Edição 404 | 05 Outubro 2012

Espiritualidade – uma atitude perante a vida e seus desafios

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | Tradução de Anete Amorim Pezzini

Marilú Rojas explica que a espiritualidade não é para ser entendida como atos isolados da vida ou simplesmente para ser reduzida a celebrações cultuais na presença de Deus. “Não se pode esquecer da realidade que nos exige uma resposta”, enfatiza

Responsável por debater o tema “Teologia e Espiritualidade Libertadora”, nos dias 8, 9 e 10-10-2012, no Congresso Continental de Teologia (saiba mais em http://bit.ly/q7kwpT), a teóloga Marilú Rojas concedeu a entrevista a seguir, por e-mail, para a IHU On-Line, onde afirma que “a espiritualidade que vive o povo latino-americano caracterizou-se pela práxis e pelo compromisso profético na vida cotidiana, ou seja, o povo não faz uma separação entre ‘vida espiritual’ e vida cotidiana ou entre sagrado e profano. Os sofrimentos, as lutas, as alegrias e as esperanças são vividos a partir de uma perspectiva da fé e da confiança em Deus por parte desse povo que, agora, encontra-se ainda mais ferido e empobrecido”. Ela explica que a espiritualidade é transreligiosa, intercultural e ecumênica e que, a partir dessa lógica, tem como desafio dar respostas às realidades do mundo pós-moderno. “Não se trata de fechar os olhos, mas de abri-los à realidade que hoje se impõe: pobreza, miséria, exclusão, corrupção, morte, violência, violações aos direitos humanos, migração, destruição ecológica, para citar algumas realidades. A partir dessa perspectiva é que a espiritualidade é libertadora, pois pretende criar uma consciência crítica sobre esses eventos, e criar o compromisso de transformar a sociedade”. E dispara: “é importante evitar cair no erro de pensar que as mulheres são as responsáveis pela espiritualidade, e os homens, pela reflexão teológica e pela liderança nas igrejas. Essa dissociação contribuiu equivocadamente para manter as mulheres excluídas das lideranças e do pensamento teológico. Cair em uma separação de papéis assim é cair em uma atitude patriarcal machista que atribui papéis de acordo com os interesses e o exercício do poder dos homens”.

Marilú Rojas é doutora em Teologia Sistemática pela Universidade Católica de Lovaina, professora de Teologia na Universidade Ibero-Americana, em Puebla, México e integra a Associação de Teólogas Itinerantes. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a senhora contextualiza o Concílio Vaticano II como momento de inspiração e potencialização de uma espiritualidade libertadora, em particular, levando em conta a realidade do continente americano? Quais perspectivas se abriram a partir do Concílio?

Marilú Rojas – A princípio, o Concílio Vaticano II foi um kairós (momento de graça) por parte do Espírito que inspirou a renovação de uma Igreja envelhecida e estagnada. A partir do anúncio do Concílio por João XXIII e sua célebre frase: “abram as janelas da Igreja” para que ela veja lá fora, e deixe entrar novos ares, reconhecia-se a necessidade urgente de mudar. Em princípio, deve-se esclarecer o que se entende por espiritualidade, e aqui é importante mencionar que a espiritualidade não pode limitar-se a uma série de práticas de piedade ou de celebrações cultuais, embora isso não signifique que as exclua. A espiritualidade deve ser entendida como a força vital que nos permite harmonizar com Deus, com os seres humanos e com toda a criação. A espiritualidade que vive o povo latino-americano caracterizou-se pela práxis e pelo compromisso profético na vida cotidiana, ou seja, o povo não faz uma separação entre “vida espiritual” e vida cotidiana ou entre sagrado e profano. Os sofrimentos, as lutas, as alegrias e as esperanças (aos quais o Concílio faz referência) são vividos a partir de uma perspectiva da fé e da confiança em Deus por parte desse povo que, agora, encontra-se ainda mais ferido e empobrecido. Uma das principais perspectivas que emergiu a partir do Concílio foi a elaboração de uma teologia contextual da América Latina com caráter profético-libertador e de uma clara e definida opção pelos pobres. Essa teologia tem sido apoiada por uma espiritualidade de compromisso libertador inspirada nos textos bíblicos do êxodo. Outra das perspectivas foi uma espiritualidade a partir da realidade dos pobres de Javé (Anawin), e, por conseguinte, uma espiritualidade profética capaz de unir a mística à práxis. Uma espiritualidade profética capaz de denunciar as injustiças e as violações aos direitos mais elementares do ser humano. Nesse sentido, pode falar-se de uma espiritualidade da dignificação do ser humano.

IHU On-Line – O que significa hoje em dia assumir essa perspectiva da espiritualidade libertadora? Como continuar mantendo vivo o espírito do Concílio?

Marilú Rojas – A espiritualidade não é para ser entendida como atos isolados da vida ou simplesmente para ser reduzida a celebrações cultuais na presença de Deus, e esquecer-se da realidade que nos exige uma resposta. O caráter libertador também não pode ser entendido como uma simples emancipação revanchista de tudo o que se pretende impor. Entendemos que a espiritualidade é uma atitude perante a vida e seus desafios, ou seja, enfrentar a realidade, e que ela não é exclusividade de um determinado grupo religioso ou de uma igreja. A espiritualidade é transreligiosa, intercultural e ecumênica e, a partir dessa lógica, tem como desafio dar respostas às realidades do mundo pós-moderno. Não se trata de fechar os olhos, mas de abri-los à realidade que hoje se impõe: pobreza, miséria, exclusão, corrupção, morte, violência, violações aos direitos humanos, migração, destruição ecológica, para citar algumas realidades. A partir dessa perspectiva é que a espiritualidade é libertadora, pois pretende criar uma consciência crítica sobre esses eventos, e criar o compromisso de transformar a sociedade. E quanto a manter o espírito do Concílio, acho que dois seriam os princípios orientadores: em primeiro lugar, deixar-nos interpelar constantemente pelos sinais dos tempos (realidade), nota-chave no discurso e na doutrina do Vaticano II. Essa interpelação evita que a espiritualidade torne-se um espiritualismo entorpecedor de consciências ou simples alienação das realidades, pois é urgente uma espiritualidade de olhos abertos, que dê rosto e resposta ao mundo de hoje. Uma espiritualidade libertadora necessita superar o espiritualismo de corte apocalíptico pessimista, de destruição e desesperança. Isso se pode alcançar a partir da interpelação dos sinais dos tempos e a partir de nosso compromisso com a justiça. Em segundo lugar, o espírito do Concílio era o de implantar a criatividade, e impulsionar outra forma de ser igreja, uma igreja participativa, igreja povo de Deus, igreja profética e sinal de transformação das realidades sociais. No entanto, hoje, constatamos que o impulso e a força do espírito profético-libertador na igreja estão se perdendo, ficamos com medo, e há uma tendência de involução, um retrocesso da instituição igreja para sua própria segurança. A única maneira de superar esse retrocesso e sermos fiéis ao espírito do Concílio é não se esquecer de nosso compromisso profético e a radicalidade do evangelho que nos exige ser valentes, e não nos acovardarmos nem pactuarmos com as forças que oprimem e violam os seres humanos hoje.

IHU On-Line – Para a senhora, quais são os principais desafios ou dificuldades da sociedade atual, especialmente em nosso continente? Nesse sentido, como a espiritualidade libertadora pode ser um sinal de esperança e transformação perante as realidades de exclusão, violência, falta de respeito pela vida como um todo?

Marilú Rojas – O maior desafio é a pobreza e a miséria em que vivem milhões de latino-americanos. Esse processo de empobrecimento é causado pela injustiça estrutural em todos os níveis: econômico, social, cultural, político e religioso. Outro grande desafio é a corrupção que se instalou como uma forma “normal” de vida em nível individual e nas instituições e estruturas em todos os níveis. A violência levada aos piores níveis de desumanidade e selvageria é o resultado da injustiça, da pobreza e do desemprego que possibilitam às gerações jovens buscarem as piores saídas. A cultura da morte violenta instala-se no imaginário e na realidade social de uma forma impressionante. A falta de acesso à educação e à formação acadêmica de qualidade assim como de oportunidades de emprego são outros dos fatores-chave que exigem uma resposta urgente. O fenômeno migratório é um exemplo claro da necessidade de buscar uma maneira melhor de viver em outro espaço geográfico. A espiritualidade libertadora, a partir da visão dos povos indígenas e afro-ameríndios, propõe a lógica do direito “ao bem viver” ou “viver bem” como um direito de todos os seres humanos, o que implica a harmonia e o equilíbrio com o cosmo, com a ecologia e com toda a criação. É uma lógica relacional em igualdade e inclusão contrária à lógica da exclusão que mantém muitos dos projetos neoliberais e pós-modernos. O desafio para a espiritualidade libertadora é superar uma espiritualidade fundada no antropocentrismo, e dar lugar a uma visão em que se seja capaz de descobrir a divindade em tudo o que nos rodeia. O antropocentrismo arrogante declinou em uma lógica do domínio mundi e no dualismo do espiritual vs. material. Essa foi a causa pela qual a espiritualidade foi considerada como alheia às realidades históricas. Hoje, a espiritualidade deve ter uma incidência política, ou seja, a busca do direito ao bem viver, ao viver bem ou ao bem comum de todos os seres que compartilham a Terra, o espaço e o cosmo. Trata-se do direito que todos os seres humanos temos a uma vida com dignidade e com paz, entendendo-se paz como consequência lógica da justiça.

IHU On-Line – Como a senhora relaciona a espiritualidade libertadora com a questão da ecologia?

Marilú Rojas – A partir da perspectiva dos povos mesoamericanos, a espiritualidade é a busca da justiça e da equidade, as quais nos conduzem a harmonizar com o cosmo, com a terra, com os bens produzidos por ela, com os seres humanos e com tudo o que nos rodeia. Dessa forma, supera-se a lógica do domínio e mantém-se o equilíbrio fluido (a paz). A espiritualidade libertadora, em seu caráter profético, tem relação com a questão ecológica, porque denuncia que mulheres, crianças, indígenas, povoações afro-ameríndias foram as principais vítimas da lógica do domínio patriarcal, do capitalismo e da pós-modernidade por uma questão de desenvolvimento mal compreendido, ou seja, é contrário à exposição dos povos indígenas ao “direito ao bem viver” em que todos temos ou deveríamos ter participação. O novo holocausto que hoje vivemos é o ecológico, e nele estamos todos morrendo. Uma espiritualidade libertadora deve advertir-nos do pecado da acumulação de recursos e do desenvolvimento para uns poucos, e às custas da morte de muitos. É inconcebível que o continente mais rico, ecologicamente falando, seja um dos mais empobrecidos por causa da lógica de dominação e exploração, assim como da negligência óbvia dos governos de nossos países. Nesse sentido, a espiritualidade não é uma prática religiosa romântica, é bem mais profético-política.

IHU On-Line – Como a senhora entende a participação das mulheres no caminhar de uma espiritualidade libertadora? Quais são os desafios? 

Marilú Rojas – Permito-me começar pelos desafios:

Não posso deixar de mencionar o fenômeno da “feminização da pobreza” que aponta suas principais vítimas entre as mulheres anciãs e jovens, conduzindo-as a situações degradantes e que atentam contra sua dignidade de seres humanos. Essa “feminização da pobreza” é um elemento que mostra o rosto da injustiça, a exclusão e a marginalização das mulheres latino-americanas que sofrem tripla exclusão: por serem mulheres, por serem pobres e por serem indígenas. 

Tristemente constatamos que, na América-Latina, a realidade que mais castiga as mulheres depois da pobreza é o patriarcado machista imperante na sociedade. O patriarcado machista é intercultural, interepistêmico e inter-religioso, ou seja, permeia todas as instituições da sociedade latino-americana, incluindo as igrejas e seus dirigentes. No entanto, constatamos que isso se dá a partir do próprio consentimento das mulheres. A espiritualidade libertadora tem o grande desafio de superar a exclusão e a violência contra as mulheres dentro e fora das igrejas, se verdadeiramente quiser ser coerente e profética perante a sociedade.

As mulheres, na América Latina, além de terem de superar o patriarcalismo e o machismo imperantes na sociedade em geral, devem enfrentar constantemente o clericalismo patriarcal dominante da Igreja e o controle do pensamento teológico nas mãos dos homens; por isso, a crítica que nós, mulheres, fazemos à teologia latino-americana é apenas que não mudaram as estruturas e os moldes androcêntricos em que se sustentou e o tema da mulher foi esquecido no período pós-conciliar.

É importante evitar cair no erro de pensar que as mulheres são as responsáveis pela espiritualidade e os homens pela reflexão teológica e pela liderança nas igrejas. Essa dissociação contribuiu equivocadamente para manter as mulheres excluídas das lideranças e do pensamento teológico. Cair em uma separação de papéis assim é cair em uma atitude patriarcal machista que atribui papéis de acordo com os interesses e o exercício do poder dos homens. Isso não é o que se pretende dizer aqui.

As religiões e as igrejas necessitam reconhecer humildemente que a lógica da dominação patriarcal prejudicou terrivelmente as mulheres, e serviu como instrumento de dominação e exclusão das mulheres, além de contribuir para o abuso e para a improbidade à dignidade humana delas.

Não podemos falar de uma espiritualidade e uma teologia libertadora, se as mulheres continuam a ser oprimidas, exploradas e abusadas dentro das igrejas ou se a religião tem servido como instrumento de dominação delas. Tal é o caso do não reconhecimento de suas lideranças e a manutenção de uma relação hierárquico-patriarcal dominante, e não uma relação de equidade, inclusão, reconhecimento e respeito.

Finalmente, gostaria de comentar que é necessária e urgente uma espiritualidade a partir de uma perspectiva ecofeminista libertadora capaz de criar nas mulheres e nos homens uma consciência crítica sobre a libertação necessária do patriarcalismo-machismo latente nas religiões, nas culturas, nas igrejas e na sociedade, se é que realmente queremos e esperamos construir juntos outro mundo possível. 

Leia mais...

>> Confira o artigo “Espiritualidade libertadora”, de autoria de Marilú Rojas, publicado nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 28-08-2012, disponível em http://bit.ly/NTIJ8G

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