Edição 403 | 24 Setembro 2012

As semânticas do mistério no cinema

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Márcia Junges e Luís Carlos Dalla Rosa

A teologia pode ser fonte de reflexão para a sétima arte, pondera Joe Marçal. Filho da modernidade, o cinema não tem consolidada uma “vertente de expressão religiosa”

Para o teólogo Joe Marçal, a “teologia tem muito a fazer ao refletir o cinema como um cristal, em cujas diferentes faces e polimentos a cultura se revela se ocultando”. Ele ressalva que “falar do mistério a partir do cinema significaria aceitar modestamente um mistério com ‘m’ minúsculo, mais horizontal e ao alcance das pessoas. Trata-se de uma redução (e seria mesmo uma redução?) que reflete o esvaziamento de toda uma tradição simbólica e filosófica calcada numa metafísica positiva e objetivante. O cinema é, nesse sentido, um filho da modernidade, essencialmente herético, e uma das poucas formas artísticas que não consolidou absolutamente nenhuma vertente de expressão religiosa, o que é muito sintomático”.

Professor na área da Teologia e Ensino Religioso da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, Joe Marçal Gonçalves dos Santos é graduado, mestre e doutor em Teologia. A graduação foi realizada na Escola Superior de Teologia – EST; cursou mestrado e doutorado no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação com a tese Por uma teologia da imagem em movimento: uma troca de olhar com o cinema a partir da obra de Andrei A. Tarkovski no horizonte da teologia de Paul Tillich. Com Luís Carlos Susin organizou a obra Nosso planeta, nossa vida: ecologia e teologia (São Paulo: Paulinas, 2011). É secretário executivo do Fórum Mundial de Teologia e Libertação.

Joe Marçal ministrará, em 02-10-2012 o minicurso Semânticas do Mistério no cinema. Aproximações entre O Sacrifício, de Andrei Tarkovski, e Árvore da Vida, de Terrence Malick. A atividade integra a programação do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. A programação completa pode ser conferida em http://bit.ly/rx2xsL.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Como surgiu o seu interesse pelo cinema? Qual é a sua perspectiva de análise?

Joe Marçal –
Meu interesse surgiu com o próprio cinema, de meu encanto por ele e, através dele, por sua maneira de poetizar a realidade. Mesmo que tenha buscado traduzir isso com mediações que a teologia oferece, meu interesse pelo cinema se mantém cinematográfico. Porque é assim que ele se mantém fiel à realidade e a seu contexto, em vista de sua fusão entre técnica e espírito, que o coloca entre as mais eficazes máquinas de fantasiar e representar o mundo, ao lado do próprio pensamento e do sonho humanos. De fato, o cinema consiste de um poderoso espelho (daquelas de superfície curva, que brincam com o reflexo das coisas) da cultura moderna, ora revelando, ora dissimulando uma representação do mundo em que vivemos, o que convida a sua análise formal aliada a uma criativa interpretação. Na verdade, a experiência do cinema, ao longo do século XX, instituiu sua própria crítica, longe ainda de integrar todas suas mediações possíveis. Porque toda representação poética do mundo da vida implica possibilidades imaginativas de um mundo desejado.
Um filme pode ser visto sempre como uma visão daquilo que é à luz do que terá sido. Por isso entendo que toda arte, toda poesia, implica transcendência, mesmo que não num sentido metafísico e estritamente religioso. Se compreendermos teologia como uma ciência das mediações do espírito humano para com a face do mundo e da vida que nos sobrevém como mistério – seja numa experiência estética, moral ou religiosa propriamente dita –, então a teologia tem muito a fazer ao refletir o cinema como um cristal, em cujas diferentes faces e polimentos a cultura se revela se ocultando.


IHU On-Line – Nessa relação que o senhor estabelece entre teologia e cinema, como o pensamento de Paul Tillich “entra em cena”?

Joe Marçal –
A tentativa de uma abordagem metodológica refletida do cinema me exigiu uma inversão. Se iniciei essa relação da teologia ao cinema, acabei por encontrar no movimento do cinema à teologia o melhor dos resultados. Paul Tillich  se tornou conhecido a partir de uma metáfora mal compreendida, quando ele sugere que a teologia deve responder às perguntas que determinam uma época, uma cultura. Isso nega completamente o método de correlação de Tillich. Na verdade, deve-se atentar para as implicações de Tillich defender a cultura não apenas como “objeto” da teologia, e sim fonte de correlação. Quer dizer, só podemos responder existencialmente àquelas perguntas que acontecem em nós. Quando a experiência do cinema aconteceu a mim, a partir daí pude articular uma relação com uma teologia que, de algum modo, sofre também essa experiência. Quer dizer, analisar e interpretar o cinema do ponto de vista da teologia implica sofrê-lo e situar-se numa relação intersubjetiva com ele, com aquilo que ele representa e da maneira como representa. Isso difere muito de uma abordagem domesticadora, através de respostas já definidas por uma tradição simbólica ou filosófica. Aprendi com um dos meus professores: a questão mais pertinente que uma obra de arte coloca não é, de saída, “o que significa isso” e sim “o que aconteceu comigo”. Quando Tillich descreve, em sua autobiografia, a experiência estética que o motivou a desenvolver uma teologia da cultura, é exatamente isto que ele diz: o que houve diante da Madona de Boticcelli foi um evento de revelação.


IHU On-Line – O que significa falar do Mistério a partir do cinema e como essa relação implica a cultura contemporânea, sobretudo tendo presente o fenômeno religioso?

Joe Marçal –
Em primeiro lugar, falar do mistério a partir do cinema significaria aceitar modestamente um mistério com “m” minúsculo, mais horizontal e ao alcance das pessoas. Trata-se de uma redução (e seria mesmo uma redução?) que reflete o esvaziamento de toda uma tradição simbólica e filosófica calcada numa metafísica positiva e objetivante. O cinema é, nesse sentido, um filho da modernidade, essencialmente herético, e uma das poucas formas artísticas que não consolidou absolutamente nenhuma vertente de expressão religiosa, o que é muito sintomático. Há, sim, toda uma cinematografia que mergulha no sentimento religioso como dado humano. Fora disso, filmes que pretenderam colocar o sagrado na positividade realista da imagem em movimento, tenderam, de forma geral, a uma grotesca representação idolátrica, ou ideológica. Quer dizer, como o próprio termo sugere, “mistério” (do grego, muein: “fechar os olhos, fechar a boca”) é, antes de tudo, uma experiência antropológica de fronteira da linguagem e do pensamento.


Criações simbólicas

Em sentido teológico, mistério caracteriza o que não pode ser dito e conhecido, ainda que vivido numa experiência. E quando falamos de cultura contemporânea, estamos destacando certos aspectos de nosso tempo: pluralidade, globalidade, deslocamento, secularização que, em grande medida, definem o fenômeno religioso hoje também numa fronteira de linguagem e pensamento. Num mundo de perplexidades, palavras e pensamentos se diluem. É verdade que há uma série de criações simbólicas que procuram erigir defesas contra esse vazio categorial, estético e moral que a realidade nos coloca. Essas criações apontam para uma realidade humana também, e devem ser consideradas. Mas, para além ou aquém desses sintomas, há sinais que nos dão conta de legítimas elaborações críticas e criativas dessa experiência de mistério. A estes sinais, a percepção teológica deve estar atenta.


IHU On-Line – A partir da noção de mistério, que aproximações se poderia fazer dos filmes O sacrifício, de Andrei Tarskovski (1986), e Árvore da vida, de Terrence Malick  (2011)?

Joe Marçal –
São duas aproximações a que esses filmes convidam: primeiro, pela via da poética da imagem, e segundo, pela narrativa que sugerem. A poética audiovisual tem neles um papel preponderante, que em muitos aspectos, substituem uma evidência figurativa e narrativa. São filmes que pretendem despertar uma atitude de olhar distinta, isto é, contemplativa. Um olhar assim tende ao mistério que permeia a realidade, as relações, os sentimentos humanos, considerando “mistério” toda aquela face com que a realidade nos emudece, nos cega, nos coloca diante da pergunta e da falta de sentido como experiência sensível e cognitiva ao mesmo tempo. Quanto à abordagem narrativa, trata-se de filmes cuja história não está pronta, ao menos não de forma evidente. A experiência deles no olhar espectador tem um papel criativo. São filmes que nos solicitam, na medida em que não nos colocam frente a algo acabado e definitivo. Nessa relação, a fronteira entre ficção e realidade se dilui, e a verdade de um mistério pode ser vivida nos sentimentos e pensamentos que o filme sugere em nós. Claro, disso depende nosso consentimento e participação daquilo que estes filmes nos convidam a experimentar.


IHU On-Line – Em sua análise, filmes como O sacrifício e Árvore da vida demonstram que vivemos, desde o limiar do século XXI, um retorno à dimensão religiosa? Como se caracteriza essa religiosidade?

Joe Marçal –
Estes filmes nos convidam a pensar em outros termos que num “retorno”. Creio que sejam antes indicativos de que em nenhum momento a religião, como dado humano, tenha deixado de estar presente em nosso contexto, ainda que sob novas demandas e expressões. Aspectos de como as religiões se organizam e são vivenciadas mudaram. Quaisquer “retornos”, mesmo que se ostensivamente referendadas pelo passado, implicam em transformação, pelo simples fato de surgirem em um novo momento histórico. Afirmar hoje a literalidade da Bíblia ou do Corão não atenderia às mesmas demandas e não teria os mesmos efeitos que há dez, cinquenta, cem anos. A religiosidade ou, em sentido mais amplo, a espiritualidade é algo constitutivo do ser humano, que nos coloca diante de um vazio sagrado, isto é, a percepção da incondicionalidade a que a existência está entregue, nos exigindo a coragem da fé aliada ao desejo como potencial autotranscendente da vida. Por isso, entendo que estes filmes remetem a uma cinematografia que, em meio à hipertrofia da modernidade, testemunha da dimensão religiosa da vida, a partir da qual nós reconhecemos nossas condições e, ao fazê-lo, as transcendemos efetivamente não através de dogmas, conceitos ou técnica, mas sim da poética.


Leia mais...

Joe Marçal
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line:

* “O Cristianismo tem por vocação atender às demandas de forma plural e diversa”. Entrevista especial com Joe Marçal. Notícias do Dia 21-08-2009

* 26ª edição dos Cadernos Teologia Pública: Um olhar teopoético. Teologia e cinema em O sacrifício de Andrei Tarkovski

* Diálogo inter-religioso: uma questão de saúde pública e planetária. Edição 302 da revista IHU On-Line

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