Edição 407 | 05 Novembro 2012

Levar adiante o debate conceitual

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Adilson Cabral

Há alguns meses vinha materializando a ideia de um debate mais focado no conceito de multiplicidade da oferta, trabalhado por Valério Brittos por tantos anos em seus textos. Tal como outros colegas de dentro e do entorno do campo da Economia Política da Comunicação (EPC), entendia que tais momentos se ressentiam da necessária depuração conceitual que nos permite ir adiante na produção do conhecimento, além de contribuir para a visibilidade do trabalho e da atuação nas qual a EPC se debruça.

Apesar das várias oportunidades em encontros e conversas, o debate presencial não poderá mais ser possível pela ausência de nosso companheiro. Para Valério Brittos, a multiplicidade de oferta trata da aceleração da produção e da circulação de conteúdos para o consumidor, influenciando fatores como preço, audiência e concorrência, dentro não só do mercado audiovisual, como de outras mídias.

Tal compreensão em processo o motivou a pesquisar televisão em seu Doutorado e a ter se aproximado dos estudos de Audiovisual nos grupos de trabalho da Intercom – Sociedade Brasileira Interdisciplinar de Comunicação e da própria ULEPICC – União Latina de Economia Política da Informação, da Comunicação e da Cultura. As implicações desse conceito na economia e na política, bem como em fatores socioculturais, são amplas, mas o que as aproxima do trabalho que venho desenvolvendo – e por tanto, da produção de Valério Brittos – é compreender o quanto isso pode implicar ou inviabilizar a atuação das iniciativas de comunicação comunitária em relação à sociedade, predominantes no Brasil e no mundo.

Nas últimas mensagens que trocamos, Valério havia manifestado interesse em conhecer as iniciativas de comunicação comunitária do Rio de Janeiro, especialmente as estruturadas em comunidades de baixa renda. Diante de uma compreensão mais ampla de dominação mercadológica, a busca por formas alternativas de comunicação se fazia necessária, mas dentro, no entanto, da compreensão da superação da lógica do mercado ou, no mínimo, da evidência de caminhos de uma ruptura possível.

No entanto, aí começam os estranhamentos em relação às consequências das aplicações da ideia de multiplicidade de oferta. Por atuarem no raio específico da comunidade onde se localizam, existem iniciativas de comunicação comunitária em maior número e oferecendo mais conteúdos, lidando com a lógica da multiplicidade da oferta como inerente a sua atuação, o que não necessariamente soluciona as questões relacionadas à produção, à programação e à gestão das iniciativas comunitárias.

Um dos principais focos da crítica carregada nesse termo, ao longo de seu trabalho, é justamente a da fragmentação das audiências, que se diluem diante de tantos conteúdos oferecidos, respondendo ao convite de um consumo que leva a sociedade à diluição de suas estruturas e formas de organização, bem como à perda de referências de conteúdos comuns. A Internet, ao contrário do que se poderia conceber, seria o espaço da intensificação dessa fragmentação, não só pela ampliação dessa quantidade, como pela fugacidade e pela superficialidade dos conteúdos publicados.

Lidar com a multiplicidade da oferta, no entanto, é algo com o qual as novas gerações estão cada vez mais inevitavelmente aprendendo e o que, de certa forma, estava se anunciando desde os tempos do Relatório McBride. É possível trabalhá-la incorporando valores de pluralidade e diversidade que incluam na sociedade como sujeitos que contribuem para o desenvolvimento local nas comunidades onde atuam.

Portanto, o conceito de multiplicidade de oferta parecia carente de contextualização, pela sua condição dupla de crítica e contribuição. Acoplado a ele e a sua caracterização, sempre caberia um contexto em função do qual se fala, tanto em relação ao alcance dos meios, quanto ao envolvimento na elaboração dos conteúdos.

Atuação em comum

Foi no contexto desses debates em torno da EPC e da Comunicação Comunitária que nos aproximamos. Acolhi seu convite de realizar o I Encontro da ULEPICC Brasil, na Universidade Federal Fluminense, em outubro de 2006, propondo, na programação do evento. A partir daí organizamos o livro “Economia Política da Comunicação: interfaces brasileiras“, composto por textos relacionados aos painéis do evento.

Mais recentemente fui convidado por ele a integrar a Diretoria da ULEPICC Brasil, na condição de secretário-geral, com o propósito de buscar integrar essas frentes, bem como estimular a produção e a difusão de nossos conteúdos no meio acadêmico e social, dialogando com professores, pesquisadores, alunos e ativistas de áreas da Comunicação e afins.

A acolhida da minha contribuição à dinâmica de uma associação científica como a ULEPICC, originalmente pensada em torno da Economia Política da Comunicação, somente reforça aquilo que se compreende como maior elo na nossa relação acadêmica, que é a disposição em acolher e dialogar com o diferente, na busca por aproximações que fortaleçam a produção de conhecimento em torno da perspectiva crítica da Comunicação e contribuam para a realização de uma sociedade mais democrática.

Com certeza a dedicação do trabalho e os produtos deixados por Valério Brittos servirão de inspiração a gerações presentes e futuras no meio acadêmico, bem como seus conceitos e reflexões moverão ainda muitos debates e atividades em torno daquilo que ele sempre defendeu, uma sociedade mais justa e solidária no exercício da cidadania para a afirmação da democracia. 

* Adilson Cabral é professor do Departamento de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Mídia e Cotidiano da Universidade Federal Fluminense. É coordenador do Grupo de Pesquisa Emerge e secretário da Ulepicc-Brasil. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

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