Edição 403 | 24 Setembro 2012

Um ícone perfeito da religião como comunhão

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Graziela Wolfart | Tradução de Sandra Dall Onder

“O desaparecimento de Martini marca, na Itália, o final eminente da possibilidade de que o catolicismo democrático tenha uma voz dentro da hierarquia da Igreja”, sentencia o teólogo italiano Vito Mancuso

Convidado pela IHU On-Line a refletir sobre o legado de Carlo Maria Martini, recentemente falecido, o teólogo leigo, italiano Vito Mancuso afirmou, em entrevista concedida por e-mail, que “a insistência de Martini sobre a primazia da contemplação não o impedia de se posicionar em relação aos temas da atualidade, como o terrorismo, a alienação do trabalho, a inquietação da juventude. Ao contrário, a dimensão contemplativa da vida lhe dava uma profundidade de leitura desconhecida para os outros, alcançava e modificava as camadas mais escondidas dos corações”. E continua: “Esta compenetração de pura espiritualidade e de análise rigorosa do real é, em minha opinião, o sentido último da mensagem cristã que em seus vértices é capaz de combinar, em harmonia, o amor pelo céu e a fidelidade para com a terra, a dedicação ao espírito e o cuidado com a matéria, o impulso para o eterno e as raízes na história”.

Vito Mancuso, doutor em Teologia Sistemática pela Pontificia Università Lateranense, de Roma, é ex-professor da Università San Raffaele, de Milão. Desde 2009 escreve para o jornal La Repubblica. Seu livro mais recente intitula-se Obbedienza e libertà (Fazi Editora, 2012 [Obediência e liberdade]). Sobre ele, leia uma matéria publicada no sítio do IHU e disponível em http://bit.ly/OLTWD8.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que faz de Carlo Maria Martini um “homem de Deus” ?

Vito Mancuso – Respondo através das lembranças dos encontros que tive na minha vida com o cardeal Martini. Os primeiros encontros aconteceram no início dos anos 1980 na sede no Palácio Arquiepiscopal de Milão, quando tinha pouco mais de 20 anos e estudava Teologia no seminário (nos últimos anos, de 2007 a 2012, na residência dos jesuítas onde estava hospedado após ter deixado Jerusalém por motivos de saúde).

Em todos esses encontros, incluindo um com minha esposa e meus dois filhos, eu sempre tive dentro de mim uma dupla sensação: uma grande comunhão e alteridade. Uma grande comunhão, porque Martini transmitia um sentimento claro de afeto, carinho, amizade, mas com alteridade, porque a sua disciplina espiritual o fazia diferente da humanidade comum, inclusive de mim. De certa forma eu vivi nas reuniões com Martini o que Rudolf Otto escreveu no seu célebre livro sobre o sagrado (edição originária: Das Heilige, 1917), isto é, que o divino acontece nos homens como mysterium fascinans, como uma dimensão que atrai, mas também como mysterium tremendum, como algo que amedronta e perante o qual sentimos medo. Portanto, Martini foi “um homem de Deus” antes de tudo nesse sentido muito concreto, fenomenológico.

IHU On-Line – Qual a importância de Martini como um biblista na origem da edição crítica mais creditada em nível internacional do Novo Testamento (The Greek New Testament)?

Vito Mancuso – Como todos sabem, nós possuímos mais de 5.700 manuscritos gregos do Novo Testamento (um número ao qual nenhum texto antigo se aproxima), mas as diferenças entre eles são numerosas, complicadas pelo fato de que no mundo antigo se utilizava a scriptio continua, ou seja, sem espaços para separar as palavras, sem distinção entre letras maiúsculas e minúsculas, sem sinais de pontuação. A tarefa da crítica textual consiste em aproximar ao máximo o texto dos originais, chamado de “edição crítica”. Hoje, a edição crítica mais importante do Novo Testamento é a Deutsche Bibelgesellschaft, de Stuttgart, The Greek New Testament, que alcançou a quarta edição em 1993, cujos editores são Barbara Aland, Kurt Aland, Johannes Karavidopoulos, Bruce M. Metzger e Carlo Maria Martini.

