Edição 404 | 05 Outubro 2012

Possibilidades do diálogo entre teologia e ciência

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Márcia Junges e Luis Carlos Dalla Rosa

A teologia deve traduzir com rigor metodológico “a fé de modo a ajudar os seus portadores a poderem conviver com as outras formas de pensar”, pontua Érico Hammes. O fundamentalismo religioso é fruto de uma “teologia narcisista”, fechada sobre si mesma

“A teologia, ao aprofundar a fé, enquanto atitude e conteúdo, tem o desafio de sustentar a possibilidade e o significado da fé ante as conquistas das ciências”, assinala o teólogo Érico Hammes na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Em sua opinião, outro desafio da teologia é “garantir o espaço de liberdade das ciências no âmbito da fé”. E completa: “Argumenta-se contra a qualidade científica da teologia acusando-a de ser subjetiva em suas conclusões e não ser possível uma universalização. Ora, essa mesma afirmação poderia aplicar-se ao direito, à filosofia, à política, à economia, às ciências sociais, à psicologia, à psicanálise e tantos outros campos, cuja cientificidade, em geral, não é posta em questão de forma tão aguda”.

Erico Hammes é mestre e doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, com a tese Filii in Filio: A divindade de Jesus como evangelho da filiação no seguimento. Um estudo em Jon Sobrino (Porto Alegre: Edipucrs, 1995). Padre católico, é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição e em Teologia pela PUCRS. Na tarde de 04-10-2012 irá conduzir o minicurso O Mistério da Igreja, hoje. Desafios e possibilidades do diálogo entre teologia e ciência, parte integrante das atividades do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. Confira a programação completa em http://bit.ly/rx2xsL.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os desafios e possibilidades que surgem a partir do diálogo entre teologia e ciência, tendo em conta a expressão do Mistério da Igreja?

Érico Hammes – Sabe-se da história da relação entre Igreja e ciências que houve alguns conflitos trágicos entre ambas. Por um lado, as ciências podem ter entendido suas conclusões como sendo diferentes das eclesiais, ao ler a tradição ou sua formulação sem contexto histórico. De outro lado, a Igreja mesma, em suas instâncias interpretativas e magisteriais, entendeu alguns resultados das ciências como conflitantes com sua fé. São clássicos os casos de Giordano Bruno e Galileu Galilei , embora não possam ser igualados.

Tendo em conta a expressão do Mistério da Igreja, enquanto é realidade simbólica, sacramental, da realidade maior, o Mistério Divino, a teologia se encontra ante o desafio de articular o encontro entre as duas formas de manifestação da mesma realidade última: a pesquisa do universo finito e o dom da fé. É, com efeito, convicção do crer que o Mistério Divino é a origem última do próprio crer, enquanto ato de adesão à autocomunicação da Transcendência. A ciência quer compreender a realidade e circunstancialmente oferecer a possibilidade para uma utilização melhor dos recursos disponibilizados. Como a fé diz respeito a toda realidade, também inclui o objeto das ciências. 

Entendo que tudo quanto existe e tudo quanto é estudado pelas ciências pode ser sinal da presença divina. Seu estudo científico e sua pesquisa podem ser um caminho de conhecimento melhor da origem última, o Mistério Divino. A teologia, ao aprofundar a fé, enquanto atitude e conteúdo, tem o desafio de sustentar a possibilidade e o significado da fé ante as conquistas das ciências. Cabe-lhe reforçar, num primeiro momento, o sentido de admiração e humildade que acompanha o conhecimento científico autêntico. Uma outra função consiste na ubiquação da teologia, não como uma senhora arbitrária dos demais campos do saber, e sim como parceira de aprendizagem e compreensão. Um terceiro desafio consiste em garantir o espaço de liberdade das ciências no âmbito da fé.

IHU On-Line – Pode-se reconhecer na teologia uma ciência? Em que medida a teologia pode assumir a condição científica?

