. Muitas pessoas ficam chocadas quando se fazem analogias entre Israel e a África do Sul do apartheid. Elas diriam que Israel não é um Estado de apartheid, e elas têm razão no sentido de que para seus cidadãos ele não o é. Mas a ocupação e as leis de segregação contra os palestinos são políticas de apartheid em termos políticos e jurídicos.


IHU On-Line – Como você entende as narrativas religiosas no mundo árabe? Do ponto de vista teológico, como a religião se relaciona com o conflito no Oriente Médio, em particular entre israelenses e palestinos?

Viola Raheb –
Em primeiro lugar, gostaria de salientar que o conflito entre israelenses e palestinos não é religioso, mesmo que, muitas vezes, a religião seja usada equivocadamente em favor de agendas políticas. Em segundo lugar, gostaria de salientar que não há uma única narrativa religiosa nem sequer no mesmo grupo religioso. Independentemente do grupo para o qual olharmos, o cristão, o judaico ou o muçulmano, encontraremos narrativas diferentes, desde ideologias políticas e religiosas de extrema esquerda até de extrema direita. Ao mesmo tempo, é importante se dar conta de que as narrativas religiosas mudam, e mudaram ao longo dos 65 anos do conflito. As ideologias religiosas de direita ganharam terreno ao longo das últimas décadas e estão instrumentalizando cada vez mais a religião em favor de agendas políticas. Identidades sectárias e religiosas estão ganhando terreno e se tornando mais perceptíveis e atuantes. Se tomarmos, por exemplo, os discursos políticos sobre Jerusalém, seja do lado palestino, seja do lado israelense, descobriremos que a narrativa religiosa se tornou cada vez mais dominante nas últimas décadas.


IHU On-Line – O conflito geopolítico atual no Oriente Médio (região da Cisjordânia, em particular) possui origem na teologia?

Viola Raheb –
A resposta é claramente “não”. O conflito atual não tem origem na teologia. Quando a assembleia geral da Organização das Nações Unidas – ONU tomou a decisão a respeito da partição (resolução 181), não a fundamentou em termos teológicos, e sim políticos. A criação do Estado de Israel ocorreu num contexto histórico e político muito concreto e só pode ser entendida a partir dessa perspectiva.


IHU On-Line – Em que medida textos sagrados são usados para fundamentar a criação e o estabelecimento do Estado de Israel?

Viola Raheb –
Temos de admitir que textos sagrados foram utilizados e ainda estão sendo, não apenas para apoiar a criação do Estado de Israel, mas também para legitimar suas medidas políticas coloniais em relação aos palestinos. Entretanto, também neste caso é preciso diferenciar: há grupos judaicos radicais fazendo isso, como, por exemplo, alguns colonos, que reivindicam a posse da terra usando textos sagrados como se fossem títulos de propriedade, ao mesmo tempo em que expulsam proprietários palestinos de sua terra. Mas também há grupos sionistas de direita cristãos, que também justificam a política israelense de assentamentos em terra palestina, em palavra e ação, através de textos sagrados. Ao fazer isso, ambos os grupos vão além de usar textos sagrados para apoiar a criação do Estado de Israel, apoiando, assim, a ocupação, opressão e injustiça.


IHU On-Line – Que solução daria para o conflito israelo-palestino? A criação de dois Estados seria uma saída? Por quê?

Viola Raheb –
Creio que a questão atualmente não é mais se a criação de dois Estados é a solução, e sim se essa solução ainda é viável. Há alguns anos, essa solução poderia ter funcionado; hoje em dia, temos de perguntar se essa solução é possível à luz da política israelense de assentamentos que está em processo de expansão. À luz da realidade atual dentro da terra palestina, da “bantonização” da terra, essa solução é impossível. A primeira base para alcançar qualquer acordo político é que a ocupação militar israelense seja removida junto com todos os seus instrumentos. Por isso, creio que o desafio não é qual solução, e sim os parâmetros para qualquer solução. É por esta razão que Oslo fracassou! O processo de Oslo tratou de uma solução possível, que são dois Estados, mas não tratou dos parâmetros. Em minha opinião, se ambas as nações aceitarem que as duas têm direito a viver na terra entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo; que cada uma delas tem direito nacional à autodeterminação; que a criação do Estado de Israel significou a expulsão de quase 750 mil palestinos de sua terra e, consequentemente, aceitarem a necessidade de reconhecer o direito dos refugiados palestinos a uma solução justa que reconheça a injustiça que sofreram, uma solução pode ser alcançada.


IHU On-Line – Qual a posição das diversas correntes do judaísmo contemporâneo em relação ao conflito? Em geral, a comunidade judaica internacional tem uma posição frente às ações israelenses no Oriente Médio?

Viola Raheb –
Como disse acima, sempre precisamos diferenciar! Não há uma única posição do judaísmo contemporâneo para com o conflito. Há grupos que estão totalmente por trás das políticas do Estado de Israel e de sua ocupação e fazem parte da máquina de propaganda do Estado oficial de Israel. Por outro lado, há grupos que tomaram uma posição clara contra a política estatal oficial de Israel em relação aos palestinos. Esses grupos desenvolveram ações muito concretas a fim de salientar seu apoio a uma solução para o conflito; entre outros, há grupos como “Judeus por uma Paz Justa”.


IHU On-Line – No que consiste a “Paz Justa” e qual sua relação com o conflito israelo-palestino?

Viola Raheb –
É muito difícil responder a essa pergunta em poucas linhas. Durante a Década para a Superação da Violência lançada pelo Conselho Mundial de Igrejas – CMI, trabalhamos no desenvolvimento de uma conclamação ecumênica para uma paz justa. Para responder sua pergunta brevemente, diria que, no caso do conflito israelense-palestino, os parâmetros para uma paz justa estão totalmente ausentes. Para dar apenas alguns exemplos: o mundo não está preocupado com a transformação do conflito, nomeando a injustiça e a estrutura da injustiça e trabalhando para mudá-la, mas está preocupado com a gestão do conflito. A busca da “paz justa” implica desenvolver a resistência não violenta ativa e produtiva, e não só denunciar a violência. Mas quando olhamos mais de perto e vemos as várias medidas produtivas e criativas para a resistência não violenta no conflito israelense-palestino, como, por exemplo, o movimento internacional Boicote, Desinvestimento e Sanções – BDS, damo-nos conta de que aqueles que pregam a não violência deixam de apoiá-la em ações e atos reais.

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