Edição 403 | 24 Setembro 2012

“A Igreja muda para poder continuar sendo Igreja”

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Márcia Junges e Luís Carlos Dalla Rosa

Igreja latino-americana sofre de “hipertrofia do doutrinal e do jurídico”, revela Mário de França Miranda. A caminhada é mais importante do que chegar, complementa

“No diálogo com as novas gramáticas da atualidade a Igreja poderia recuperar o sentido de seus símbolos através de uma mudança semiológica. Aí estão todos os esforços empreendidos por muitos na Igreja para valorizar e realizar as conquistas do Concílio Vaticano II”. A declaração é do teólogo Mário de França Miranda na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele acentua que existe um “tradicionalismo da letra que só empobrece o cristianismo, pois significa querer fossilizar uma configuração institucional de uma época desconhecendo as mudanças significativas ocorridas posteriormente na sociedade. De qualquer modo, aqui, como na vida espiritual, é mais importante caminhar do que chegar, sabendo que a Igreja existe por iniciativa de Deus que a conserva e renova, mais do que por nossas teologias e pastorais”.

Mário de França Miranda possui graduação em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, mestrado em Teologia, pela Faculdade de Teologia da Universidade de Innsbruck e doutorado em Teologia, pela Universidade Gregoriana. É professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio. É autor de várias obras, entre elas A existência cristã hoje (São Paulo: Edições Loyola, 2005), A Igreja numa sociedade fragmentada. Escritos eclesiológicos (São Paulo: Edições Loyola, 2006) e Aparecida: a hora da América Latina (São Paulo: Edições Paulinas, 2006).

Em 03-10-2012 Mário irá proferir a conferência A semântica do Mistério da Igreja no contexto das gramáticas contemporâneas. Uma nova configuração eclesial para hoje? O evento está marcado para as 14h, dentro do da programação do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. A programação completa pode ser conferida em http://bit.ly/rx2xsL. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor utiliza em seus trabalhos a expressão “configuração eclesial”. O que ela significa propriamente?

Mário de França Miranda – Quando tratamos da Igreja, que é uma realidade humano-divina, podemos distinguir, de um lado, seus componentes essenciais de cunho teológico e, de outro, o modo como eles se estruturam institucionalmente ao longo da história. Os primeiros são: a pessoa de Jesus Cristo, a proclamação da Boa Nova, a fé que a acolhe, a ação do Espírito Santo, a celebração da salvação cristã nos sacramentos, a formação de uma comunidade de fiéis, a saber, os componentes provindos do Novo Testamento que caracterizam e definem a Igreja. Porém estes dados teológicos, enquanto professados por uma comunidade humana, inserida numa época determinada e num contexto sociocultural concreto, irão buscar na cultura e na sociedade de então os componentes necessários que darão atualidade e manifestarão tais realidades salvíficas. Essa afirmação é comprovada pela própria história da Igreja que, sendo a mesma desde seu início até hoje, apresentou configurações diversas ao longo dos séculos, como a Igreja das catacumbas, da época patrística, do renascimento, até a dos nossos dias.

IHU On-Line – Com tantas questões presentes hoje na Igreja, por que centrar a atenção e o estudo em torno de uma configuração eclesial como o senhor vem demonstrando em suas publicações?

Mário de França Miranda – Simplesmente porque esta questão é tão central que envolve as demais. Vejamos. A Igreja deve sua razão de ser à necessidade de que a salvação realizada por Jesus Cristo não fique relegada a um evento do passado, mas permaneça presente para cada geração. Através de uma comunidade humana que se distingue das demais, ela torna atuais os valores do Reino de Deus, a ação de Deus na história, a realidade do amor fraterno, numa palavra, a sociedade alternativa querida por Deus para toda a humanidade. Assim todo o seu sentido é servir à sociedade como sinal e realização do desígnio salvífico divino na história. Para isso ela deve ser captada e entendida como tal pela sociedade. E como a história caminha, os contextos socioculturais se transformam, os desafios de cada época se sucedem, as linguagens mudam, deve ela também se transformar para ser uma realidade significativa para nossos contemporâneos. A Igreja muda para poder continuar sendo Igreja.

IHU On-Line – E se essa mudança não acontecer?

Mário de França Miranda – Então temos a pior das consequências: a Igreja já não consegue deixar transparecer fenomenologicamente sua realidade teológica, deixa de ser vitrine das maravilhas de Deus e passa a ser biombo, que mais as esconde do que revela. Ela não consegue traduzir institucionalmente sua verdade de plenitude, de realização, de salvação. Dá a impressão de uma entidade legada pelo passado, pesada, complexa, cheia de normas e proibições, que mais dificulta a vida humana (já tão difícil) do que a ajuda. Sua mensagem de vida não é confirmada por sua maneira de ser e de atuar. Ela deixa então de ser interessante, pertinente, significativa, para uma época. Aqui está a razão última da crise da Igreja em nossos dias.

IHU On-Line – Este fato já foi pressentido e tratado pelos responsáveis da Igreja?

Mário de França Miranda – Sem dúvida. Aí está a figura profética do Papa João XXIII  que proclamou um Concílio Ecumênico para dialogar com a sociedade e atualizar assim a instituição eclesial em muitos de seus componentes. Ele conhecia bem a história, sabia das razões que motivaram configurações eclesiais no passado, sentia que Igreja e sociedade estavam de costas uma para a outra, o que prejudicava a ambas. No diálogo com as novas gramáticas da atualidade a Igreja poderia recuperar o sentido de seus símbolos através de uma mudança semiológica. Aí estão todos os esforços empreendidos por muitos na Igreja para valorizar e realizar as conquistas do Concílio Vaticano II. Na América Latina a recepção deste Concílio deu lugar às Assembleias Episcopais do Celam, sobretudo às de Medellín , de Puebla  e de Aparecida . Esta última fala expressamente de renovação de mentalidades e de estruturas, demonstrando assim que os bispos participantes estavam conscientes deste problema.

IHU On-Line – Então por que se afirma que não houve mudanças significativas nos anos posteriores ao Concílio?

Mário de França Miranda – Certamente houve mudanças e nós todos as experimentamos como membros desta Igreja. Sem pretender ser exaustivo, poderia citar a renovação dos ritos litúrgicos, certa emergência do laicato na Igreja e de sua vocação missionária, a ênfase na formação bíblica e na importância da Palavra de Deus, a atenção ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, o reconhecimento da liberdade religiosa, a criação de organismos de participação, o interesse do laicato por uma teologia renovada, para só citar alguns exemplos. Mas esta renovação experimentou também resistências fortes que bloquearam muitos anseios dos padres conciliares, entre os quais a colegialidade episcopal, o respeito às Igrejas locais, a maior participação de leigos e leigas na vida da Igreja, a realização efetiva da inculturação da fé nas diversas regiões do planeta, para mencionar alguns exemplos.

IHU On-Line – E por que esta reação negativa diante das resoluções de uma assembleia tão importante como um Concílio Ecumênico? 

Mário de França Miranda – Trata-se de quase uma constante na história da Igreja: os anos seguintes aos Concílios Ecumênicos são tempos tumultuados com fortes debates sobre suas conclusões, rejeitadas mesmo por alguns de seus participantes que, até em casos extremos, deixam a Igreja. Pois o que é aprovado por uma maioria significa que houve uma recusa por meio de uma minoria. Paulo VI  tentou evitar esta dificuldade justapondo às afirmações da maioria também os desejos da minoria, no que resultou na presença de duas eclesiologias no Vaticano II e no uso posterior de textos conciliares pela minoria vencida nos votos. Sem dúvida esta minoria demonstrou sua força ao traduzir para o âmbito jurídico (Novo Código de Direito Canônico) as afirmações teológicas do Concílio, favorecida também pela ação centralizadora da Cúria Romana no pontificado de João Paulo II.

IHU On-Line – O senhor realmente acredita ser possível uma transformação institucional da Igreja que corresponda ao contexto sociocultural em que vivemos?

Mário de França Miranda – A história caminha milimetricamente, como me disse certa vez um historiador. Quer dizer, as mudanças não acontecem na velocidade que nós desejamos. O importante é manter a renovação em movimento. Não dominamos o futuro que pode nos trazer surpresas, embora os eventos decisivos da história tenham amadurecido durante anos antes de eclodirem. Por isso mesmo julgo muito importante manter acesa a chama renovadora do Concílio Vaticano II, sofrendo atualmente ataques de conservadores e provocando um autêntico conflito de interpretações em nossos dias. Não se trata de começar tudo do zero inaugurando uma ruptura com o passado, mas de recuperar as riquezas e os valores que marcaram a Igreja no primeiro milênio de sua história, como nos comprova a presença de textos da patrística nos documentos deste Concílio. Há um tradicionalismo da letra que só empobrece o cristianismo, pois significa querer fossilizar uma configuração institucional de uma época desconhecendo as mudanças significativas ocorridas posteriormente na sociedade. De qualquer modo aqui, tal como na vida espiritual, é mais importante caminhar do que chegar, sabendo que a Igreja existe por iniciativa de Deus, que a conserva e renova, mais do que por nossas teologias e pastorais. Desse modo, nossa oração também contribui para a renovação desejada.

IHU On-Line – Mais concretamente, o que deveria ser repensado, aprofundado, valorizado e realizado por parte dos responsáveis para que esta nova configuração possa se tornar realidade?

