Edição 405 | 22 Outubro 2012

O Ano da Fé, o Vaticano II e a hermenêutica conciliar de Bento XVI

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Rodrigo Coppe Caldeira

"A hermenêutica de Bento XVI dá importância preponderante à letra do concílio, ou seja, aos textos resultantes da assembleia conciliar", analisa Rodrigo Coppe Caldeira, doutor em Ciências da Religião e professor da PUC Minas e autor do livro Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II (Curitiba: CRV, 2011).

Segundo ele, "para a história, o legado do Vaticano II continua incerto. O que parece claro é que a questão da interpretação do concílio é um tema central do pontificado de Bento XVI e os desafios delineados estão em responder como a Igreja será capaz de recepcionar o concílio valendo-se dos seus textos, do espírito que os perpassa, tendo em vista a milenar tradição do cristianismo".

Eis o artigo, que foi originalmente publicado no sítio do IHU, nas Notícias do Dia de 22-10-2012.

Estamos a viver na Igreja Católica o Ano da Fé. No dia de sua abertura e naqueles seguintes, com olhar comemorativo que foca nos vinte anos do Catecismo da Igreja Católica e, especialmente, nos cinqüenta anos da abertura do Concílio Vaticano II, algumas falas de Bento XVI trazem elementos muito interessantes para se compreender como o papa entende o lugar do concílio e as questões hermenêuticas em torno dele. Arrisco a hipótese, inclusive, de que o papa, pouco a pouco, vai trazendo à baila sua versão hermenêutica do concílio, ou seja, a versão autorizada e oficial do Vaticano II.

Inicialmente, o papa confirma a sua compreensão – que não parece ter mudado nestes quase sete anos de pontificado, de que a crise que marca a Igreja no pós-concílio é debitória de uma hermenêutica equivocada, aquela que chama de hermenêutica da ruptura, e que se faz necessário  uma "justa hermenêutica" para que, de fato, o concílio possa ser vivido em toda a sua força.  Observa-se que parágrafo 5 da Carta Apostólica sob forma de Moto proprio Porta Fidei, com a qual se proclama o Ano da Fé, Bento XVI faz referência direta à fala de seu predecessor, João Paulo II, que afirmava, na Novo Millennio Ineunte, que o Vaticano II é "bússola segura para nos orientar no caminho do século que começa" e recorda novamente trecho do Discurso aos Cardeais em 22 de dezembro de 2005, que trouxe novo impulso às discussões sobre a interpretação do concílio: "Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermenêutica, o Concílio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja".

Em texto inédito de Bento XVI, vindo a público no último 11 de outubro  por ocasião do cinqüentenário do Vaticano II, intitulado "Um dia maravilhoso", o papa traz alguns pontos importantes para se visualizar o que entende pelo que chamou de "justa hermenêutica”. Em primeiro lugar, esclarece como compreende um conceito chave que embala todo o concílio e o pós-concílio: atualização/aggiornamento.

Num primeiro momento afirma: "Esta percepção do cristianismo ter perdido o presente e da tarefa que daí derivava estava bem resumida pela palavra ‘atualização’: o cristianismo deve estar no presente para poder dar forma ao futuro. Para que pudesse voltar a ser uma força que modela o porvir, João XXIII convocara o Concílio sem lhe indicar problemas concretos ou programas. Foi esta a grandeza e ao mesmo tempo a dificuldade da tarefa que se apresentava à assembleia eclesial".

Nesta afirmação, além de iniciar a exposição de sua compreensão sobre o significado do aggiornamento no contexto do concílio, pergunto se, de forma contrária ao que acredita – que a crise pós-conciliar relaciona-se diretamente com determinada hermenêutica, aquela de ruptua –, Bento XVI já não dá um passo em direção a compreender que, talvez, a crise encontra-se relacionada com, como diz o teólogo jesuíta Christoph Theobald, à própria natureza do concílio, isto é, o seu lugar único na história dos concílios da Igreja Católica, as dificuldades em situá-lo numa história longa, o problema de seu posicionamento singular no conjunto da tradição cristã, e mais, a sua identidade “aberta”, já que João XXIII hesita em escolher um modelo conciliar, pensando-o como um “Novo Pentecostes”, o que leva à recepção como um processo imprevisível e não programável.

