Edição 407 | 05 Novembro 2012

Os fundamentalismos são filhos da modernidade?

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Graziela Wolfart

Pedro Lima Vasconcellos destaca que os modos de conceber a vida e de fazê-la acontecer no cotidiano não coincidem automaticamente com aquilo que querem determinar para ela as instituições políticas, sociais e religiosas

“Os fundamentalismos parecem ser filhos da modernidade, filhos que adotaram uma das características principais da mãe, qual seja, o pragmatismo, mas ao mesmo tempo dizem tê-la rejeitado, na medida em que ela teria expulsado a religião e as religiões do centro da vida social e da tomada de decisões no plano político. Nesse sentido, os fundamentalismos ecoam saudosismos de vários matizes e matrizes, evocando tempos (muitas vezes concebidos de forma idealizada) em que as referências de ordem religiosa seriam a base para a organização social da vida”. A afirmação é do professor da PUC-SP, Pedro Lima Vasconcellos, em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line. Por outro lado, continua ele, “os fundamentalismos reagem ao que lhes parece ser um beco sem saída em que a modernidade terá metido grande parte da humanidade, na medida em que as promessas de paz, liberdade, progresso, autonomia, se é que se fizeram realidade, só o foram para uma parcela bem pequena dos humanos na contemporaneidade: o que grassa são as guerras, a fome, a devastação ecológica, a dissolução de vínculos tradicionais, o individualismo”. E conclui que a religião está presente de forma significativa em nossos dias, “e nada no horizonte indica para seu desaparecimento, como quiseram fazer-nos crer figuras importantes do pensamento, como Marx ou Freud, ou outras de menor quilate, como Dawkins”.

Pedro Lima Vasconcellos possui bacharelado em Teologia pela Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, licenciatura plena em Filosofia pelas Faculdades Associadas do Ipiranga, mestrado em Teologia pela Associação São Paulo de Estudos Superiores, e mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, além de doutorado em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e livre-docência em Ciências da Religião pela mesma instituição. É professor na Faculdade de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (no Departamento de Ciência da Religião e no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião). É também docente, desde 2007, do Centro Universitário Salesiano de São Paulo, no curso de Teologia.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que o senhor destaca em relação às memórias e narrativas de messianismos, profetismos e santidades? Qual a particularidade de cada um?

Pedro Lima Vasconcellos –
O termo “messianismo”, a meu ver, não é adequado para tratar de movimentos como Belo Monte (Canudos ), Contestado  ou os Mucker . É ambíguo: basta ver as definições que para ele propõem trabalhos importantes como os de Henri Desroche  e Maria Isaura Pereira de Queiroz . Entendo que, mais que fixar-se no conceito, é preciso dar voz aos protagonistas destas alternativas populares, no campo social e religioso, e recuperar as visões de mundo e os horizontes utópicos específicos que lhes deram viabilidade e razão de ser. Já o conceito de profetismo, na perspectiva da acepção proposta a ele por Max Weber  (e aprofundada por Bourdieu ), me parece indicador de um bom caminho analítico, na medida em que aponta para o contraste, a alternativa, a dissidência no interior do campo religioso, no embate com as burocracias que neste ocupam lugar de destaque. Antonio Conselheiro , por exemplo, será muito melhor compreendido se o vemos a partir da categoria do profeta veiculador-formulador de aspirações da gente que lidera do que se o tomamos por um messias salvador, ou instaurador de um novo tempo e era aqui na terra. Finalmente, o conceito de “santidade”, pelo que imagino, aparece aqui em referência à nomenclatura utilizada por escritores europeus, especialmente jesuítas, chegados ao Brasil em meados do século XVI, para designar uma série de manifestações sociais e rituais de grupos indígenas em que se preconizava, entre outras coisas, a busca da “Terra sem males”. O episódio mais famoso ficou conhecido com o nome de “Santidade do Jaguaripe”, no Recôncavo baiano, e objeto de brutal repressão em 1585. A saga do Jaguaripe foi tema de brilhante trabalho do historiador Ronaldo Vainfas , A heresia dos índios (São Paulo: Companhia das Letras, 1995).


IHU On-Line – Que contribuições os messianismos, profetismos e santidades podem oferecer à forma de vivência religiosa contemporânea?

Pedro Lima Vasconcellos –
Entendo que a principal contribuição da abordagem dos movimentos que costumam ser designados com essas categorias (em relação aos quais, especialmente o primeiro, formulei algumas reservas) pode ser a de contribuir para o reconhecimento do protagonismo sociorreligioso de tantos segmentos da população, na maioria das vezes empobrecida e vítima da dominação, em múltiplas formas e âmbitos. Os modos de conceber a vida e de fazê-la acontecer no cotidiano não coincidem automaticamente com aquilo que querem determinar para ela as instituições políticas, sociais e religiosas.


IHU On-Line – Como o senhor analisa o fundamentalismo religioso no cenário atual? Como entendê-lo e qual seu futuro para o decorrer do século XXI?

Pedro Lima Vasconcellos –
Esse tema é muito complexo, e só pontuo aqui dois de seus aspectos. Primeiramente, os fundamentalismos parecem ser filhos da modernidade, filhos que adotaram uma das características principais da mãe, qual seja, o pragmatismo, mas ao mesmo tempo dizem tê-la rejeitado, na medida em que ela teria expulsado a religião e as religiões do centro da vida social e da tomada de decisões no plano político. Nesse sentido, os fundamentalismos ecoam saudosismos de vários matizes e matrizes, evocando tempos (muitas vezes concebidos de forma idealizada) em que as referências de ordem religiosa seriam a base para a organização social da vida. Por outro lado, os fundamentalismos reagem ao que lhes parece ser um beco sem saída em que a modernidade terá metido grande parte da humanidade, na medida em que as promessas de paz, liberdade, progresso, autonomia, se é que se fizeram realidade, só o foram para uma parcela bem pequena dos humanos na contemporaneidade: o que grassa são as guerras, a fome, a devastação ecológica, a dissolução de vínculos tradicionais, o individualismo. Procurei tratar dessas e outras questões relativas aos fundamentalismos num pequeno livro intitulado Fundamentalismos: matrizes, presenças e inquietações (São Paulo: Paulinas, 2008).


IHU On-Line – Qual a importância que as religiões e as práticas religiosas adquirem na sociedade atual?

Pedro Lima Vasconcellos –
Exceto em alguns poucos lugares do planeta, a religião está presente de forma significativa, e nada no horizonte indica seu desaparecimento, como quiseram fazer-nos crer figuras importantes do pensamento, como Marx  ou Freud , ou outras de menor quilate, como Dawkins . Diferentemente disso, temos assistido à crise de (algumas) instituições religiosas de muito peso histórico; em seu lugar, não ocupando espaço a não religião, mas novas expressões, antes minoritárias ou inexistentes, fazem-se notar de maneira pujante, num quadro de fragmentação muito próprio a nossos dias e que, a meu ver, tende a acentuar-se. Trata-se de um processo que podemos constatar na sociedade brasileira e em muitas outras latitudes e longitudes. Durkheim  parece ter tido razão quando sugeriu que havia algo de eterno na religião, destinado a sobreviver a todos os sistemas religiosos: estes, sim, nascem, crescem e eventualmente morrem.


IHU On-Line – Qual o espaço ocupado pelo texto bíblico e que importância ele adquire para a vivência da fé cristã atualmente?

Pedro Lima Vasconcellos –
Entendo que em âmbitos católicos, onde o  manuseio da Bíblia chegava mesmo a ser proibido, terá havido mudanças importantes: não foram poucos os lugares em que houve um verdadeiro apossar-se do texto bíblico e a descoberta, nele, de inspirações profundas para o agir consequente na sociedade atual, em vistas especialmente à criação de formas mais solidárias de organização da vida coletiva (mas em Belo Monte e no Contestado, de alguma forma, processos semelhantes foram vividos...). Muitos grupos de sem-terra, de mulheres empobrecidas, encontraram na Bíblia conforto e estímulo em suas lutas por vida, justiça e liberdade. E, seguramente, descobriram em Jesus e no Deus cujo reino ele anunciou inspirações para sonhar outras formas de conceber o mundo e as relações dos seres humanos com o Transcendente, consigo mesmos e com o planeta. Claro que esse caminho de reflexão e ação não tem sido o único a ser trilhado: os fundamentalismos cristãos de vários matizes estão aí para demonstrá-lo. 

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