Érico Hammes – O reconhecimento da teologia como ciência depende, em primeiro lugar, do conceito de ciência. Já Tomás de Aquino, no início da Suma Teológica põe a questão da cientificidade da teologia, que ele chamava de Sacra Doctrina. Se pensamos que ele compõe esse texto em torno dos anos 1265 a 1270, não pode causar estranheza que o advento das ciências modernas tenha colocado em questão o caráter científico da teologia. É claro que o Iluminismo acentua essa pergunta e nos dias atuais é quase um chavão em muitos ambientes.

Sem entrar em grandes questões relativas à Filosofia da Ciência, é fácil perceber que há muitos tipos diferentes de ciência ou do que geralmente é admitido como tal. A matemática só pode ser considerada como ciência diante da química admitindo um caráter distinto para o conceito. Poderia dizer-se, de um modo geral, que a tendência é qualificar de científico aquilo que pode ser verificado empiricamente, ou então, apelar ao famoso princípio de falseabilidade (Weissmann e Popper ). Como a teologia teria como sujeito realidades de ordem pessoal ou princípios e “objeto” não verificáveis, não poderia ser ciência. Contudo, as próprias ciências positivas frequentemente operam com conceitos-limite que ultrapassam o verificável. É o caso, por exemplo, das grandes teorias cosmológicas sobre a origem, composição e futuro do universo. 

Argumenta-se contra a qualidade científica da teologia acusando-a de ser subjetiva em suas conclusões e não ser possível uma universalização. Ora, essa mesma afirmação poderia aplicar-se ao direito, à filosofia, à política, à economia, às ciências sociais, à psicologia, à psicanálise e tantos outros campos, cuja cientificidade, em geral não é posta em questão de forma tão aguda.

Realidades de fé

Pode propor-se, então, que a teologia caberia num conceito aberto de ciência em que se tomasse como critério geral a atividade reflexiva para explicar determinadas realidades e expor seus conhecimentos de forma a serem acessíveis a outras pessoas em condições semelhantes. Por atividade reflexiva entende-se a aplicação da inteligência racional, com todos os recursos de observação e de questionamento para entender um determinado fenômeno ou realidade em suas causas e efeitos. É claro que a teologia entraria em dificuldade se tomasse como seu objeto direto a explicação de um deus, acessível apenas pela fé. No entanto, o que a teologia faz, essencialmente, não é abordar a Deus, e sim as fórmulas, a fé, nas quais é apresentado. E essas podem ser tomadas objetivamente, na medida em que estão expressas e são tocáveis.

E aqui entra uma outra categoria essencial para entender a teologia como ciência. A teologia lê, isto é, interpreta as realidades de fé. É um processo de relacionamento e interlocução com o contexto no qual vivem as fórmulas. Desse modo, faz parte das ciências hermenêuticas, assim como o são as ciências jurídicas. A sua característica é a de fazer dialogar a realidade com as fórmulas e asserções de fé para que esta produza efeitos de pensamento conceitual e princípios de ação transformadora. Por realidade entendem-se tanto ideias como padrões culturais, filosofias e ideologias, situações sociais como econômicas e políticas, o mundo das ciências como das tecnologias. No entanto, como existem muitas possibilidades de leitura, seja da realidade como da fé, as opções razoáveis de compreensão também serão muitas.

Seria, então, a teologia uma atividade arbitrária e subjetiva, portanto não científica? Talvez se devesse contemplar a teologia, ao lado de outras ciências parecidas, como uma forma de correspondência com a pluralidade e a irredutibilidade da realidade. A objetividade da teologia e seu rigor consistem na capacidade para sustentar argumentos de pensamento, de lógica, de enfoque considerando o ser humano, seu mundo, suas concepções, sua fé, seu agir, bem como a repercussão do que é faz. É claro que para preencher as condições de cientificidade a teologia precisa atender aos requisitos de comunicabilidade, isto é, deve ser compreensível, acessível e fazer sentido a quem tenha informação correspondente. Ao contrário do que às vezes se quer fazer crer, a complexidade e a pluralidade de perspectivas podem ser mais “objetivas” do que a correspondência rigorosa entre padrões fixos e o mundo a ser pesquisado.

IHU On-Line – Qual é a relação entre teologia e ciências humanas?