IHU On-Line – O senhor pode explicar em que sentido a marca essencial de Martini pode ser encontrada no documento intitulado A dimensão contemplativa da vida?

Vito Mancuso – Martini chegou a Milão em 1980, ano em que houve muitas vítimas dos “anos de chumbo”, o período do terrorismo político na Itália, tanto de direita como de esquerda. Em 1980, os terroristas mataram 125 pessoas, 85 no massacre neofascista de 2 de agosto na estação de trem de Bolonha.

Naqueles anos, eu vivia a minha adolescência, fase contraditória na qual se cultivavam os mais belos sonhos e, de repente, se acorda para a dura realidade da vida. Lembro-me bem do primeiro documento que Martini enviou à diocese de Milão, intitulado “La dimensione contemplativa della vita”. A mensagem era clara: os grandes problemas da humanidade podem ser resolvidos somente quando se chega às raízes espirituais do nosso ser humano, somente através da ordem, da luz, da paz e do silêncio. Naturalmente a insistência de Martini sobre a primazia da contemplação não o impedia de se posicionar em relação aos temas da atualidade, como o terrorismo, a alienação do trabalho, a inquietação da juventude. Ao contrário, a dimensão contemplativa da vida lhe dava uma profundidade de leitura desconhecida para os outros, alcançava e modificava as camadas mais escondidas dos corações. Não foi por acaso que, anos depois, em 13 de junho de 1984, alguns terroristas entregaram ao arcebispado em Milão três malas cheias de explosivos, fuzis, bombas, e munição com uma mensagem para Martini: “Receba de forma legítima a nossa renúncia espontânea às armas”. Esta compenetração de pura espiritualidade e de análise rigorosa do real é, em minha opinião, o sentido último da mensagem cristã que em seus vértices é capaz de combinar, em harmonia, o amor pelo céu e a fidelidade para com a terra, a dedicação ao espírito e o cuidado com a matéria, o impulso para o eterno e as raízes na história.

IHU On-Line – Em que sentido a inteligência de Martini servia incondicionalmente ao bem e à justiça?

Vito Mancuso – No sentido de que ele nunca colocou a lei eclesiástica antes do bem concreto das pessoas reais. Posso citar um fato pessoal. Em 1986, aos 23 anos de idade, fui ordenado sacerdote por Martini na Catedral de Milão. Um ano depois fui até ele para dizer-lhe da minha incapacidade de continuar a viver no celibato sacerdotal. Lembro-me bem como ele olhou para mim e o que disse, que a única coisa que lhe importava era o meu próprio bem, a minha realização, a minha felicidade. Nunca me falou de fidelidade à promessa, de obediência, de lei, mas sempre e apenas sobre a busca do caminho para a realização de minha verdadeira vocação, no caso concreto da teologia. O que ele fez comigo, naquele dia no final de agosto de 1987, Martini sempre fez com todos, procurando sempre o bem concreto das pessoas reais. Acho que esta é a boa notícia do Evangelho.

IHU On-Line – Podemos afirmar que Martini foi um dos expoentes do chamado catolicismo progressista?

Vito Mancuso – Não há dúvida de que Martini foi uma das figuras mais importantes, em nível mundial, do catolicismo progressista, significando com esta expressão aquele catolicismo que quer continuar a lição do Concílio Vaticano II sobre a modernização da Igreja com relação às expectativas e tensões do mundo. A ação reformadora de Martini estava ligada tanto à parte interna da Igreja (desclericalização, aumento da colegialidade, valorização dos leigos, crítica à moral sexual em vigor, crítica à bioética eclesiástica em vigor) como à parte externa, nas relações ecumênicas e inter-religiosas e especialmente nos confrontos permanentes com o mundo leigo do agnosticismo e ateísmo.

IHU On-Line – Em que sentido a obra e o pensamento do cardeal Martini representam um fruto do Concílio Vaticano II?

