Edição 407 | 05 Novembro 2012

Vitalidade e criatividade: as marcas da religiosidade do povo brasileiro

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Graziela Wolfart

“É claro que igrejas, templos, mesquitas, sinagogas e outras organizações religiosas continuam a desempenhar um papel importante na sociedade atual”, argumenta Solange Ramos de Andrade, “mas grande parte da vida religiosa ocorre fora desses ambientes institucionais”

Na visão da professora Solange Ramos de Andrade, o cenário religioso brasileiro está marcado atualmente por um significativo pluralismo religioso e pela crise dos modelos institucionais das denominações religiosas tradicionais. Em entrevista concedida por e-mail para a IHU On-Line, ela afirma que pensa a religião a partir de uma perspectiva histórica, enquanto um sistema de crenças, rituais e hierarquias institucionais, que se configuram num conjunto de estratégias cognitivas relativas à significação da vida e da morte e seus modos cognitivos se manifestam em elaboração doutrinal expressa em discursos escritos ou lidos. “E penso a religiosidade enquanto manifestação de vitalidade imaginária que ao não necessitar de uma reflexão intelectual, soma ao seu senso comum crenças religiosas e expressões rituais próprias e espontâneas, que mantém vivas suas convicções e esperanças ou sua saúde mental e corporal, cujos modos cognitivos se constituem, fundamentalmente, em imagens e movimentos rituais. Analisar como essas crenças relacionam seus discursos/narrativas com suas práticas é condição essencial para entendermos a sua constituição, instituição e manutenção em nossa sociedade”. Solange acredita que condiz com nosso tempo toda manifestação religiosa que responda às necessidades sentidas pelas pessoas que buscam respostas num nível transcendente e transhumano. “O conceito de eficácia religiosa é muito importante, porque se um discurso religioso não é eficiente, ‘não funciona’, ele perderá sua razão de ser, que é a de oferecer respostas para questões ao mesmo tempo fundamentais e imediatas, como é o momento em que vivemos”.

Solange Ramos de Andrade possui graduação, mestrado e doutorado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atualmente é professora no Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual de Maringá (PPH-UEM), onde coordena o Curso de Especialização em História das Religiões (DHI/UEM). É também coordenadora do GT Nacional da ANPUH - História das Religiões e das Religiosidades e é editora da Revista Brasileira de História das Religiões.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como a senhora percebe/define o cenário religioso brasileiro atual? O que marca a religiosidade do povo brasileiro hoje, de forma geral?

Solange Ramos de Andrade -
Acredito que, atualmente, vivemos dois momentos no cenário religioso brasileiro e que acompanham o que tem acontecido em outros países: o primeiro momento está marcado por um significativo pluralismo religioso e, no segundo momento, presenciamos uma crise dos modelos institucionais das denominações religiosas tradicionais.
O pluralismo religioso significa a coexistência de diferentes formas de expressão religiosa no mesmo espaço social e é visível quando observamos que existe uma maior mobilidade entre as manifestações religiosas e multiplicam crenças subjetivadas que as instituições religiosas não têm mais como controlar, pois paulatinamente perderam o poder de controlar o espaço público onde proliferam. Por exemplo, o crente que frequenta um culto em uma determinada igreja, vai pular ondas no Ano Novo, em homenagem à Iemanjá, assiste outros cultos pela TV e pela internet e ainda vai a um encontro ecumênico promovido por outras instituições religiosas e nem por isso sente-se constrangido em vivenciar essas práticas publicamente.
A religiosidade do brasileiro está caracterizada por uma composição de crenças em função de seus interesses, de sua inspiração, de sua disposição e de suas experiências, parafraseando Hervieu-Lèger . Este atual cenário religioso brasileiro pode ser pensado a partir do último Censo (2010) , que apresentou o expressivo crescimento da diversidade dos grupos religiosos no Brasil. Ainda somos um país majoritariamente católico, mas outras denominações cristãs, em relação ao Censo de 2000, tem se consolidado, como é o caso da Assembleia de Deus. Também temos de considerar os que se autodenominam sem religião, um percentual que tem aumentado nos últimos anos, mais uma vez evidenciando um processo de autonomia do individuo no que diz respeito à sua adesão ou não a determinada religião. Ressalto que a religiosidade vivida pelo brasileiro é caracterizada por grande vitalidade e criatividade. É claro que igrejas, templos, mesquitas, sinagogas e outras organizações religiosas continuam a desempenhar um papel importante na sociedade atual, mas grande parte da vida religiosa ocorre fora desses ambientes institucionais. Também destaco o processo de adesão religiosa que hoje está relacionado a uma opção individual e já há algum tempo encontramos famílias nas quais cada membro pertence a denominações religiosas diferentes e até mesmo divergentes entre si.


