Edição 403 | 24 Setembro 2012

O ocaso de um Deus newtoniano

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges / Tradução: Luís Marcos Sander

Quando não encontram explicação através da ciência, as pessoas recorrem ao “Grande Deus das Lacunas”, afirma George Coyne. O caminho para Deus não pode ser aberto através do raciocínio, mas através de um movimento vindo Dele, num universo criativo

Um Deus cuja liberdade infinita prossegue criando o mundo de dentro dele. Isso “reflete essa liberdade em todos os níveis do processo evolutivo para uma complexidade cada vez maior”, pondera o astrofísico jesuíta George Coyne na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Deus deixa que o mundo seja o que ele será em sua evolução contínua. Ele não intervém, mas, antes, permite, participa, ama”, pontua. De acordo com o cientista, é somente através de analogias que podemos “conhecer Deus”: “O universo assim como o conhecemos atualmente através da ciência é uma das formas de derivar conhecimento analógico de Deus”. 

Coyne analisa o legado teológico e filosófico do também jesuíta Teilhard de Chardin, e adverte: “Se respeitam os resultados da ciência moderna, os crentes religiosos têm de se afastar da noção de um Deus ditador, um Deus newtoniano que fez o universo como um relógio que continua a tiquetaquear regularmente. Talvez se devesse ver Deus mais como aquele que, a partir de dentro do universo, incentiva seu desenvolvimento e o sustenta. A Escritura é muito rica nestes pensamentos. Ela apresenta, de fato antropomorficamente, um Deus que fica irado, que disciplina, um Deus que cuida do universo. Deus está atuando com o universo”.

George Coyne é matemático com doutorado em astronomia. Foi diretor do Observatório do Vaticano por 25 anos. Em 2009, recebeu o prêmio Van Biesbroeck da Associação Americana de Astronomia por relevantes serviços prestados. Defensor do darwinismo trabalha com o diálogo entre fé e ciência, na Universidade do Arizona, localizada na cidade de Tucson, Estados Unidos. 

No dia 03-10-2012, às 9h, irá proferir na Unisinos a conferência Implicações da evolução científica para as semânticas da fé cristã. À noite, às 19h30min, participará com Marcelo Gleiser da mesa redonda Fé e ciência: um diálogo possível? 

Ambas atividades são parte do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. Acesse a programação completa em http://bit.ly/rx2xsL.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as principais implicações da evolução científica para as semânticas da fé cristã?

George Coyne - Só podemos chegar a conhecer Deus por analogia. O universo assim como o conhecemos atualmente através da ciência é uma das formas de derivar conhecimento analógico de Deus. Para as pessoas que creem, a ciência moderna efetivamente nos diz algo sobre Deus; ela coloca um desafio, um desafio enriquecedor, para as crenças tradicionais sobre Deus. Deus, em sua liberdade infinita, cria continuamente um mundo que reflete essa liberdade em todos os níveis do processo evolutivo para uma complexidade cada vez maior. Deus deixa que o mundo seja o que ele será em sua evolução contínua. Ele não intervém, mas, antes, permite, participa, ama. Esse pensamento é adequado para preservar o caráter especial atribuído pelo pensamento religioso ao surgimento não só da vida, mas também do espírito, evitando, ao mesmo tempo, um criacionismo grosseiro? Só um diálogo prolongado dará a resposta.

IHU On-Line - É possível um autêntico e profícuo diálogo entre fé e ciência?

George Coyne - Sim, ele já está acontecendo em muitos institutos que se dedicam justamente a esse diálogo, por exemplo, o Observatório do Vaticano, o Centro de Teologia e Ciências Naturais de Berkeley, na Califórnia, o Centro de Teologia e Ciência de Princeton, o Instituto Copernicano de Cracóvia, na Polônia, etc. Temos de continuar a dialogar para entender até que ponto o pensamento religioso pode dar uma contribuição para nossa compreensão científica das origens e da evolução da vida no universo derivada da astrofísica e da cosmologia. E, por outro lado, até que ponto aquilo que sabemos da ciência pode ter um impacto sobre nossas atitudes religiosas.

IHU On-Line - Quais são os avanços e retrocessos nesse sentido nos últimos anos?