Vito Mancuso – Eu diria que tem um duplo sentido, de conteúdo e de método. Em termos de conteúdo, a ação de Martini deu ao Concílio do Vaticano II a centralidade da Palavra de Deus através do diálogo ecumênico e inter-religioso, e, nesse sentido, foi muito importante a participação de outras denominações cristãs e de outras religiões em seu funeral. Em termos de método, a ação de Martini deu ao Concílio Vaticano II um processo contínuo e permanente, um “conselho de estilo”, isto é, o diálogo, a troca, a investigação conjunta da melhor solução sem qualquer dogmatismo montado, desejo de atualizar-se.

IHU On-Line – Com a ausência de Martini, como o senhor vê a realidade do mundo católico italiano e internacional?

Vito Mancuso – O desaparecimento de Martini marca na Itália o final eminente da possibilidade de que o catolicismo democrático tenha uma voz dentro da hierarquia da Igreja. Nomeações episcopais são apenas de ida, ouve-se somente “a voz do patrão”, impera a palavra conservadora. Parece-me que a situação no mundo, embora não tão grave, siga a mesma tendência. Estamos celebrando o cinquentenário do início do Concílio do Vaticano II às portas do desaparecimento do “conselho de estilo”.

IHU On-Line – O que o senhor guarda de mais importante do convívio com Carlo Maria Martini?

Vito Mancuso – Uma das coisas mais importantes de Martini, que permanecerá em mim, é a linguagem. Não somente pelas coisas que ele dizia; o que chamava a atenção era a maneira como ele as dizia, completamente desprovida de retórica eclesiástica, mas ao mesmo tempo tão diferente da linguagem cotidiana. A sua maneira de falar nos fazia perceber um outro mundo, sem ser de outro mundo. As suas palavras eram simples, mas rigorosas; compreensíveis, mas profundas; básicas, mas misteriosas, e acima de tudo sempre relacionadas às coisas e às situações, nunca ditas somente para causar uma impressão sobre o público. Em sua linguagem se sentia a autenticidade existencial, surgia um estilo diferente, não eclesiástico, porém não era desprovida de santidade. Ao contrário, fazia com que se sentisse algo de sagrado na existência concreta dos homens que deve ser vivida com justiça, inteligência e amor.

IHU On-Line – Qual o principal legado que Martini deixa para a Igreja e para a sociedade contemporânea?

Vito Mancuso – É o fato de ter atingido o verdadeiro valor da religião. A religião é uma realidade ambígua, como o noticiário diário nos mostra: dela pode nascer o bem, mas também o mal. Se de fato o vínculo religioso é interpretado como hostilidade para com o mundo e os homens que vivem de uma forma diferente, a religião é prejudicial e pode ser um perigo para a paz mundial. Se a relação com Deus é a base de uma relação harmoniosa com o sentido global do mundo e com os outros homens, então a religião é boa e deve ser cultivada, introduz mais ordem no sistema-mundo, buscando uma maior organização, lutando contra as forças obscuras da desordem e do caos. Tudo, portanto, depende se a religião é, para o mundo, a comunhão ou separação. Martini foi um ícone perfeito da religião como comunhão. Nele eu vi a energia positiva que a fé cristã pode derramar sobre o mundo graças à sua confiança no homem, uma confiança que vem da lectio divina da realidade. Para a lectio divina entende-se geralmente a leitura espiritual da Bíblia, mas também deve ser feita uma leitura espiritual da realidade. Na verdade, estou convencido de que o coração da ação episcopal de Martini tenha sido a aplicação do método de leitura espiritual da Bíblia para a realidade do mundo. Se a análise fria e objetiva das coisas é importante, com certeza não é suficiente quando se trata de seres humanos, porque em seu caso também é necessário introduzir energia, inspirar esperança, criar uma força capaz de avançar a evolução para o melhor: é necessária uma ação performativa, não só uma análise objetiva. Essa é a verdadeira lectio divina, e esta tem sido e continuará a ser a lição espiritual de Carlo Maria Martini.