Num segundo momento, o papa afirma que a expressão aggiornamento, assim como João XXIII a entendeu, “foi e permanece exata”, ou seja, “o Cristianismo não dever ser considerado como algo do passado, nem deve ser vivido com o olhar permanentemente voltado para trás, porque Jesus Cristo é ontem, hoje e para a eternidade”. E completa: “o Cristianismo é uma árvore que está, por assim dizer, em aurora perene, sempre jovem. E esta atualidade, este aggiornamento, não significa ruptura com a tradição, mas exprime – isso sim – a sua contínua vitalidade (...) Não significa reduzir a fé, confinando-a à moda dos tempos, à medida daquilo que mais apetece, daquilo de que a opinião pública mais gosta. Pelo contrário: exatamente como fizeram os Padres conciliares, há que elevar o hoje que vivemos à dimensão do acontecimento cristão, levar o hoje do nosso tempo ao hoje de Deus”.

Outro ponto crucial para se compreender a hermenêutica conciliar de Bento XVI, pelo menos de forma preliminar, aparece na homilia na missa de abertura do Ano da Fé, em 11 de outubro. Ao tratar do tema da nova evangelização, o papa afirma que "para que este impulso interior à nova evangelização não seja só um ideal e não peque de confusão, é necessário que ele se apoie sobre uma base de concreta e precisa, e esta base são os documentos do Concílio Vaticano II, nos quais este impulso encontrou a sua expressão. É por isso que repetidamente tenho insistido na necessidade de retornar, por assim dizer, à ‘letra’ do Concílio - ou seja, aos seus textos - para também encontrar o seu verdadeiro espírito; e tenho repetido que neles se encontra a verdadeira herança do Concílio Vaticano II. A referência aos documentos protege dos extremos tanto de nostalgias anacrônicas como de avanços excessivos, permitindo captar a novidade na continuidade.”

Nota-se aqui que a hermenêutica de Ratzinger dá importância preponderante à letra do concílio, ou seja, aos textos resultantes da assembléia conciliar. De fato, esta perspectiva já aparecia, de certa forma, no Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985 – que traz cinco regras de interpretação do concílio, por sinal influenciadas sobremaneira por Walter Kasper, em que uma delas afirmava que a “letra” anda junto ao “espírito” – e que pode ser considerado hipoteticamente, como diz Gilles Routhier, como o início de um processo que desqualifica gradualmente certos intérpretes do concílio, e que reduziria, por fim, as interpretações possíveis de seus documentos.

Pergunto-me, todavia, a título de reflexão, como fazer o caminho do espírito à letra e vice-versa, já que, como é fato notório, os documentos conciliares foram proclamados, em sua maioria, sob o manto daquilo que Max Seckler chama de compromisso de pluralismo contraditório, isto é, textos que trazem em si mesmos, em vários trechos, significados e compreensões diversas, inclusive contraditórias. Interessante lembrar que Marcel Lefebvre disse numa de suas entrevistas no pós-concílio que era fácil observar os textos que traziam frases que o Coetus Intenationalis Patrum – grupo minoritário do concílio que lutava contra os “ventos” de distensão entre Igreja e modernidade – tinham conseguido inserir nos textos, com o claro intuito de mitigar algumas afirmações mais liberalizantes que estavam ali pela ação da maioria concilair. Lembro-me também da tese de Acerbi, quando afirma que seja possível “ler”, por exemplo, na Lumen Gentium, duas eclesiologias.

Certamente, o Sínodo Ordinário que inaugura o Ano da Fé nos oferece vários elementos para aprofundarmos a reflexão sobre a difícil temática da hermenêutica do concílio. Para a história, o legado do Vaticano II continua incerto. O que parece claro é que a questão da interpretação do concílio é um tema central do pontificado de Bento XVI e os desafios delineados estão em responder como a Igreja será capaz de recepcionar o concílio valendo-se dos seus textos, do espírito que os perpassa, tendo em vista a milenar tradição do cristianismo.

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