George Coyne - Os retrocessos surgiram do fato de que a dupla questão colocada em minha resposta à segunda pergunta corre o sério risco de transgredir a independência epistemológica das várias disciplinas: teologia, filosofia, astrofísica e cosmologia, criando, com isso, mais confusão do que compreensão. O diálogo sempre deve manter uma postura coerente no sentido de preservar a integridade de cada uma das disciplinas. Os avanços foram muitos. Um excelente exemplo se vê na série de cinco volumes que resultaram de conferências feitas no Observatório do Vaticano sobre “Perspectivas científicas sobre a ação divina”: Quantum Cosmology and the Laws of Nature [A cosmologia quântica e as leis da natureza], Chaos and Complexity [Caos e complexidade], Evolutionary and Molecular Biology [Biologia evolutiva e molecular], Neuroscience and the Person [A neurociência e a pessoa], Quantum Mechanics [Mecânica quântica] (Vatican City: Vatican Observatory Publications 1993-2001; distribuída pela Notre Dame Unversity Press, de Notre Dame, Indiana, EUA).

IHU On-Line - Poderia explicar por que o senhor não vê conflitos entre o conhecimento religioso e o conhecimento científico, mas sim desafios?

George Coyne - Repito minha resposta à pergunta acima. A suposição é que existe uma base universal para nossa compreensão e, como essa base não pode ser autocontraditória, a compreensão que temos a partir de uma disciplina deveria complementar aquela que temos a partir de todas as outras disciplinas. Somos mais fieis à nossa própria disciplina, sejam as ciências naturais, as ciências sociais, a filosofia, a literatura, o pensamento religioso, etc., se aceitamos esta base universal. Isto significa na prática que, ao mesmo tempo em que permanecemos fieis aos critérios rigorosos da verdade de nossa própria disciplina, estamos abertos para aceitar o valor de verdade das conclusões de outras disciplinas. E esta aceitação não deve ser somente passiva, no sentido de não negarmos estas conclusões, mas também ativa, no sentido de integrarmos estas conclusões nas conclusões derivadas de nossa própria disciplina.

IHU On-Line - Como analisa o fundamentalismo ateísta?

George Coyne - Temos de dialogar com eles. Eles têm uma influência muito grande, e suas concepções fazem com que seja difícil – mas não impossível – dialogar.

IHU On-Line - Por que Dawkins  e Hawking  não entendem o que é a fé religiosa? Essa postura é recorrente entre outros cientistas? Por quê?

George Coyne - Não se trata de uma questão de compreensão, mas de aceitação, de uma abertura para a experiência do amor de Deus. O primeiro movimento em qualquer relação religiosa vem de Deus mesmo. Deus toma a iniciativa primeiro. Nós não abrimos nosso caminho até Deus raciocinando, não obtemos nosso caminho até Deus por mérito, não fazemos nada para merecer que Deus se dê a nós e nos chame para fazer parte de seu povo eleito. O primeiro movimento sempre é de Deus, e jamais podemos colocar Deus sob nosso controle à força. Uma espécie de idolatria está sempre presente na cultura religiosa. Nós queremos colocar Deus sob nosso controle. Esse é o tipo de atitude que muitos crentes têm, e ela revela exatamente essa espécie de idolatria. Há uma outra espécie de idolatria, associada com a ciência moderna. Esta é a idolatria de tornar Deus uma “explicação”. Recorremos a Deus para tentar explicar coisas que não sabemos explicar de outra forma. “Como o universo começou?” ou “como chegamos a existir?”. Há muitas dessas perguntas. Nós nos aferramos a Deus, especialmente se achamos que não temos uma explicação científica boa e razoável. Recorremos a ele como o Grande Deus das Lacunas. Não sei com que frequência o ateísmo ocorre entre os cientistas.

IHU On-Line - Quais são os principais desafios que a Igreja tem pela frente em função das novas gramáticas que brotam da civilização tencocientífica? Quais seriam as principais novas gramáticas?