IHU On-Line - Qual a importância de resgatar a história religiosa e das religiões para a compreensão do fenômeno religioso contemporâneo?

Solange Ramos de Andrade -
Em primeiro lugar acredito que, neste momento histórico, precisamos entender a manutenção das crenças religiosas quando vivíamos um processo de questionamento do porque as religiões não desapareceram com o advento da modernidade, como foi tão propalado no século XX. Quais as respostas que as religiões e religiosidades nos dão para que sigam influenciando e sendo influenciadas pela sociedade? Como essas manifestações realizam adequações e recomposições para se tornarem historicamente viáveis?  Em segundo lugar, ao lado dessa vitalidade religiosa somos constantemente bombardeados com informações de conflitos étnico-religiosos em vários locais do planeta. Conhecer como funcionam determinados sistemas religiosos e conhecer seu viés pacífico e tolerante é condição fundamental para que consigamos ultrapassar essas formas de intolerâncias. Finalmente, penso que as religiões e religiosidades fazem parte de nosso patrimônio material e imaterial e a sua preservação implica na manutenção de nossa memória enquanto produtores e consumidores de cultura.


IHU On-Line - O que os discursos/narrativas das práticas religiosas podem ensinar sobre a mística e a doutrina de uma determinada religião?

Solange Ramos de Andrade -
Em primeiro lugar, penso a religião a partir de uma perspectiva histórica, enquanto um sistema de crenças, rituais e hierarquias institucionais, que se configuram num conjunto de estratégias cognitivas relativas à significação da vida e da morte e seus modos cognitivos se manifestam em elaboração doutrinal expressa em discursos escritos ou lidos. E penso a religiosidade enquanto manifestação de vitalidade imaginária que ao não necessitar de uma reflexão intelectual, soma ao seu senso comum crenças religiosas e expressões rituais próprias e espontâneas, que mantém vivas suas convicções e esperanças ou sua saúde mental e corporal, cujos modos cognitivos se constituem, fundamentalmente, em imagens e movimentos rituais. Analisar como essas crenças relacionam seus discursos/narrativas com suas práticas é condição essencial para entendermos a sua constituição, instituição e manutenção em nossa sociedade.


IHU On-Line - Como avalia que as instituições religiosas estão se portando diante das transformações do campo religioso brasileiro e das modificações em relação a como os indivíduos vivem sua fé?

Solange Ramos de Andrade -
Como afirma Peter Berger , as condições atuais representadas por migrações ou viagens em grupos, a urbanização, a alfabetização e, principalmente a tecnologia das comunicações geraram uma situação em que distintas tradições religiosas se percebem muito próximas e com informações muito mais precisas acerca dos modos de agir de cada uma, leva a uma disputa mais acirrada pelo predomínio no campo religioso. Como o Estado é laico e não temos mais uma religião sustentada por ele, os agentes religiosos devem utilizar o que Berger denomina de persuasão, ou seja, desde o Vaticano II , por exemplo, a Igreja católica tem realizado estudos sobre os modos de ser católico no Brasil. A necessidade de conhecer a realidade na qual se inserem faz parte de uma estratégia que visa uma adesão maior do brasileiro ao catolicismo. Uma das estratégias que presenciamos hoje em dia é incentivar a participação dos jovens e que podemos destacar, no plano internacional, as Jornadas Mundiais da Juventude, incentivadas pelo papa João Paulo II e, no nível local, o crescimento significativo dos quadros jovens da Renovação Carismática Católica, que conta um número expressivo de jovens em seus quadros. Também podemos pensar em outras igrejas cristãs históricas, como o missionário presbiteriano residente no Brasil desde 1952, William R. Read, quando já na década de 1960, abordava o crescimento acelerado das Igrejas pentecostais no Brasil, alertando ser o local em que mais crescia esse movimento no mundo. Read apresentava algumas estratégias para os presbiterianos não perderem seus membros e estas também seriam estratégias a serem utilizadas por várias instituições tradicionais: encontrar caminhos para levar a Igreja a um esforço mais eficiente de evangelização; descobrir um tipo de apelo emocional para ganhar o povo; mostrar ao povo que eles podem e devem ter vitalidade em sua experiência religiosa; prever ministros ordenados no nível popular; trabalhar intensamente nas áreas populares; encontrar modos de viver cordialmente com o povo e transmitir-lhe a mensagem cristã; desenvolver um método de evangelização que seja bíblico, paulino, espiritual e aceitável aos tempos atuais; aprender a treinar os líderes na implantação de comunidades vivas e eficientes;  colocar todos os membros em estado de participação ativa na vida da Igreja; reestruturar a Igreja no sentido de ser adaptável às novas áreas populares suburbanas; e aprender a ler os sinais dos tempos, custe o que custar. Para finalizar, outro aspecto importante é que como o mercado religioso, como o denomina Bourdieu , possui inúmeros concorrentes, algumas instituições religiosas mais tradicionais rivais optaram por estabelecer regras de condutas tais como não invadir o território da outra, e tentar viver pacificamente a partir de um “movimento ecumênico”, que ocorre tanto no Brasil, como na América Latina de modo geral e nos Estados Unidos.


IHU On-Line - Quais são as manifestações religiosas contemporâneas que mais condizem com nosso tempo?

Solange Ramos de Andrade -
Acredito que toda manifestação religiosa que responda às necessidades sentidas pelas pessoas que buscam respostas num nível transcendente e transhumano, em primeiro lugar. O conceito de eficácia religiosa é muito importante, porque se um discurso religioso não é eficiente, “não funciona”, ele perderá sua razão de ser, que é a de oferecer respostas para questões ao mesmo tempo fundamentais e imediatas, como é o momento em que vivemos. Especificamente posso pensar em algumas manifestações e o que elas representam e vou responder apenas no caso do Brasil. A preocupação de maior contato com a natureza e consequente proteção ao meio ambiente enfatiza movimentos relacionados à própria natureza e à mulher, por sua representação estar muito ligada ao próprio movimento da fertilização, da manipulação de ervas, da sensibilidade e aí podemos incluir o Santo Daime  e as várias representações do movimento Wicca. A importância da construção de uma identidade pelo jovem, isto é, a necessidade de estar vinculado a uma tribo (Maffesoli ), com regras específicas de convivência nos faz citar a Bola de Neve Church , que mescla cultura jovem e evangelização cristã. Igrejas pentecostais como a Assembleia de Deus, que com discursos teológicos proferidos em linguagem acessível aliados a músicas de rock em seus cultos lotam seus espaços com pessoas das mais variadas faixas etárias. A Renovação Carismática Católica que como várias denominações neopentecostais, lota igrejas e estádios de futebol com suas músicas e ludicismo. E não posso esquecer as várias apropriações e posteriores representações das religiões orientais, com destaque ao budismo.

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