Edição 403 | 24 Setembro 2012

“A Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio o pluralismo”

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Márcia Junges e Luís Carlos Dalla Rosa / Tradução: Vanise Dresch

A humanidade é chamada à santidade, e a Igreja reúne aqueles que se “deixam animar pelo Espírito de Cristo”, frisa Paul Valadier. Contudo, essa instituição deve admitir um “justo pluralismo” para ter credibilidade. Mas essa “revolução copernicana” ainda levará tempo

“A Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio um justo pluralismo, segundo sua longa tradição, que sempre aceitou a vasta pluralidade das liturgias (...), assim como admitiu espiritualidades diversas e ordens religiosas de estilos de vida tão diferentes! Aceitar tal pluralismo pressuporia, da parte da hierarquia, uma escuta deliberada do povo de Deus, movido pelo Espírito, abandonando a arrogância, muito romana, daqueles que creem estar acima, quando, em princípio, são servidores. Uma revolução copernicana como essa é improvável de imediato. No entanto, é uma condição de sobrevivência do catolicismo num mundo pluralista que suporta cada vez menos o autoritarismo de uma minoria apartada das raízes vivas da vida cristã e, por essa razão, cada vez menos ‘reconhecida’ pelos fiéis, sem falar das outras”. As afirmações foram dadas à IHU On-Line em entrevista concedida por e-mail pelo filósofo francês Paul Valadier, padre jesuíta. Ele pondera que uma sociedade pluralista traz em si os riscos de fragmentação, de dispersão e “induz quase fatalmente ao relativismo, em que cada um é remetido a si mesmo, isto é, conta com sua solidão, para decidir sobre suas escolhas de vida”. Ele adverte que somente uma autêntica abertura ao Outro e à solidariedade serviriam como antídoto a tal realidade.

Paul Valadier é professor emérito de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Escreveu, entre outros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); La part des choses. Compromis et intransigeance (Paris: Lethielleux – Groupe DDB, 2010) e Elogio da consciência (São Leopoldo: Unisinos, 2001).

No dia 04-10-2012, às 19h30min, Valadier irá proferir a conferência Crise da racionalidade, crise da religião: desafios e perspectivas para o discurso cristão na atualidade. No dia anterior, às 14h30min, falará sobre O Mistério da Igreja, hoje. Uma leitura a partir de Inácio de Loyola. Ambas atividades fazem parte do XIII Simpósio Internacional IHU Igreja, cultura e sociedade. A semântica do Mistério da Igreja no contexto das novas gramáticas da civilização tecnocientífica. Confira a programação completa em http://bit.ly/rx2xsL.

Confira a entrevista.

Antes de responder às questões propostas pela IHU On-Line, Valadier fez a seguinte ponderação: “Para responder às perguntas relativas à relação atual da Igreja Católica com ‘o mundo’, ou seja, com o universo da cultura, das mentalidades, dos costumes, é preciso, primeiramente, convencer-se de que nunca houve situação calma ou sem problemas na história da Igreja. Não pode ser diferente, e dever-se-ia até mesmo desconfiar de um estado de coisas em que a mensagem evangélica e a própria Igreja em toda a sua complexidade fossem admitidas pela sociedade sem problemas. A tensão é benéfica e, sem ela, o Evangelho e seu ‘escândalo’ (Sermão sobre a Montanha, a Cruz e a Ressurreição) seriam extintos, ‘digeridos’, assimilados, em suma, não seriam mais essa força da Palavra de que toda sociedade precisa para não adormecer”.

IHU On-Line – Levando em conta o atual contexto de mundo e de Igreja, quais são os desafios e as perspectivas para o discurso cristão nessa pluralidade?

Paul Valadier – Nossa época vive tensões e dificuldades específicas. Tais tensões e dificuldades não me parecem provir principalmente das ciências, contrariamente a outros momentos de grandes desenvolvimentos dessas ciências, muitas vezes contra a fé estabelecida (séculos XVIII e XIX, por exemplo). Por certo, a biologia, a genética ou as nanociências não deixam de levantar questões vastas e difíceis: não somente para a fé, mas também para qualquer homem ou mulher que se preocupe – ou ao menos se interrogue – com as transformações que tais ciências e tecnologias lhe preparam, afetando até mesmo sua mais profunda identidade. No entanto, trata-se menos de contestar essas disciplinas enquanto tais do que se questionar sobre o alcance humano – portanto, ético e moral – de suas empreitadas: Aonde levam? Que tipo de humanidade elas nos preparam? Será que não correm o risco de provocar uma manipulação do ser humano absolutamente temível para o futuro do homem neste planeta? 

Tais questões dizem respeito a todo mundo, não somente aos crentes. Elas requerem uma grande vigilância ética, e, a meu ver, nesse ponto, a tradição católica não está mal situada para ajudar nossas consciências a não se deixarem levar pelo cientificismo e a não aceitarem todo e qualquer pretenso “progresso” como um avanço certo da humanidade. Interrogar-se em vez de aplaudir ingenuamente é, afinal, uma atitude ética de grande alcance, desde que isso seja feito com conhecimento de causa, e não formulando ditames cegos em relação às realidades envolvidas.

IHU On-Line – Tendo em conta a contemporaneidade, em que se sobressai uma cultura do plural, da fragmentação, do relativismo, do niilismo, numa sociedade que se pauta em princípios como os da autonomia, da democracia, da pluralidade, qual o lugar e a tarefa da fé cristã?

Paul Valadier – São antes os costumes e suas evoluções que me parecem causar mais problemas à Igreja Católica e, aliás, aos crentes em geral. Uma sociedade pluralista traz em si os riscos de fragmentação, de dispersão; ela induz quase fatalmente ao relativismo, em que cada um é remetido a si mesmo, isto é, conta com sua solidão, para decidir sobre suas escolhas de vida. Essa “centragem” em si mesmo decorre também da suspeita que têm nossas sociedades em relação às instituições religiosas, consideradas sem crédito ou objeto de desconfiança. Pensando estarem emancipando-se dessas autoridades, muitos de nossos contemporâneos acabam, na verdade, sem bússola ou então seguem aquela do partidarismo, do gregarismo, do conformismo em relação às modas, às correntes de pensamento, às injunções de diversos grupos de pressão. Simplesmente, são também manipulados pela publicidade e pelo apetite de consumo (que, aliás, os arruínam, incentivando-os a se endividarem indiscriminadamente, como vimos na recente crise financeira mundial). O individualismo largamente compartilhado nas sociedades ditas desenvolvidas leva a pôr os interesses próprios em primeiro plano, de modo que as perspectivas do bem público ou dos interesses coletivos enfraquecem, ou até mesmo perdem qualquer pertinência. 

Ora, tal atitude é diretamente oposta às perspectivas evangélicas que solicitam que o indivíduo “se perca” para “se encontrar”, para não dizer que entram em contradição com as perspectivas mais tradicionais da regra de ouro (não fazer a outrem aquilo que tu não gostarias que te fizessem, ou na versão positiva do Evangelho).

Tentações niilistas

Assim, a Igreja não deve renunciar a propor sua mensagem altruísta; ela deve supor que, com o passar do tempo, o individualismo se torna sufocante, os seres humanos não conseguem mais bem viver fechados em si mesmos. Ela deve, pois, proclamar essa mensagem tanto no nível da sexualidade e das relações entre homens e mulheres (nenhum amor é possível sem sacrifício de si mesmo e sem abertura ao Outro) como no nível da solidariedade internacional (nenhuma nação pode “salvar-se” sozinha, esquecendo as solidariedades mundiais) e do respeito ao nosso meio ambiente e à natureza em geral. 

Por certo, a Igreja precisa fazê-lo com credibilidade. Não amenizando as exigências de uma vida verdadeira e feliz, mas adotando um discurso de encorajamento, de esperança, de élan vital, como faz Jesus com notável constância. Não condenando ou designando o mal para melhor confundi-lo, mas convidando o indivíduo a erguer-se, a tomar as rédeas, a ir em frente, a enfrentar os fracassos e a morte, partindo do pressuposto de que o grão que morre (aparentemente) dá fruto em longo prazo. Se obviamente não é fácil vencer as tentações niilistas, pelo menos não devemos encorajá-las, arrasando nossos contemporâneos com palavras pessimistas, condenações inflexíveis, tampouco referindo-nos insensatamente às nossas sociedades como “culturas de morte”. Se esse diagnóstico catastrófico fosse verdadeiro, o niilismo, que, na realidade, inspira secretamente a expressão “cultura de morte”, teria triunfado. E a esperança evangélica da mecha ainda acesa estaria extinta.

Utopias mortíferas

Inversamente a essas tendências mórbidas, a fé cristã pode desempenhar um papel essencial numa cultura pluralista, se ela não tiver a pretensão de propor uma Verdade sobrepujante, e sim uma mensagem de automobilização positiva, fecunda, chamando cada indivíduo a ser criador e afirmador (numa linha, paradoxalmente, bastante próxima de Nietzsche , que bem diagnosticou os riscos de arrasamento das sociedades pluralistas e complexas). Se o ser humano é à imagem e à semelhança de um Deus criador, como não ser criador ele mesmo, se mobilizar suas aptidões e obrigar-se a colaborar com o maior número com vistas a um mundo mais justo e pacífico? Sem crer que o futuro reserva dias melhores, tampouco crer naquelas utopias mortíferas que muito marcaram o século XX, mas empenhando-se aqui e agora a fazer com que a violência recue, mesmo sabendo que ela sempre ressurgirá sob novas formas!

IHU On-Line – Como percebe o Mistério da Igreja hoje, a partir de uma leitura de Inácio de Loyola? Que contribuições ele tem a dar ao mundo de hoje?

Paul Valadier – É justamente por isso que a espiritualidade inaciana encontra sua plena atualidade. Contra o humor moroso de um jansenismo  latente e do rigorismo moral – estes tão funestos para a difusão da fé cristã, mas sempre presentes em diversas posições teológicas ou filosóficas, inclusive no ensinamento moral do Magistério romano – essa espiritualidade convida o homem a abrir-se para o desejo de Deus, para si e para o mundo, mobilizando sua afetividade, suas capacidades intelectuais e sua vontade para descobrir o que deve ser feito aqui e agora. Ela defronta cada indivíduo com sua vocação própria e única, mergulhando-o, portanto, na atualidade histórica em que a graça de Deus o chama a ser, em vez de cair no vazio (naquele do pecado), a viver, ou de perecer, conforme a antiga sabedoria bíblica. Aquele que experimentou os Exercícios Espirituais de Santo Inácio descobriu a força e a pertinência de uma espiritualidade que não arrasa nem condena, mas convida a dizer sim à graça de Deus, que chama cada indivíduo, concretamente, a responder da sua maneira singular e única (carisma de cada cristão no Corpo de Cristo, segundo a grande visão de São Paulo).

É, sem dúvida, desse modo que se pode melhor vislumbrar o Mistério da Igreja. Não se trata, aqui, de opor uma Igreja histórica e humana, portanto, pecadora, a uma Igreja santa, invisível e oculta, misteriosa. O ser humano que é chamado à sua divinização, para falarmos como os Padres Gregos, é o homem em suas tentativas e erros, ou mesmo em suas fraquezas, que é solicitado pela graça divina e que responde a ela quando obedece ao seu desejo de viver e de viver bem (de maneira santa), desejo este que está profundamente arraigado nele, pois vem de Deus mesmo. O Mistério da Igreja está justamente no fato de que os pobres homens que somos nós sejam chamados desde já a “serem santos como Deus é santo”. A Igreja é a reunião misteriosa de todos aqueles e de todas aquelas que se deixam animar pelo Espírito de Cristo, que os busca lá onde eles estão, logo, em sua humanidade pecadora, hesitante, medrosa, fechada em si mesma, mas chamada à santidade!

