Edição 404 | 05 Outubro 2012

A teologia e uma nova ótica evangélica a partir dos pobres

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | Tradução de Moisés Sbardelotto

Neste momento de uma globalização de corte neoliberal, consideram-se os empobrecidos não só como oprimidos pelo sistema, mas também como excluídos por ele, e se propõe uma globalização alternativa como desejável e realmente possível, pondera Juan Carlos Scannone

Juan Carlos Scannone se apresenta como um filósofo da libertação “que se coloca a serviço do Povo de Deus e da Teologia da Libertação, sobretudo na corrente dela, que, sem descuidar da análise social, o enquadra na análise histórico-cultural, dando especial relevância nela à cultura e à religiosidade populares”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ele afirma que atualmente “muitas das contribuições da Teologia da Libertação já foram assumidas pela Igreja em sua doutrina e pastoral sociais. A própria Teologia da Libertação não está mais na moda, mas continua viva, vigente e trabalhando, tendo amadurecido teológica e evangelicamente; inspirou e inspira muitos enfoques pastorais e avanços teológicos (como são a hermenêutica popular da Palavra de Deus, a teologia intercultural, as teologias indígena, afro-americana, feminina, etc.), embora – por outro lado – ela nem sempre seja reconhecida e valorizada por todos”.

Juan Carlos Scannone é doutor em Filosofia pela Universidade de Munique (Alemanha), é licenciado em Teologia pela Universidade de Innsbruck (Áustria). Foi reitor da área São Miguel da Universidade del Salvador (Buenos Aires), onde também foi decano da faculdade de Filosofia. Foi professor-convidado nas universidades de Frankfurt, Salzburg, Gregoriana (Roma), Alberto Hurtado (Santiago de Chile) e na universidade Ibero-americana (México), entre outras. É também membro da Academia Europeia de Ciências e Arte. Entre outros, é autor dos seguintes livros: Irrupción del pobre y quehacer filosófico (Buenos Aires: Bonum, 1993); Lo político en América Latina (Buenos Aires: Bonum, 1999); e Religion y nuevo pensamiento (Barcelona: Antrophos, 2005). Scannone irá participar do Congresso Continental de Teologia, nos próximos dias 8, 9 e 10 de outubro, das 14h30min às 16h30min, falando sobre “Teologia, Cultura e Interculturalidade”. Acesse a programação completa em http://bit.ly/NMoI2N.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Para o senhor, o que significa o pensar e o fazer teologia a partir da realidade latino-americana? Como o senhor se insere na perspectiva da Teologia da Libertação?

Juan Carlos Scannone – Fazer teologia a partir da América Latina é adotar para a reflexão de fé a perspectiva que se dá ao crer, ao viver, ao padecer, ao agir, ao celebrar na situação e no contexto social e cultural latino-americano. Mas como este é constituído em grande parte pela realidade injusta dos pobres, a interpelação de Cristo entre eles e a correspondente resposta evangélica mediante a opção pela sua libertação histórica e escatológica se convertem, assim, em Teologia da Libertação. Suas duas características-chave são a) seu ponto de partida e lugar hermenêutico são interpelações e opção preferencial pelos pobres; e b) seu uso para interpretar a realidade histórica à luz da fé não só a mediação da filosofia, mas também das diversas ciências humanas e sociais. Pessoalmente, sou um filósofo da libertação que se coloca a serviço do Povo de Deus e da Teologia da Libertação, sobretudo na corrente dela, que, sem descuidar da análise social, o enquadra na análise histórico-cultural, dando especial relevância nela à cultura e à religiosidade populares.

IHU On-Line – Qual a sua reflexão sobre os 40 anos de caminhada da Teologia da Libertação, tendo como marco o livro de Gustavo Gutiérrez?

Juan Carlos Scannone – Gustavo Gutiérrez já havia aberto caminho para uma Teologia da Libertação antes de Medellín (1968), embora o explicitou magistralmente em seu primeiro livro (1971), que se difundiu rapidamente nos níveis latino-americano e internacional, sobretudo depois da sua reedição na Espanha (1972). A influência da incipiente Teologia da Libertação foi notada primeiro em Medellín, depois na teologia, na pastoral e na sociedade latino-americanas, e depois em teologias de outras latitudes, através da polêmica que ela suscitou, a seu favor ou contra ela. Tal influência também chegou ao magistério tanto latino-americano como pontifício, que explicitaram a opção preferencial pelos pobres e a problemática da libertação integral. Tudo isso provocou um atento discernimento evangélico, em especial com relação ao uso mais ou menos crítico da análise social marxista e da releitura crítica de algumas de suas categorias. Isso deu lugar a duas Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé, uma de acento mais crítico (1984), e outra, mais positivo (1986), de modo que Gutiérrez levou em conta essa evolução na 6ª edição de sua obra supramencionada (1988). Em minha opinião, atualmente muitas das contribuições da Teologia da Libertação já foram assumidas pela Igreja em sua doutrina e em suas pastorais sociais. A própria Teologia da Libertação não está mais na moda, mas continua viva, vigente e trabalhando, tendo amadurecido teológica e evangelicamente; inspirou e inspira muitos enfoques pastorais e avanços teológicos (como são a hermenêutica popular da Palavra de Deus, a teologia intercultural, as teologias indígena, afro-americana, feminina, etc.), embora – por outro lado – ela nem sempre seja reconhecida e valorizada por todos.

