Edição 404 | 05 Outubro 2012

O crescimento de correntes teológicas e eclesiológicas

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Graziela Wolfart, Luis Carlos Dalla Rosa e Márcia Junges

A atualidade da Teologia da Libertação está na “presença contínua de uma sociedade e de um sistema que fomentam injustiça, dominação e exploração”, observa Sérgio Coutinho

Apesar de ser a religião majoritária no continente, ao menos em termos numéricos, o catolicismo segue perdendo sua hegemonia política e credibilidade moral. A análise é do historiador Sérgio Coutinho, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Já não somos mais um continente católico e a tendência é de contínua queda”, acrescenta. Ele aponta, ainda, “a crescente diversidade de correntes teológicas, especialmente eclesiológicas, no interior da Igreja, e que nem sempre contribuem para sua unidade”. Em sua opinião existe “um perigo crescente de cisma na Igreja, com grupos e correntes antagônicas entre si com predominância para o ‘fundamentalismo’”. Essa realidade pode ser percebida “entre o episcopado e clero, sem contar os leigos”. 

Mestre em História Social pela Universidade de Brasília – UnB e doutorando na mesma área pela Universidade Federal de Goiás – UFG, Sérgio Coutinho é professor na UnB e no Instituto São Boaventura, de Brasília e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina (Cehila-Brasil). 

Em 08-10-2012 estará na Unisinos, ministrando a oficina intitulada Painel de Cehila – Metodologia na elaboração da História da Igreja na América Latina, às 14h30min, dentro da programação do Congresso Continental de Teologia. Acesse a programação completa em http://bit.ly/NMoI2N.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De modo geral, qual a sua leitura da realidade da Igreja latino-americana, hoje?

Sérgio Coutinho – Os participantes do IX Encontro Latino-Americano e Caribenho de CEBs, ocorrido em São Pedro Sula, Honduras, em junho deste ano, fizeram uma boa análise de conjuntura eclesial de nosso continente e que coincide com minha leitura. Há uma crescente diversidade de correntes teológicas, especialmente eclesiológicas, no interior da Igreja e que nem sempre contribuem para sua unidade. Há, de fato, um perigo crescente de cisma na Igreja, com grupos e correntes antagônicas entre si com predominância para o “fundamentalismo”; e isso é percebido entre o episcopado e clero, sem contar os leigos. 

Esta tendência fica muito clara na formação do jovem clero latino-americano. Uma formação mais voltada para o estético do que para o ético; para o burocrático do que para o pastoral; para a centralidade da matriz-paroquial do que para a rede de comunidades; para o poder centralizado do sacerdote do que para o “sacerdócio comum dos fiéis”.

O catolicismo segue sendo a religião majoritária no continente, pelo menos numericamente, mas vai perdendo cada vez mais sua hegemonia política e também sua credibilidade moral. Já não somos mais um continente católico e a tendência é de contínua queda. Esse fato abre um campo fértil para o trabalho missionário conforme o proposto pela Conferência de Aparecida.

IHU On-Line – E em relação à Teologia da Libertação, como o senhor analisa a atualidade dessa perspectiva teológica, tendo em conta a realidade social vigente? Ela precisa de uma renovação? Que perspectivas se abrem?

Sérgio Coutinho – O IHU publicou recentemente um artigo do atual prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Dom Gehard Müller , e que de certa forma traduz bem a permanente atualidade da Teologia da Libertação (ou TdL). Diz ele que a TdL “trata-se de um programa prático e teórico que pretende compreender o mundo, a história e a sociedade e transformá-los à luz da própria revelação sobrenatural de Deus como salvador e libertador do homem. Como se pode falar de Deus diante do sofrimento humano, dos pobres que não têm sustento para seus filhos, nem direito à assistência médica, nem acesso à educação, excluídos da vida social e cultural, marginalizados e considerados uma carga e uma ameaça para o estilo de vida de uns poucos ricos?”

De fato, e paradoxalmente, a atualidade da Teologia da Libertação está justamente na presença contínua de uma sociedade e de um sistema que fomentam injustiça, dominação, exploração, ou seja, os sinais do anti-Reino continuam firmemente presentes e, de modo especialíssimo, em nosso continente. O que no passado se concentrava numa noção de “pobre” em um nível mais econômico (os trabalhadores do campo e da cidade), no atual contexto houve uma ampliação dos “excluídos da vida social e cultural”: as mulheres, os indígenas, os afrodescendentes, as crianças e jovens, os migrantes, os homossexuais, os idosos... e até mesmo o meio ambiente. 

Muito se escreveu e muito se teorizou sobre a Teologia da Libertação, mas não se pode esquecer que ela é, antes de tudo, uma teologia da práxis, e o seu ponto de partida, e que me parece ainda escapar de muitos de nós que se dizem adeptos da Teologia da Libertação e que usamos o “anel de tucum” no dedo, é aquela opção fundamental: a opção política, ética e evangélica pelos pobres. Se não conseguimos ver neles o rosto de Jesus, o locus onde Deus se revela para nós hoje, nos convocando para o trabalho da construção do Reino, perde-se totalmente o sentido, não só da Teologia da Libertação, mas da essência do ser discípulo de Jesus de Nazaré.  

IHU On-Line – Como o senhor analisa o papel e a importância das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs para a caminhada da Igreja, sobretudo pensando a perspectiva da libertação?

Sérgio Coutinho – Apesar da implantação de uma grande estrutura eclesiástica (dioceses, paróquias, ordens religiosas, Inquisição...) em toda América hispânica, após o Concílio de Trento, em 1565 (talvez em menor intensidade na América portuguesa), o que prevaleceu foi, sem dúvida nenhuma, uma intensa prática popular do catolicismo; um catolicismo em que o leigo e a leiga foram sujeitos na organização das “estruturas” necessárias para suas devoções: irmandades, capelas, benzedeiras e benzedeiros, romarias etc. 

Poderíamos dizer que estariam nestas práticas do catolicismo popular as origens remotas das CEBs. Podemos afirmar com toda certeza que, mesmo antes da eclesiologia do Concílio Vaticano II, nosso povo, por meio de suas práticas religiosas, já se sentia membro do Povo de Deus porque ser batizado era a condição mínima necessária para participar da vida da Igreja.

Além desta origem mais remota, as CEBs também são o resultado de outras importantes experiências eclesiais. Não se pode negar todo o trabalho desenvolvido em nosso continente pela Ação Católica Especializada – ACE, de modo especial da Juventude Operária Católica – JOC, da Juventude Universitária Católica – JUC e da Juventude Estudantil Católica – JEC. Com seu método pastoral (ver, julgar e agir) e a forte participação dos jovens leigos, a ACE trouxe os elementos fundamentais para a futura sistematização da Teologia da Libertação (as mediações socioanalítica, hermenêutica e da práxis).

CEBs como síntese

Por outro lado, na tentativa de renovar as paróquias a partir da eclesiologia do Corpo Místico de Cristo (Mystici Corporis de Pio XII), o Movimento por um Mundo Melhor – MMM, em muitas dioceses, favoreceu ao desenvolvimento de um “outro jeito de ser Igreja” do que até então se conhecia e se vivia: um jeito onde os leigos eram sujeitos na vida social, política e eclesial; a grande maioria deles (se não todos) era pobre e vivia nas periferias das grandes cidades e nos povoados rurais mais isolados deste continente; muitos celebravam sua fé segundo suas tradições e culturas e se experimentava concretamente aquilo que era a vivência comum das primeiras comunidades cristãs: a partilha e o acolhimento dos mais pobres. 

Estas são as CEBs! Que com sua vida concreta nos meios dos pobres, anuncia que o Reino de Deus está próximo! Por isso foram (e ainda são) elas as que deram as condições para o desenvolvimento da Teologia da Libertação. Por isso as CEBs são a melhor síntese entre o Vaticano II e a teologia latino-americana da libertação.

IHU On-Line – O senhor concorda que nos últimos anos houve um encolhimento das CEBs? Por quê? Quais as dificuldades?

Sérgio Coutinho – De fato, você tem razão. Mas existem explicações para isso. Uma de ordem mais política e outra de ordem cultural. Do ponto de vista político, justamente em meados dos anos 1980, dois momentos coincidiram e atingiram em cheio a vida das CEBs. De um lado, o Brasil retomou sua caminhada de abertura democrática, de outro, a Igreja, sob João Paulo II, optou pelo caminho de fechamento de “volta à grande disciplina”. 

Em um Brasil democrático, um sem número de organizações da sociedade civil brotou: os sindicatos, os partidos políticos, as associações de moradores, os movimentos sociais, as organizações não governamentais, enfim, outras formas de atuação política e de agremiação que acabaram por tirar um certo “monopólio” que estava com as CEBs. Com isso elas foram perdendo visibilidade e passaram a ser uma dentre as muitas formas de atuação política na sociedade civil.

Paralelamente, os representantes do aparato burocrático central da Igreja (leia-se Cúria Romana) iniciaram um forte processo de contenção da chamada “Igreja popular” no Brasil. O projeto foi a restauração de um episcopado e clero obedientes, movimentos eclesiais e novas formas de vida religiosa com seus carismas controlados e, consequentemente, um laicato e juventude bem comportados e minimamente críticos. Dessa forma, o modelo eclesiológico das CEBs foi esvaziado, ou mesmo abandonado.

Uma jornada que continua

A explicação sociocultural é que o Brasil também vem se transformando e sofrendo os efeitos da modernidade, notadamente a individualização e a globalização, desde os anos de 1990; isso tem impactado diretamente a vida das comunidades. Nos últimos anos este processo se acelerou ainda mais com as políticas de distribuição de renda e de inclusão dos pobres por meio do consumo. Apesar de milhões de brasileiros terem saído da linha de pobreza, esta política tem mudado radicalmente a visão de mundo dos indivíduos, afrouxando muito os laços sociais.

Apesar da pouca visibilidade e das transformações trazidos pelo mercado, as CEBs continuam sua jornada e, como bem disse certa vez Rubem Cesar Fernandes , “quem se dispõe a algum trabalho social nos bairros e vilarejos pobres do continente sabe a diferença que faz encontrar ali uma comunidade eclesial formada no espírito da Teologia da Libertação”. 

IHU On-Line – Olhando para o futuro, quais as alternativas que podem ser vislumbradas para as CEBs, tanto na perspectiva eclesial como social?

Sérgio Coutinho – O renomado filósofo alemão Jürgen Habermas  conseguiu detectar, em suas análises, a patologia do mundo moderno: a colonização do sistema sobre o mundo da vida, ou seja, a imposição da racionalidade instrumental-teleológica presente nas “ações sociais orientadas a fins” dos sistemas de poder e de dinheiro prevalecendo as relações de tipo sujeito/objeto.

Penso que as CEBs, atuando lá no mundo da vida, no mundo das interações interpessoais, entre sujeitos que agem orientados ao entendimento, comunicativamente, debatendo e construindo consensos, são experiências que vão na contramão do sistema e podem ser um “antídoto” para a patologia da modernidade, mesmo sabendo que elas também correm o risco de serem atingidas pela patologia. 

Digo isso também numa a perspectiva eclesial. A racionalidade instrumental-teleológica também está fortemente presente no “sistema eclesiástico” que quer colonizar ao máximo o mundo da vida de nossas comunidades (clericalismos, sacramentalismos, burocracias, catecismos...), e as CEBs continuam sendo um “antídoto” e uma alternativa.

Deste modo, as CEBs são ainda espaço de emancipação e de libertação para o nosso povo simples, de baixa escolaridade, vivendo em condições distantes das políticas públicas. Apesar disso, conseguem construir ambientes de celebração da vida, de discussão e reflexão da Bíblia, de conflitos e de resolução de conflitos, de solidariedade e partilha.

Leia mais... 

Sérgio Coutinho já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* Igreja: de regente a terceiro violino. Entrevista especial com Sérgio Coutinho. Notícias do Dia 21-04-2012, disponível em http://bit.ly/IvAMA4 

* “Para além de ruptura e continuidade. O Concílio Vaticano II e os diferentes projetos Históricos”. Revista IHU On-Line, edição 395, de 04-06-2012, disponível em http://bit.ly/LznBPo 

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