Estruturas eclesiásticas esclerosadas

Todavia, deveria ser óbvio que, mesmo sem ter de conformar-se com o mundo atual, a Igreja não pode anunciar a mensagem da qual é portadora se ela mesma não se deixar marcar pelo Evangelho. Como na época de Inácio, mas de formas diferentes, a Igreja precisa reformar-se, converter-se, abrir-se para o Espírito. Isso é, na verdade, uma banalidade. Mas suas consequências são significativas. Inácio inventou meios para uma transformação da Igreja, fazendo um apelo à missão apostólica de um papado considerado irreformável por outros (Lutero ). Nossa situação não é mais a mesma, mas, como Inácio, convém certamente chamar a Igreja a cumprir a sua própria missão. Esta foi muito significativamente esclarecida e atualizada pelo Concílio Vaticano II . 

Como anda a abertura às grandes decisões desse Concílio? Os questionamentos sobre mentalidades e estruturas eclesiásticas esclerosadas continua? Não se está presenciando antes uma preocupante restauração, incentivada pelas mais altas autoridades da Igreja? Restauração imposta que, como vemos nos Estados Unidos, ameaça religiosas devotadas que dedicaram uma vida inteira aos outros e são amplamente reconhecidas pela opinião pública . Restauração sorrateira, quando a hierarquia romana incentiva as forças mais tradicionais e fechadas entre os fiéis ou no seio da sociedade.

Ora, a Igreja Católica só terá credibilidade se admitir em seu seio um justo pluralismo, segundo sua longa tradição, que sempre aceitou a vasta pluralidade das liturgias (não só no Oriente, mas também no Ocidente antes do Concílio), assim como admitiu espiritualidades diversas e ordens religiosas de estilos de vida tão diferentes! Aceitar tal pluralismo pressuporia, da parte da hierarquia, uma escuta deliberada do povo de Deus, movido pelo Espírito, abandonando a arrogância, muito romana, daqueles que creem estar acima, quando, em princípio, são servidores. Uma revolução copernicana como essa é improvável de imediato. No entanto, é uma condição de sobrevivência do catolicismo num mundo pluralista que suporta cada vez menos o autoritarismo de uma minoria apartada das raízes vivas da vida cristã e, por esta razão, cada vez menos “reconhecida” pelos fiéis, sem falar das outras. Para tanto, precisamos de outro Inácio, se quisermos evitar o surgimento de outro Lutero.

Leia mais...

>> Paul Valadier já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 127 da Revista IHU On-Line, de 13-12-2004, disponível em http://migre.me/2UcuT 

* O futuro da autonomia, política e niilismo. Publicada na edição 220 da Revista IHU On-Line, de 21-05-2007, disponível em http://migre.me/2UcD0 

* “A esquerda francesa está perdida”. Publicada nas Notícias do Dia do site do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em 27-05-2007, disponível em http://migre.me/2UcJF 

* Narrar Deus no horizonte do niilismo: a reviviscência do divino. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009, disponível em http://migre.me/2Ucfv 

* O desejo e a espontaneidade capciosa. Publicada na edição 303 da Revista IHU On-Line, de 10-08-2009, disponível em http://migre.me/2Ucp4 

* A intransigência e os limites do compromisso. Publicada na edição 354 da Revista IHU On-Line, de 20-10-2010, disponível em http://bit.ly/gCw5c5 

* A filosofia precisa de mais audácia. Publicada na edição 379 da Revista IHU On-Line, de 07-11-2011, disponível em http://bit.ly/vRCiHC 

 

>> Paul Valadier tem duas publicações pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Confira.

* Investidas contra o Deus moral obsessivo. Publicada na edição 15 dos Cadernos IHU em Formação, disponível em http://migre.me/2UcNZ 

* A moral após o individualismo: a anarquia dos valores. Publicada na edição 31 dos Cadernos Teologia Pública, disponível em http://migre.me/2UcRT 

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