Mário de França Miranda – Pergunta difícil de ser respondida. Basta passar os olhos pelos textos do Concílio Vaticano II, das Conferências Episcopais do Celam, dos pronunciamentos do magistério eclesiástico, da produção teológica atual. Para não deixar a pergunta sem resposta o entrevistado deve ousar fazer uma opção pessoal, portanto subjetiva, que de modo algum exclui outras possibilidades de resposta, talvez melhores do que as suas. Dito isso, me aventuro responder a sua questão. Primeiramente creio que a Igreja latina sofre de uma hipertrofia do doutrinal e do jurídico, que lhe são necessários, mas que acabaram, por razões históricas, deixando em segundo plano a presença e a atuação do Espírito Santo na vida da Igreja. Este acabou confinado a iluminar a hierarquia, garantindo suas decisões, e a animar e fortalecer a vida espiritual dos fiéis. Esta perspectiva esquece que o Espírito atua em todos os membros da Igreja, distribuindo carismas para a edificação da comunidade, não só espiritualmente, mas também institucionalmente. Pois os membros da Igreja são também membros da sociedade, vivem, portanto, num contexto vital determinado, conhecem sua linguagem, suas luzes e sombras, seus anseios e seus valores, que devem ser levados a sério pela Igreja para que ela possa ser entendida e seguida por esta geração. Nesse sentido, dizemos que o Espírito é coinstituinte da Igreja através de sua ação contínua nos cristãos, como nos lembrava o grande eclesiólogo Yves Congar . Mas sua atuação só será frutuosa na medida em que o Espírito for ouvido e seguido ao interpelar a Igreja e levá-la a captar devidamente os sinais dos tempos. O Espírito é fonte de renovação e de vida também para uma configuração eclesial condizente para hoje. Determinar mais concretamente os traços culturais atuais que devam ser considerados pela Igreja extrapola o objetivo de uma entrevista. 

IHU On-Line – Além desta lacuna a ser corrigida, haveria mais algum ponto que lhe parece urgente para uma configuração adequada e atual da Igreja?

Mário de França Miranda – Sem dúvida. Primeiramente eu chamaria a atenção para a situação da fé em nossos dias. Passamos de uma época de cristandade que dava o respaldo da sociedade à fé do indivíduo para uma época marcada pelo pluralismo de mentalidades e pelo fim da hegemonia cristã na sociedade, também chamado de secularização. Neste momento a fé não é mais uma realidade tranquilamente herdada, mas aparece como uma opção livre com o risco inerente a toda opção pessoal. Situação nova e difícil para todos. Não foi por acaso que Bento XVI proclamou o Ano da Fé e escreveu o texto conhecido como Porta da Fé. Mas a fé como opção pessoal requer que a pessoa entenda a decisão que toma, só então poderá acolher livremente a oferta de salvação que lhe oferece esta fé. Tal afirmação tem consequências sérias, pois a linguagem eclesial deve ser compreendida pelos ouvintes e lhes dizer algo importante para suas vidas. Aqui está o problema, pois a diversidade do público é enorme (gerações, contextos culturais, situações vitais, etc.). Deve haver uma diversidade na proclamação que garanta sua pertinência sem, contudo, ameaçar a unidade e a verdade da fé. É o problema decorrente de sua inculturação. Aqui ganha importância não só a dimensão mística da fé, mencionada acima, como também o protagonismo de um laicato adulto. Vejo como decisiva a participação criativa de todos os fiéis nas expressões e nas práticas da fé cristã.

IHU On-Line – Não lhe parece que atualizar sua linguagem numa época marcada pela inflação de palavras que se contradizem e enfraquecem não bastaria para resolver a crise atual da Igreja que, para muitos, não mais aparece como sinal e sacramento da atuação vitoriosa de Deus na história, a saber, como uma realidade que aponta para o Transcendente numa sociedade que julga bastar-se a si mesma, dominada como está por uma racionalidade funcional e pragmática?

Mário de França Miranda – Eu concordo plenamente com sua objeção. As palavras hoje perderam muito de sua força. Fala-se e opina-se sobre tudo, e a mídia eletrônica agrava ainda mais esta situação. Mas existe uma realidade fundamental no cristianismo, embora pouco valorizada pela teologia, pela pastoral e mesmo pelo magistério, que merece um tratamento mais condigno. Refiro-me ao testemunho de vida. Foi através do testemunho de vida de Jesus Cristo, expresso em suas palavras e em seu comportamento, que os primeiros discípulos o seguiram e aprenderam a invocar Deus como Pai e a confessar Jesus Cristo como o Filho eterno de Deus. O cristianismo nasceu assim do testemunho. O testemunho de vida aponta para uma realidade transcendente, invisível, inacessível e a faz, assim, presente no mundo. Daí a importância da vida de cristãos autênticos para a Igreja, mesmo que em vida não sejam devidamente reconhecidos pelas autoridades. Pois em nossos dias tem mais força o que a Igreja faz do que o que a Igreja diz. É importante que ela testemunhe a verdade da fé cristã na promoção efetiva de uma humanidade mais fraterna (Reino de Deus), pois nossos contemporâneos são sensíveis a estes gestos. Mas também que ela testemunhe Deus como fonte da gratuidade de seus gestos que não buscam eficácia e resultados, tais como a oração, a caridade fraterna, a humildade, as celebrações da fé, a proximidade com os pobres e excluídos.

Leia mais...

Mário de França Miranda já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* “A Igreja não dispõe nem de poder nem de solução mágica para resolver a questão da maioria de seus fiéis, que são pobres”. Edição 219, de 14-05-2007, disponível em http://bit.ly/StmuCn 

* Um teólogo da modernidade. Edição 297, de 15-06-2009, disponível em http://bit.ly/QTutLM 

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