Edição 407 | 05 Novembro 2012

“A religiosidade brasileira se faz pela festa”

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Graziela Wolfart

Segundo Mara Regina do Nascimento, o grau da relação que as sociedades do passado e do presente mantêm com a providência divina determina a forma de enterrar os seus mortos e as maneiras pelas quais irão se lembrar deles ou não

“Mais do que refletir determinadas doutrinas religiosas, as formas de viver e as práticas rituais do morrer podem revelar os quadros mentais de civilizações e a perspectiva temporal que estas experimentam. Os ritos de passagem, as manifestações que expressam o luto revelam, em grande medida, a relação que sustentamos com a temporalidade e nossa sensibilidade a ela. A história da Cristandade tem uma intrínseca relação com as maneiras de interpretar o tempo e estas se vinculam aos modos de viver e enterrar seus mortos”. A reflexão é da professora Mara Regina do Nascimento, que concedeu a entrevista a seguir para a IHU On-Line por e-mail. Para ela, “a secularização da vivência da morte, da vida social, do cotidiano, assenta-se nesta forte presentificação do tempo e na sua relação com o que ainda não aconteceu. O cuidado com o corpo e o desejo em prolongar a vida que experimentamos na contemporaneidade, em contraste com as preocupações com o conforto para a alma, de épocas passadas, singularizam o indivíduo moderno, contrastando-o com o sujeito que se sentia parte de uma comunidade unida por laços de oração aos mortos”.

Mara Regina do Nascimento possui graduação e mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS e doutorado em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professora na Universidade Federal de Uberlândia – UFU.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que a prática religiosa fúnebre pode dizer sobre os princípios que orientam uma determinada crença religiosa?

Mara Regina do Nascimento –
Celebrar a memória dos mortos não é outra coisa senão que a própria expressão dos ritos – e o rito é sempre um ato social. As práticas religiosas fúnebres, constituídas por estes ritos, são formas de exorcização da morte, que, se por um lado, pode significar perda e ruptura profunda no curso da vida ordinária, de outro pode estabelecer uma nova ordem na nossa relação com o cosmos. Nesse sentido, é da vida e dos vivos que estes ritos falam, revelam, reforçam identidades sociais e se orientam por crenças religiosas. Considerando que a relação dos vivos com seus mortos ganha configurações diversas ao longo do tempo – o entendimento acerca da morte e do morrer, no Brasil, por exemplo, não foi sempre o mesmo e se modifica de acordo com os imaginários e representações vigentes –, é preciso evitar as generalizações. As crenças e seus princípios são variáveis no tempo, assim como os rituais de morte. O grau da relação que as sociedades do passado e do presente mantêm com a providência divina determina a forma de enterrar os seus mortos e as maneiras pelas quais irão se lembrar deles ou não. Tenho pesquisado mais detidamente a dimensão social da morte nas cidades oitocentistas e os sentidos que a memória/o esquecimento dos mortos possuem no interior destas. O século XIX é peculiar para se observarem as tensões criadas a partir das transformações, não somente das formas de enterramento dos mortos, mas igualmente das concepções religiosas atreladas ao catolicismo e às representações para o post mortem.


Os cemitérios extramuros e a nova compreensão do urbano

No Brasil durante a década de 1850, as primeiras obras para a transferência dos cemitérios intramuros tiveram como locus privilegiado as capitais das províncias mais desenvolvidas do Império; e temporalmente precederam a separação civil entre a Igreja e o Estado. Esta reforma – essencialmente urbana e um misto de laicização e de restabelecimento do poder eclesiástico – é aparentemente um objeto paradigmático das transformações sofridas pelo espaço urbano dos anos 1800, quando o liberalismo se consubstancia em pensamento nacional. É um período em que os centros urbanos intensificam-se como polos irradiadores de uma rede complexa de circulação de mercadorias e transportes. As crenças religiosas não ficam à margem de tais transformações. Os cemitérios extramuros são reformas que acabam reafirmando as diferentes formas de culto e afetividade com os mortos e, sobretudo, uma nova compreensão do urbano. Esta compreensão, por sua vez, tanto revela os projetos urbanos que se empenhavam na fragmentação física e funcional entre os espaços – as secretarias dos governos provinciais, cada qual com sua atribuição, são criadas neste período – como denunciam uma nova relação do homem com a crença no Além. As concepções oriundas do conceito de progresso (criado no final do século XVIII e colocado em prática no XIX) vinham atreladas a uma visão otimista acerca do futuro. Nesse novo quadro, conforme afirma Koselleck , as expectativas deixam de se estender para o Além e a relação com o porvir transforma-se gradativamente em prognósticos racionais. Divisa-se um cenário em que as cidades características do período colonial, aquelas em que vivos e mortos conviviam e onde cotidianamente os enterramentos se efetivavam aos olhos de todos, seriam reformadas na totalidade.