Saiba mais...

Quem foi Carlo Maria Martini

Carlo Maria Martini foi um cardeal italiano e arcebispo emérito de Milão. 

Ingressou na Companhia de Jesus em 1944. Estudou na Faculdade de Filosofia Aloisianum, Gallarate, Milão; na Faculdade Teológica, de Chieri, em Turim; na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, onde fez o seu doutorado em Teologia Fundamental com a tese Il problema storico della Risurrezione negli studi recenti; e no Pontifício Instituto Bíblico, Roma.

Foi ordenado padre em 13 de julho de 1952, em Chieri, Turim. Continuou seus estudos em Roma, de 1954 a 1958 e foi membro da Faculdade Teológica de Chieri. 

Foi membro da faculdade, decano e reitor do Pontifício Instituto Bíblico. Nomeado reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, em 1978, foi o único membro católico do Comitê Ecumênico para a preparação da edição grega do Novo Testamento.

Foi eleito arcebispo de Milão em 1979. Ordenado bispo em 1980, no Vaticano, pelo Papa João Paulo II, foi membro da secretaria geral do Sínodo dos Bispos, por nomeação papal, de 1980 a 1983.

Em 30 de agosto de 2012 o cardeal Angelo Scola, arcebispo de Milão, anuncia que Dom Carlo foi internado num hospital por causa da doença de que sofria (Parkinson) e pediu orações para si. Acabou falecendo em Gallarate, no dia 31 de agosto de 2012.

Seu lema e brasão eram Pro veritate adversa diligere. 

Em novembro de 2007, Martini lançou, junto com o Pe. Georg Sporschill, o livro Diálogos noturnos em Jerusalém, onde, em forma de entrevista, discute os temas mais relevantes da atualidade da fé e os desafios de chegar aos jovens e as suas questões tão conturbadas nos dias de hoje.

Agora, na Itália, acaba de ser lançado o livro “Conversazioni com Carlo Maria Martini” (Conversas com Carlo Maria Martini), de Vito Mancuso e Eugenio Scalfari, jornalista, fundador do jornal “La Repubblica”, pela Fazi Editori. 

Algumas destas entrevistas podem ser lidas no sitio do IHU:

* O sentido da vida nas palavras de Jesus; publicada pelo jornal La Repubblica,  24-12-2011, disponível em http://bit.ly/M0VedO 

* Pensando com Martini sobre pecado e Ressurreição; publicada pelo jornal La Repubblica, 13-05-2010, disponível em http://bit.ly/NMy9ze 

* Um Concílio sobre o divórcio; – publicada pelo jornal La Repubblica, 18-06-2009, disponível em http://bit.ly/OlE1kD 

* A oração do cardeal e a de um leigo; La Repubblica, 01-11-2009, disponível em http://bit.ly/Sq3OJ3 

 

Leia mais...

>> Leia alguns destaques sobre o Cardeal Martini publicados pelo sítio do IHU:

Morreu Martini, o bispo do diálogo, disponível em http://bit.ly/TIgXZR; 

Martini, o mendicante com a púrpura, disponível em http://bit.ly/P5IMKZ; 

Concílio Vaticano III: um sonho de Martini, disponível em http://bit.ly/OLZ6z2; 

Martini, um homem que sabia ouvir. Artigo de Elena Loewenthal, disponível em http://bit.ly/UxpVMB; 

''A abertura de Martini aos não crentes foi um ato de responsabilidade''. Entrevista com Massimo Cacciari, disponível em http://bit.ly/UkM4Np; 

Martini e as quatro estações. Artigo de Gianfranco Ravasi, disponível em http://bit.ly/UkMiUD; 

O abraço de Milão em Martini, disponível em http://bit.ly/PCNKhI; 

''A Igreja retrocedeu 200 anos. Por que temos medo?'' A última entrevista de Martini, disponível em http://bit.ly/R8SdaX 

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