Érico Hammes – A teologia é uma ciência humana e surgiu no contexto das ciências humanas, de maneira a poder dizer-se que sua forma lhe advém dessas mesmas ciências, enquanto se distingue por seu objeto próprio, a fé. De fato, a teologia nasceu e nasce do encontro primeiro entre o crer numa determinada comunidade de fé e a justificação desse crer diante de outras formas de pensar, em especial da Filosofia. Nesse encontro, a fé se eleva a conceito teológico e se faz compreensível e criticável por quem lhe é estranho, na medida em que se serve de conceitos e, eventualmente, os transforma. Na América Latina, a Teologia da Libertação, bem como as demais teologias contextuais, aprendeu a receber conceitos e a interagir com as ciências sociais. A psicologia e a psicanálise, embora não tenham produzido muitas obras, mostraram que são capazes de colaborar significativamente com a reconstrução da teologia. A história e a arqueologia, na área bíblica, se mostraram grandes colaboradoras nas condições de compreensão dos textos.

IHU On-Line – Qual a responsabilidade da teologia como ciência?

Érico Hammes – A teologia como ciência participa da responsabilidade de todas as atividades humanas, de modo especial, por ser um ato de responsabilidade, na medida em que a fé é pensada e dita de forma razoável e racional, atendendo, assim, às características do ser humano como ser dotado de razão. Em particular, a teologia deve buscar o encontro com a sociedade e seus movimentos em vista de uma convivência construtiva, justa e pacífica. Cabe-lhe traduzir, com rigor metodológico, a fé de modo a ajudar os seus portadores a poderem conviver com as outras formas de pensar, explicitando as próprias razões, traduzindo, em seguida, os seus imperativos de modo a iluminar a vida pessoal e a vida das outras pessoas e do seu mundo. A título de exemplo, pode-se acenar para toda a participação na ecologia e nas questões sociais e econômicas mundiais.

IHU On-Line – Como a teologia pode contribuir ou ser parceira com as demais áreas do conhecimento?

Érico Hammes – Na medida em as ciências sempre são obra de sujeitos humanos, a teologia pode contribuir com as questões dos sujeitos como tais: suas perguntas existenciais, suas questões de sentido, seus questionamentos éticos, dentre outros. Em segundo lugar, como as ciências, em geral, dizem respeito ao ser humano e ao seu mundo, a teologia pode contribuir com uma perspectiva ética e transcendente. Além disso, a teologia pode ser parceira colocando-se ao lado das demais ciências na busca de soluções e respostas que envolvam a totalidade do ser humano e do seu mundo. Especialmente, no âmbito das cosmovisões implicadas nas diferentes culturas e civilizações, a teologia pode ser mediadora do diálogo e da convivência. Destacadamente esse papel se faz notar quando pensamos que a teologia, em princípio, se faz em cada religião. Assim, uma contribuição de uma determinada teologia em particular, por exemplo, a cristã, pode ajudar as ciências quando se tratar de uma teologia muçulmana.

IHU On-Line – Tendo em conta o Concílio Vaticano II, quais os principais avanços da Igreja nessa relação entre teologia e ciência? E em quais aspectos ainda permanecem como desafios?

Érico Hammes – O Concílio Vaticano II conseguiu receber várias formas de conhecimento e pensamento da modernidade. Um primeiro destaque deve ser dado à própria teologia, isto é, à autocompreensão da fé. A Revelação de Deus, por exemplo, foi formulada não mais em termos de conhecimento de conteúdos, e sim de autocomunicação do Mistério Divino em vista da salvação. Desse modo, muitas dificuldades científicas tornaram-se irrelevantes, pois a Bíblia não podia mais ser considerada uma contradição com as ciências. Outro fator decisivo foi a abertura ao estudo das ciências positivas e aceitação inequívoca dos métodos positivos de investigação da realidade. Um caso bem ilustrativo foi a posição frente à teoria da evolução. Se até bem próximo ao Concílio, Teilhard de Chardin ainda era proibido, no seu decorrer foi sendo aceito. O progresso das ciências, assim como várias das conquistas do espírito humano, encontrou valorização positiva. Hoje, a teoria da evolução praticamente não encontra objeção princípio no catolicismo oficial.