IHU On-Line – Como se originou a Teologia da Libertação? A partir dessa opção teológica, que perspectivas se abriram? 

Juan Carlos Scannone – A aplicação do Concílio Vaticano II à América Latina, em especial a da Constituição Pastoral Gaudium et Spes, e de seu método provocaram que se analisassem explicitamente a injustiça e a violência estruturais em nosso subcontinente, sobretudo quando se contemplou, à luz do Evangelho, a situação estrutural dos pobres e a práxis de libertação de muitos grupos cristãos. Estes costumavam empregar a contribuição das ciências sociais, não por último a teoria da dependência, surgida na nossa América. A partir dessa opção pelos pobres e da opção teológica correspondente, não só se interpretou a realidade histórica latino-americana à luz da Palavra de Deus, mas também se reinterpretou a esta e a toda a fé e a teologia a partir de uma nova ótica evangélica a partir dos pobres, em continuidade com a tradição viva da Igreja.

IHU On-Line – Qual o sentido teológico e o alcance da opção pelos empobrecidos? Como essa opção inspiradora se insere no atual contexto de mundo caracterizado pela dinâmica de globalização?

Juan Carlos Scannone – Assim é como se redescobriram tanto espiritual como teológica e pastoralmente a opção de Cristo e da Igreja pelos pobres através da história e atualmente, como se resumiu no segundo documento da Congregação para a Doutrina da Fé, e se ampliaram essas considerações à história recente da América Latina, com precursores exímios como Bartolomé de Las Casas. Neste momento de uma globalização de corte neoliberal, consideram-se os empobrecidos não só como oprimidos pelo sistema, mas também como excluídos por ele, e se propõe uma globalização alternativa como desejável e realmente possível, sobretudo depois da crise financeira e econômica de 2008, que ainda não acabou, índice de uma crise mais profunda, ética, histórica e cultural. Por outro lado, simultaneamente está ocorrendo a emergência dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China) que rompe a hegemonia única dos EUA depois da implosão da URSS. Isso mostra que “outro mundo é possível” (Fórum Social Mundial de Porto Alegre), mas não se trata de uma necessidade histórica, e sim de um desafio à liberdade das pessoas e dos povos.

IHU On-Line – A seu ver, por que a Teologia da Libertação foi tão criticada e perseguida, inclusive por setores da Igreja?

Juan Carlos Scannone – Por um lado, havia interesses criados em favor de fatores de poder econômico, político e/ou militar que favoreceram essa rejeição e o seu disfarce ideológico. Por outro lado, às vezes se confundiram grupos não poucas vezes minoritários dentro da Teologia da Libertação que favoreciam a violência ou a luta de classes – até mesmo dentro da Igreja – e aplicavam, sem crítica, o método de análise marxista para a realidade social latino-americana, com outros promotores da Teologia da Libertação que não o empregavam, ou só usavam algumas categorias extraídas do marxismo, depois de tê-las criticado (com mais ou menos sentido crítico) e relido a partir de um horizonte cristão de compreensão.

IHU On-Line – Olhando para o futuro, quais os desafios e perspectivas da Teologia da Libertação?

Juan Carlos Scannone – A Teologia da Libertação deve ser fiel a seu método, analisando, com a ajuda das ciências acima mencionadas, a atual nova realidade latino-americana e mundial, até porque a situação da América Latina e dos pobres mudou por causa da globalização e da “nova questão social” (a exclusão – ver resposta à quarta pergunta), assim como porque o novo fenômeno da crise do neoliberalismo e o fim da hegemonia única dos EUA parecem propor uma conjuntura favorável à mudança. Pois hoje se insinua a emergência de um novo paradigma sociocultural nos níveis global, continental e local, tanto nas práticas sociais como nas ciências, incluindo as ciências exatas, paradigma que dá maior espaço à relação, ao acontecimento, à comunicação e à lógica do dom (um exemplo é dado pela encíclica Caritas in Veritate ), o que contribuiria para a possibilidade real da acima citada globalização alternativa.

IHU On-Line – Qual o significado e a importância para a teologia dos conceitos de cultura e interculturalidade? Como esses conceitos estão implicados no contexto latino-americano?

Juan Carlos Scannone – Em minha resposta à primeira pergunta, disse que me subscrevo à corrente da Teologia da Libertação que dá ênfase à cultura, porque ela torna humano e social o ser humano e nela devem se inculturar (isto é, se encarnar) o Evangelho e o seu dinamismo pascal. Pois bem, a América Latina foi tomando cada vez mais consciência explícita de seu caráter intercultural e da assimetria injusta que ainda ocorre entre suas culturas. Precisamente o diálogo intercultural para dentro fará com que as culturas populares (suburbana, campesina, dos povos originários, afro-latino-americanas) contribuam com seus valores humanistas e evangélicos à cultura moderna e tardo-moderna, assim como esta contribui com seus valores, não por último, com a ciência e a tecnologia, às culturas tradicionais, em uma nova mestiçagem cultural. De fato, esse fenômeno já está ocorrendo, sobretudo nos subúrbios das grandes cidades latino-americanas, facilitando tanto a transformação do paradigma sociocultural como o surgimento de uma globalização alternativa. 

Leia mais...

>> Juan Carlos Scannone já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira: 

A Teologia da Cultura não se opõe à Teologia da Libertação. Entrevista publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 06-09-2007, disponível em http://bit.ly/PFX3PE 

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