IHU On-Line – Em que sentido a forma de viver e morrer reflete uma determinada doutrina religiosa?

Mara Regina do Nascimento –
Mais do que refletir determinadas doutrinas religiosas, as formas de viver e as práticas rituais do morrer podem revelar os quadros mentais de civilizações e a perspectiva temporal que elas experimentam. Na civilização moderna e ocidental, a experiência com o tempo, em sua concepção tridimensional – vivida pelo entrecruzamento do passado, com o presente e o futuro –, diz muito sobre as bases em que se assentam as doutrinas religiosas. Os ritos de passagem, as manifestações que expressam o luto revelam, em grande medida, a relação que sustentamos com a temporalidade e nossa sensibilidade a ela. A história da Cristandade tem uma intrínseca relação com as maneiras de interpretar o tempo e estas se vinculam aos modos de viver e enterrar seus mortos. Grosso modo, nos séculos XIII ao XVII a Cristandade baseava-se numa contínua espera pelo fim dos tempos; a ameaça do Juízo Final era, pois, fator de integração histórica (Koselleck). Nessa estrutura, presente e passado pareciam unir-se na perspectiva de um mesmo horizonte. A modernidade, segundo este mesmo autor, rompe com esta temporalidade e o futuro passa a ser vivido no presente, num processo de secularização dos “horizontes de expectativas” que passam a estar enraizados nos “espaços da experiência”. Nosso presente histórico assim concebido se entrecruza com a recordação e a experiência, afirma Fernando Catroga. A secularização da vivência da morte, da vida social, do cotidiano, assenta-se nesta forte presentificação do tempo e na sua relação com o que ainda não aconteceu. O cuidado com o corpo e o desejo em prolongar a vida que experimentamos na contemporaneidade, em contraste com as preocupações com o conforto para a alma, de épocas passadas, singularizam o indivíduo moderno, contrastando-o com o sujeito que se sentia parte de uma comunidade unida por laços de oração aos mortos.


IHU On-Line – Qual a relação entre festa e religião quando pensamos nas práticas religiosas brasileiras?

Mara Regina do Nascimento –
A religiosidade brasileira se faz pela festa. Muitos autores trataram e vêm tratando acerca desta temática, tomando o período colonial, o século XIX e a atualidade. São tantos pesquisadores, recortes, enfoques e perspectivas que não teria como enumerá-los aqui. Apenas a título de exemplo, temos os estudos de Beatriz Catão, sobre a festa de Corpus Christi nas cidades da América portuguesa, no século XVIII, os de Mariza Soares e Marina de Mello e Souza, para o Congado da mesma centúria, os de Lilia Moritz Schwarcz sobre a dimensão teatral da realeza nas festas do Brasil imperial, ou, ainda, o já bem conhecido trabalho de João José Reis sobre as práticas funerárias em Salvador da década de 1850 a cargo das irmandades religiosas, que imprimiam a estes rituais um caráter festivo. Há, na atualidade, uma corrente historiográfica centrada na reatualização das festas de negros, em que Hebe Mattos e Martha Abreu figuram entre as historiadoras mais conhecidas. Sem contar antropólogos como Roberto DaMatta  e Léa Freitas Perez que dedicam-se a revelar o quanto as festas nos formam, informam e nos mobilizam, a ponto de serem a nossa marca distintiva e de reconhecimento. Todos são unânimes em afirmar que não há como traçar a história do Brasil sem, de um modo mais aprofundado, ou mais tangencial, chegar-se à festa. Se entre os séculos XVII e XVIII elas expressavam-se por meio das formas exteriorizadas da fé; hoje, apesar dos cultos e rituais terem se tornado mais contritos e restritos ao interior dos prédios religiosos, as festas não sucumbiram à nova ordem social e urbana. Antes, seus promotores e protagonistas encontraram maneiras de eternizar sua existência.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição