Edição 199 | 09 Outubro 2006

O PT não é o menos pior. Mas ainda é melhor que o PSDB

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IHU Online

Francisco Whitaker é arquiteto e foi vereador pelo PT na Câmara de São Paulo, hoje não pertence mais aos quadros petistas. Tornou-se um crítico atento ao governo Lula e ao PT.  Ele concedeu entrevista exclusiva à IHU On-Line  na qual falou sobre a importância do segundo turno no País, projetos de PSDB e PT, posição da Igreja na política nacional e eleições.

Whitaker foi presidente da Juventude Universitária Católica - JUC - em 1953-1954, assessor da CNBB no 1° Plano Pastoral de Conjunto em 1965-1966, e assessor da Arquidiocese de São Paulo e da CNBB de 1982 a 1988. É sócio fundador da Associação Transparência Brasil e foi professor no Instituto de Formação para o Desenvolvimento de Paris e no Instituto Latino-Americano de Pesquisas Econômicas e Sociais (Ilpes/ONU). Dia 8 de dezembro, Francisco Whitaker irá receber em Estocolmo, no Parlamento Sueco, o Nobel Alternativo. A premiação será entregue pelo trabalho de mais de 50 anos de militância por um mundo com maior igualdade social.
Confira a entrevista, que foi originalmente publicada no site do IHU (www.unisinos.br/ihu) no dia 6-10-2006.

IHU On-Line – Como o senhor analisa as eleições de 1º de outubro e a ida ao segundo turno de Lula e Geraldo Alckmin?

Francisco Whitaker
- O fato de o PT não ter vencido no primeiro turno esmagadoramente está levando a necessidade de rever algumas coisas. Eu acho que isso tem evidentemente vantagens, por que vai permitir ao Lula e ao partido rever como o PT funcionou. Para aqueles que querem refundar o PT, foi melhor não ganhar no primeiro turno. Agora cresce a exigência de uma revisão. Em um certo sentido, o resultado de primeiro e segundo turnos ajuda em um aspecto. Ele é perigoso em outro aspecto, porque objetivamente, Alckmin seria a volta do esquema Fernando Henrique Cardoso que não foi bom para o Brasil. Foi um governo de submissão voluntária, colocando-se na posição de um país subdesenvolvido dependente. Não foi um projeto de procurar saídas ao modelo. O Lula não conseguiu sair desse modelo também. Objetivamente o compromisso de Lula e do PT, mesmo que esteja bem abalado, é com a mudança. Na verdade, a sociedade não pode repetir os erros que teve no primeiro mandato de Lula. No primeiro mandato de Lula, nós ficamos assistindo. Então, deixamos que as coisas acontecessem. Nesse segundo mandato, a sociedade geral, principalmente os militantes de esquerda têm que se posicionar muito mais autonomamente. Eles têm que exigir e pressionar para que as coisas não aconteçam como antes, tanto nas políticas públicas como na ética política. Criou-se um clima novo agora e uma exigência nova. Acho isso benéfico.

IHU On-Line – O senhor acredita que o PSDB e o PT atualmente são muito próximos como projetos de governo?

Francisco Whitaker
- O PT concorreu à Presidência para mudar completamente um projeto que era do PSDB. Mas na prática, só faltava ter deixado o Malan ainda como ministro da Fazenda. A continuidade foi absoluta. Mas isso não ocorreu porque PT e PSDB têm projetos idênticos. Foi porque Lula não se sentiu com a força necessária para poder enfrentar as conseqüências das mudanças.  Ele preferiu, digamos em um certo sentido, negociar, e ao negociar, acabou cedendo demais na política econômica. Quanto à política econômica, a continuidade foi total. A gente pode até observar que o ministro do Lula, o Antonio Palocci, tinha como assessores pessoas que vinham do governo anterior.  No caso dos tucanos, o projeto é mais tecnocrático. A própria maneira do Alckmin se apresentar como candidato avisa que temos que ter um choque de gestão. Como se o problema no Brasil fosse de administração. Não é. O problema aqui é político. A questão é ver onde tem de se concentrar mais recursos e mais possibilidades. Isso é uma questão política entre setores da sociedade. Não é uma questão de administrar bem ou mal. Ao mesmo tempo, o PSDB é um partido vinculado aos setores mais privilegiados do País. Bem diferente do PT, que é um partido com bases populares. O que o PT fez hoje foi perder as suas bandeiras. Os que dirigiram o partido se separaram das suas bases e passaram a dirigir sem consultar as suas bases. Passaram a atuar na velha prática dos outros partidos. Principalmente na relação com o legislativo. Eles passaram a raciocinar como se todos os meios fossem bons para garantir uma maioria parlamentar. Não é assim que se mudam as coisas. Teria sido preferível tentar governar com minoria no congresso e com o apoio da sociedade. Isso não é culpa especificamente do Lula. É culpa da estrutura partidária e das pessoas que assumiram a direção do partido. E isso eu digo com conhecimento de causa. Já fui vereador do PT, e no meu tempo, eu vi em dois mandatos em São Paulo, essa aceitação das regras espúrias da política brasileira. Por exemplo, fazer qualquer coisa para ganhar uma eleição significa aceitar qualquer lei.

IHU On-Line – Existe a possibilidade de surgir uma nova esquerda no País?

Francisco Whitaker
- Talvez isso seja um desejo. A própria esquerda vai ter que se rever enquanto esquerda. Não no sentido de posições, mas no sentido de estruturas. Por exemplo, será que estamos condenados a só atuar por meio de partidos ou temos que abrir espaço para as organizações da sociedade civil e ter uma presença política mais forte? Isso é uma alternância. Digamos que seja uma esquerda de outro tipo. Quando falamos em esquerda, pensamos muito em partido político. Talvez tenhamos que superar essa limitação dos partidos. Os partidos são instituições condenadas a se deglutirem mutuamente e internamente. Os partidos se transformam em arenas de disputas de personalidades, de carreiras políticas e perspectivas pessoais. Foi impressionante vermos como isso aconteceu dentro do PT. Isso não é esquerda, é o sistema tradicional político. Quando falamos de uma nova esquerda, seria uma esquerda que assumisse essa necessidade de mudanças.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a posição da Igreja Católica com relação à política nacional? Como ela deve se posicionar no segundo turno entre Lula e Alckmin?

Francisco Whitaker
- Acho que ela não vai se posicionar. A Igreja é suficientemente diversificada para tomar uma posição desse tipo. Ela vai continuar fazendo o que sempre fez. Vai alertar os eleitores para a sua responsabilidade e seu poder como eleitor. Vai alertar para a necessidade de pensar o País e não nos seus interesses imediatos. Normalmente a Igreja, é composta pelo povo de Deus, ou seja, ela é formada tanto de bispos como de padres, religiosos e leigos. Existe uma variedade muito grande de posições. Muitos setores estão extremamente engajados na mudança. Assim como alguns setores, por exemplo, a Opus Dei, que dizem que está por trás do próprio Alckmin. A Igreja não é um bloco uniforme, acho que vai ter uma variedade muito grande de opiniões. Ela é um espaço de descoberta da nossa consciência de cidadania.

IHU On-Line - Qual sua opinião sobre as manifestações de Frei Betto?

Francisco Whitaker -
Não tenho lido muito não. Suponho que ele esteja optando ao apoio ao Lula. Ele tem um poder muito forte de comunicação. Ele é muito ouvido principalmente nos setores jovens e nos movimentos sociais em geral.

IHU On-Line - O PMDB pode rachar com o apoio ao PT e PSDB nas eleições de 29 de outubro?

Francisco Whitaker
- Não vai rachar. O PMDB tem uma sabedoria pragmática de décadas. Ele sempre vai se manter em dois pedaços. A novidade que vai haver no futuro é a junção dos pequenos partidos. Existem partidos completamente fora de espaço. Um caso, por exemplo, típico acontecido agora aqui em São Paulo: teve um partido, que pouca gente conhece, que elegeu um cidadão que nem sabe o que é ser deputado: o Clodovil. Ele foi eleito com uma quantidade esmagadora de votos, parece-me que foi o terceiro mais votado. Quando é entrevistado, o máximo que ele diz é que vai “chiquérrimo” na sua posse. Mas ele nem sabe para que serve - ele diz isso com todas as letras - um deputado. Ele reflete muito que a maioria da população pensa. Mas com a votação que o Clodovil fez ele acabou levando para a câmara um deputado que é coronel reformado da polícia militar. Ele fez 8 mil votos. Esse coronel é absolutamente contra os homossexuais. Clodovil é uma pessoa de orientação sexual assumidamente gay. Esse coronel é absolutamente contra os homossexuais. Na verdade, isso é uma loucura brasileira. Quer dizer, no mesmo partido o mais votado traz consigo aquele que é contrário a ele.

IHU On-Line – O senhor já sabe em quem vai votar no segundo turno?

Francisco Whitaker
- Não tenho dúvida que irei votar no Lula no segundo turno. Não tenho muita escolha. Agora, são efetivamente projetos antagônicos. Mesmo que eu tenha muitas reticências com relação a Lula e dúvidas que eu tenha sobre o PT. Não diria que o PT é o menos pior, é o ruim  que está do nosso lado, mas é melhor que o outro, o PSDB, este é o partido da conservação do sistema como ele é, na submissão voluntária a essa mundialização dominada pelos interesses do capital.

 

 

 

 

 

 

 

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