Edição 403 | 24 Setembro 2012

Ciência para a felicidade humana

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Graziela Wolfart

Para a filósofa Anna Carolina Regner, dentre as influências do pensamento de Paul Feyerabend está o fato de que ele proporcionou sólida crítica “implosiva” aos limites do positivismo lógico e do criticismo popperiano, abrindo as portas para novas compreensões da ciência, tanto em sua dinâmica interna como externa

Ao refletir sobre a contribuição de Paul Feyerabend para a filosofia da ciência e para a sociologia do conhecimento científico, a filósofa Anna Carolina Krebs Pereira Regner, professora na Unisinos, afirma que “talvez ainda seja cedo para uma avaliação da profundidade dessa influência”. E explica: “Feyerabend sempre rejeitou a condição de ‘fundador’ ou ‘chefe de grupo’, muito menos o de formador de uma escola filosófica. Não lhe fascinava a ideia de ter ‘seguidores’. Consoante com suas bandeiras, cada um devia traçar seu caminho com suas pegadas. Pode soar estranho para alguém que reconhecia o papel desempenhado pelas ‘tradições’ na história das práticas e das ideias. Contudo, não o é, se tivermos em consideração a meta de uma pedagogia humanista e a multiplicidade inerente à riqueza do Ser. ‘Tradições’ são meios pelos quais, em vias de convergências e divergências internas e externas, o fluxo da história e da consciência do indivíduo move-se em busca de uma maior exploração de suas possibilidades”. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Anna Carolina explica que “Feyerabend argumenta em favor de uma explicação contextual, onde as regras contextuais não são para substituir as regras absolutas, mas para suplementá-las. Sugere que mais importante é analisar de uma nova maneira a relação entre regras e práticas”. 

“O conceito de abundância em Feyerabend” foi o tema abordado pela professora no evento IHU ideias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU no último dia 13 de setembro. 

Graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, Anna Carolina é mestre em Filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Doutorou-se em Educação pela UFRGS e é pós-doutora pela Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Leciona nos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia da Unisinos. É autora de Charles Darwin, notas de viagem: a tessitura social no pensamento de um naturalista (Porto Alegre: EST/Grafosul, 1988).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como conceituar abundância a partir da obra A conquista da abundância (São Leopoldo: Unisinos, 2006), de Paul Feyerabend ? Em que implica esse conceito?

Anna Carolina Regner – Abundância refere-se, como indicado no subtítulo de seu livro, à riqueza do Ser – do mundo que habitamos, das várias realidades que o retratam em múltiplas faces sem esgotá-lo – em oposição à abstração como operação da razão que recorta, diminui as diferenças e absolutiza uma dada versão, “uma” realidade como sendo “a” realidade. Trata-se de “abundância” desde uma perspectiva ontológica e central aos eixos basilares do pensamento de Feyerabend. É também epistemológica, pois tem a ver com nossa interação com o mundo: as realidades são interpretações possíveis do Ser. Desde a primeira versão de seu Contra o método como um pequeno ensaio (1970) e em suas posteriores publicações como livro (1975, 1988, 1993), a complexidade do mundo a ser investigado, da história como palco dessa investigação e das mentes de seus protagonistas escapa a meios e soluções simplistas. Nosso mundo é sempre interpretado. Não há “fatos nus”; estando os fatos sempre sujeitos à contaminação fisiológica e histórico-cultural da evidência (Feyerabend, 1977, cap. V).

Nem pretende Feyerabend que haja uma interpretação preferencial, mas a agudização da consciência de que pode haver realidades diferentes. Em sua introdução ao livro, Feyerabend diz ser uma bênção que apenas uma fração da abundância do mundo afete a nossa mente. Uma superconsciência não nos deixaria supersábios, mas paralisados, crê Feyerabend. Assim, a conquista de graus mais elevados de consciência permanece aberta e não equivale a uma mera conquista redutora da abundância. A riqueza do mundo pede, desde um ponto de vista epistemológico, uma mente aberta sempre a considerar opções outras do que padrões rígidos de interpretação e de ação, de sorte que, usando-se de suas palavras, a coisa e a compreensão de uma ideia correta dessa coisa “são, muitas vezes, partes de um único e indivisível processo” (Feyerabend, 1977, p. 32). Seus pressupostos ontológicos e epistemológicos condizem com seu pressuposto pedagógico de que a educação em geral e a científica em particular repouse em uma atitude humanista, libertadora, de vida completa e gratificante, junto à “tentativa correspondente de descobrir os segredos da natureza e do homem” (Feyerabend, 1977, p. 22). O conhecimento é visto por Feyerabend como “um oceano de alternativas mutuamente incompatíveis (e, talvez, até mesmo incomensuráveis), onde cada teoria singular, cada conto de fadas, cada mito que seja parte do todo força as demais partes a manterem articulação maior, fazendo com que todas concorram, através desse processo de competição, para o desenvolvimento de nossa consciência” (Feyerabend, 1993, p. 21).

IHU On-Line – Como a senhora define a visão anarquista da ciência de Feyerabend? O que representa sua postura de rejeição à existência de regras metodológicas universais? 

Anna Carolina Regner – Inicialmente convém lembrar que anarquismo significa antes oposição a um princípio único, absoluto, imutável de ordem, do que oposição a toda e qualquer organização. Na sua tradução metodológica, não significa, portanto, ser contra todo e qualquer procedimento metodológico, mas contra a instituição de um conjunto único, fixo, restrito de regras que se pretenda universalmente válido, para toda e qualquer situação – ou seja, contra algo que se pretenda erigir como “o” método, como “a” característica distintiva, demarcadora do que seja “ciência”. 

O anarquismo epistemológico

O anarquismo epistemológico difere tanto do ceticismo como do anarquismo político ou religioso. Ao anarquista epistemológico, não lhe é indiferente um ou outro enunciado e desejará, talvez, defender certa forma de vida combatida pelo anarquista político ou religioso, mantendo ou alterando seus objetivos e estratégias, na dependência do argumento, do tédio, de uma experiência de conversão ou de outros fatores de ordem emocional e de força persuasiva. Antes que um ideário, o “anarquismo epistemológico” é uma atitude refletida na própria estratégia utilizada por Feyerabend, “implodindo” as posições do adversário em suas próprias bases e com seus próprios meios. Seu adversário é o racionalismo, entendido como uma peculiar tradição de concepção do conhecimento, calcado na admissão de “umas poucas ideias abstratas e independentes da situação”, por meio das quais são geradas “estórias” (provas, argumentos), cuja trama “segue da natureza das coisas mesmas, exibindo, assim, objetividade e dando lugar a apenas uma estória aceitável” (a verdade). 

Crítica ao anarquismo ingênuo

A partir da edição de 1988, entre as mudanças introduzidas por Feyerabend em Contra o método, está sua crítica ao anarquismo ingênuo, segundo o qual, dado que todas as regras e padrões (absolutos ou contextuais) são limitados, infere que todas as regras e padrões não possuem valor e devem ser abandonados (1993, cap. 18). Feyerabend concorda com a primeira afirmativa, mas não concorda com o que é dela inferido. Feyerabend argumenta em favor de uma explicação contextual, onde as regras contextuais não são para substituir as regras absolutas, mas para suplementá-las. Sugere que mais importante é analisar de uma nova maneira a relação entre regras e práticas. Tanto uma posição naturalista (a prática determina totalmente a razão) como posição uma idealista (a razão governa totalmente a prática) têm problemas, mas podemos reter da primeira que a prática pode modificar a razão e, da segunda, que a razão pode modificar a prática. Combinando os dois elementos chega-se, segundo Feyerabend, à visão interacionista de ambas, com a ideia de um guia que é parte da atividade guiada e é modificado pela atividade (1993, p. 232). Na física, por exemplo, teorias são usadas tanto como descrições de fatos quanto como padrões especulativos e de acuidade fatual.

IHU On-Line – Qual a contribuição de Feyerabend para a filosofia da ciência e para a sociologia do conhecimento científico?

Anna Carolina Regner – Talvez ainda seja cedo para uma avaliação da profundidade dessa influência. Feyerabend sempre rejeitou a condição de fundador ou chefe de grupo, muito menos o de formador de uma escola filosófica. Não lhe fascinava a ideia de ter seguidores. Consoante com suas bandeiras, cada um devia traçar seu caminho com suas pegadas. Pode soar estranho para alguém que reconhecia o papel desempenhado pelas “tradições” na história das práticas e das ideias. Contudo, não o é, se tivermos em consideração a meta de uma pedagogia humanista e a multiplicidade inerente à riqueza do Ser. Tradições são meios pelos quais, em vias de convergências e divergências internas e externas, o fluxo da história e da consciência do indivíduo move-se em busca de uma maior exploração de suas possibilidades. Algumas influências de seu pensamento na filosofia da ciência e na sociologia do conhecimento científico são visíveis. Ele proporcionou sólida crítica “implosiva” aos limites do positivismo lógico e do criticismo popperiano, dos quais era profundo conhecedor, abrindo as portas para novas compreensões da ciência, tanto em sua dinâmica interna como externa. 

IHU On-Line – Para Feyerabend, em que medida nosso sentido de realidade é formatado e limitado? Como explicar nossa propensão a institucionalizar estas limitações? 

Anna Carolina Regner – Nosso sentido de realidade é, de um lado, sempre limitado, comparado ao da riqueza do Ser e de nossas possibilidades interpretativas. De outro, é possível romper com a limitação. É uma questão ideológica, na medida em que sempre vemos o mundo, os fatos, de uma determinada maneira. Quando tomamos consciência dessa condição, dessa relatividade das interpretações, tendemos a nos institucionalizar, colocando-nos sob a proteção e estabilidade do acolhimento institucional. No entanto, se ao impor-nos as limitações de uma dada tradição somos ou não incapazes de romper com as suas amarras, se podemos ou não romper com os castelos que aprisionam nossas visões e ações, trata-se de uma questão a ser decidida empiricamente. Não podemos decidi-la a priori. Feyerabend argumenta a partir do como se dá o processo cognitivo nas crianças e da evidência de diferentes ontologias e de mudanças e diversidades culturais. Pergunta-se por que não poderíamos (por exemplo, assim como podem as crianças que são capazes de aprender simultaneamente diferentes línguas e os modos de ver e de viver nelas embutidos) ser capazes de colocarmo-nos em diferentes posições e experienciar diferentes formas de vida. 

IHU On-Line – Qual a atualidade do pensamento de Paul Feyerabend e sua contribuição sobre o papel da ciência na sociedade?

Anna Carolina Regner – A meu ver, Feyerabend, antes de muitos outros, perguntou pela finalidade da ciência. De modo muito simples, concluiu: como tudo o mais, para a felicidade humana. E isso introduz como central a perspectiva ética na ciência, o que de resto emerge de seus próprios pressupostos. Mas não em nome de um abstrato Bem; antes, calcado na concretude do ethos. Em Adeus à Razão, ressaltou que mais do que questões epistemológicas, devemos nos preocupar com a sobrevivência de nossas espécies e das demais, em uma relação mais harmoniosa dos homens entre si e com a Natureza. Solidariedade é o espírito que move a instituição que tem o seu nome e premia não trabalhos acadêmicos, mas pessoas que têm contribuído para a promoção das condições de vida e valores solidários em suas comunidades.

FEYERABEND, P. Contra o método. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1977. 

________. Adiós a la razón. Madrid : Tecnos, 1987.

_________. Against method. London / New York: Verso, 1993.

________. Farewell to reason. London / New York: Verso, 1994. 

 

Leia mais...

>> Anna Carolina Krebs Pereira Regner já contribuiu com a IHU On-Line em outras oportunidades. Confira:

“Somos melhores depois de Darwin”. Entrevista publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU em 13-07-2009, disponível em http://bit.ly/RJ2V8Y 

Deus e a ciência: a controvérsia interna de Darwin. Artigo publicado na edição número 306, de 31-08-2009, disponível em http://bit.ly/UlKRrr

Sua trajetória pessoal e professional também pode ser lida na entrevista que concedeu para a IHU On-Line número 257, de 05-05-2008, disponível em http://bit.ly/PuUe3X 

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