Certamente o principal desafio consiste na mudança de atitude da própria teologia em relação a si mesma e frente às ciências. A teologia precisa ainda, ou de novo, aprender a maioridade de pensamento frente às suas fontes. Por um lado, ainda tem dificuldade frente às concepções religiosas não refletidas, mais precisamente sua linguagem, das quais faz parte a maneira de pensar da comunidade e das suas instituições (Magistério). Por outro, existe, ainda, muita resistência para relacionar-se de forma igual com as ciências. Desse modo, sempre de novo constatam-se anacronismos de linguagem e de pensamento entre as partes. O estudo permanente e oportunidades de informação recíproca poderiam facilitar o encontro entre os dois campos de saber.

Um segundo desafio bastante geral é o do método de conhecimento. A teologia trabalha principalmente com o método dedutivo, o que não seria problemático se fossem observadas as premissas corretas. A dificuldade aparece, contudo, quando não se buscam a informação e o conhecimento adequados para estabelecer as premissas, e se toma como ponto de partida o que, na verdade, está em discussão. É o caso de algumas formulações morais que se querem como leis, baseadas na natureza, sem que se pergunte às ciências naturais o que é essa natureza. Nem mesmo o conceito de natureza, rigorosamente falando, em contraposição ao artificial ou não natural, pode ser considerado indiscutível, uma vez que sempre quando o ser humano entra em relação com o mundo exterior ou consigo mesmo existe alguma forma de mudança.

IHU On-Line – Como percebe o embate entre os fundamentalismos religiosos e o fundamentalismo ateu, também chamado de neoateísmo?

Érico Hammes – O fundamentalismo religioso é consequência de uma teologia narcisista, incapaz de compreender a relatividade e contextualidade cultural das tradições religiosas. Por essa razão, fecha-se sobre si mesma e nega as formas de pensar e os conhecimentos de outras áreas da existência humana. 

O chamado neoateísmo sofre da mesma falta de sentido crítico em relação a si mesmo e frente às concepções religiosas. É claro que, diante do fundamentalismo e na ausência de uma relação com o pensamento religioso refletido e dialogal, a ciência só pode ser ateia. Do ponto de vista metodológico, não poderia ser religiosa (teísta), nem agnóstica e tampouco ateia, pois seu objeto próprio são as realidades empíricas, potencialmente mensuráveis e controláveis, o que a realidade transcendente não é.

Falar de embate entre os fundamentalismos religioso e ateu, obviamente, faz sentido apenas na medida em que se trata sempre de atitudes e posições de sujeitos do conhecimento. Sua superação, por conseguinte, dar-se-ia se houvesse a capacidade para dialogar a partir da fé ou de sua negação com as concepções de mundo diferentes. Para o caso do fundamentalismo religioso requerer-se-ia a contextualização da fé no mundo das ciências ou do pensamento atual, de modo a compreender o verdadeiro alcance da fé para ser significativa num mundo transformado. Para o fundamentalismo ateu, a possibilidade de uma mudança estaria no reconhecimento de que uma fé pode ser vivida de tal modo que não esteja em contradição com os resultados da pesquisa científica e, inclusive, incorporá-los sem prejuízo para ambas as partes. Um cientista religioso não perde nada de sua qualidade científica pelo fato de ser religioso se o seu ser religioso estiver à altura dos tempos em que vive. E se não tiver receio de cumprir fielmente as exigências do seu método científico, por definição, também, marcado pala responsabilidade e rigor.

Leia mais...

>> Erico Hammes já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line.

* Comblin e a reinvenção da igreja. Edição 356 da revista IHU On-Line, de 04-04-2011, disponível em http://bit.ly/gycf0U 

* Fórum Mundial de Teologia e Libertação, uma conquista a ser potencializada. Edição 357 da revista IHU On-Line, 11-04-2011, disponível em http://bit.ly/e4m7cB 

* A ‘‘reforma da Reforma’’ litúrgica: ‘‘Onde ficam os outros 1.500 anos de cristianismos?’’. Edição 363 da revista IHU On-Line, de 30-05-2011, disponível em http://bit.ly/mdJlHD 

* Conceito e missão da teologia em Karl Rahner. Edição 5 dos Cadernos Teologia Pública, de 01-05-2004, disponível em http://bit.ly/kr2DPz 

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