George Coyne - Não se trata só de uma questão de gramáticas, de palavras, e sim de uma postura fundamental para com a plenitude da experiência humana, a busca de sentido último. As concepções de João Paulo II  sobre a relação entre ciência e fé e sobre a busca de sentido último se encontram em muitas de suas mensagens dirigidas a comunidades universitárias e a cientistas. A ideia principal da encíclica papal Fides et Ratio , que, no crepúsculo de seu papado, resume seu pensamento sobre a relação entre fé e razão, é um pedido para que não percamos a busca da verdade última. Ele afirma, por exemplo: “Ela [a Igreja] vê na filosofia o caminho para conhecer verdades fundamentais relativas à existência do ser humano [...] desejo [...] debruçar-me sobre esta atividade peculiar da razão. Faço-o movido pela constatação, sobretudo em nossos dias, de que a busca da verdade última aparece muitas vezes ofuscada” [versão constante no sítio do Vaticano].

IHU On-Line - Como Igreja, cultura e sociedade se entrelaçam em nosso tempo e quais são as possibilidades de diálogo que surge entre tais setores?

George Coyne - Esta é uma questão enorme. O que queremos dizer com “nosso tempo”? Onde em nosso tempo: Roma, São Leopoldo, Nova Iorque, Beijing, etc.? Suponho que para nós “Igreja” signifique todas as pessoas do povo de Deus que verdadeiramente aceitaram o amor de Deus por elas. Há, então, esperança de diálogo, mas é preciso evitar os extremos do fundamentalismo, cientificismo, fideísmo.

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é a importância e atualidade do pensamento de Teilhard de Chardin ?

George Coyne - Eu diria que seu pensamento é de imensa importância, mas, em minha opinião, sua influência é mais a de um místico do que a de um cientista ou teólogo, embora ele fosse ambas as coisas. Não obstante, Teilhard compreendeu que há boas evidências científicas de que a emergência atua. Mas atua a que altura na hierarquia do ser? O espírito poderia emergir da matéria? E a emergência é uma característica intrínseca de sistemas vivos? Voltando à pergunta anterior, enquanto a Igreja Católica finalmente esclareceu sua posição sobre a evolução científica, ela é menos receptiva em relação à emergência no processo evolutivo, especialmente no tocante às origens do ser humano.

IHU On-Line - A ideia de universo fértil, dinâmico e criativo tem alguma proximidade como o panenteísmo? Por quê?

George Coyne - Eu diria que sim. O panenteísmo, sem negar a transcendência de Deus, fala de Deus no universo e do universo em Deus. Para o crente religioso, a ciência moderna revela um Deus que fez um universo que tem dentro de si uma criatividade própria e, assim, participa da criatividade do próprio Deus. Essa concepção de criação se encontra em escritos dos primórdios do cristianismo, especialmente naqueles de Santo Agostinho , em seus comentários sobre Gênesis. Se respeitam os resultados da ciência moderna, os crentes religiosos têm de se afastar da noção de um Deus ditador, um Deus newtoniano que fez o universo como um relógio que continua a tiquetaquear regularmente. Talvez se devesse ver Deus mais como aquele que, a partir de dentro do universo, incentiva seu desenvolvimento e o sustenta. A Escritura é muito rica nestes pensamentos. Ela apresenta, de fato antropomorficamente, um Deus que fica irado, que disciplina, um Deus que cuida do universo. Deus está atuando com o universo. O universo tem certa vitalidade própria porque Deus está continuamente criando dentro dele e com ele.

Leia mais...

>> George Coyne já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

* Teilhard e a teoria da evolução. Edição 143 da revista IHU On-Line, de 30-05-2005, disponível para download em http://migre.me/11DRM;

* Fé e ciência: um diálogo em construção. Edição 304 da revista IHU On-Line, de 17-08-2009, disponível em http://bit.ly/oH8w3t 

 

>> Confira outros materiais publicados sobre George Coyne no site do IHU:

* A substituição do astrônomo do Vaticano. “Darwinista demais?”. Publicada nas Notícias do Dia, em 26-08-2006, disponível em http://bit.ly/OaNHOW 

* Jesuíta afirma que caso existam, os extra-terrestres também seriam filhos de Deus. Publicada nas Notícias do Dia, em 26-08-2006, disponível em http://bit.ly/QlnA6t 

* Universo fértil. Entrevista com George Coyne. Publicada nas Notícias do Dia, em 05-07-2009, disponível em http://bit.ly/SZeBuX 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição