Edição 401 | 03 Setembro 2012

As mulheres e a Igreja: “sinais dos tempos”

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Graziela Wolfart e Luis Carlos Dalla Rosa | Tradução de Regina Reinart

Na visão de Margit Eckholt, o chamado aggiornamento do Concílio Vaticano II com os temas do serviço ao Evangelho e a abertura frente ao moderno, justamente para as mulheres, é o ponto de partida decisivo para o seu posicionamento na Igreja Católica

O que a teóloga alemã Margit Eckholt deseja atualmente é “um estudo profundo e diferenciado dos textos e dos impulsos seguintes ao Concílio Vaticano II, que contribuam para que as portas da Igreja permaneçam abertas a serviço do Evangelho e do ser humano”. Na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line ela argumenta que “em uma sociedade mundial cada vez mais polarizada e dividida, a Igreja é autêntica quando abre fronteiras, constrói pontes, oferece reconciliação, pratica hospitalidade, e quando ela permite a si mesma ser continuamente aberta pelo ‘estranho’”. Justamente isso, continua, o Concílio pode nos ensinar: “viver do Espírito do ‘novo Pentecostes’, na profunda ancoragem no movimento da encarnação do Evangelho”.

Margit Eckholt é professora de Teologia Dogmática e Fundamental na Universidade de Osnabrück, Alemanha. Estudou teologia católica, línguas românicas e filosofia na Universidade de Tübingen. Ela estará na Unisinos no próximo mês de outubro, participando como painelista do Congresso Continental de Teologia, abordando o tema “O Concílio Vaticano II e as mulheres”. Saiba mais em http://bit.ly/q7kwpT.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Neste ano em que celebramos o 50º aniversário de abertura do Concílio Vaticano II, como a senhora avalia esse importante acontecimento da Igreja a partir da ótica da mulher?

Margit Eckholt –
O Concílio Vaticano II é tido como um novo Pentecostes. Foi um “evento do Espírito”, especialmente da perspectiva das mulheres. Devemos enfatizar isso junto com João XXIII e os muitos intérpretes do Concílio em relação a seu traço nos tempos atuais de conflito da interpretação do próprio evento. O Vaticano II tem construído os pontos definidores para o diálogo da Igreja com o mundo moderno, assim como tem posicionado a Igreja em um novo relacionamento com este. Ele tem articulado os sinais dos tempos e, pela análise destes, a Igreja tem que determinar a sua forma social de uma nova maneira. Nesse sentido, a questão da mulher foi entendida por João XXIII e pelo Concílio como um sinal dos tempos. Desde o Vaticano II, as mulheres foram se tornando mais e mais visíveis dentro da Igreja. Elas lutaram por novos lugares e espaços na instituição. Por um lado, o aggiornamento do Concílio significava que a Igreja novamente deveria se entender a partir de suas fontes, que estivesse a serviço do Evangelho e da transmissão da Palavra de Deus que dá vida; por outro lado, ele significou que a Igreja deve se posicionar de uma maneira nova frente às questões do mundo moderno – a liberdade, os direitos humanos, a democracia, o pluralismo. No entanto, a questão da mulher na Igreja e na sociedade está longe de ser resolvida. Por isso este aggiornamento do Concílio com os dois temas de referência mencionados, o serviço ao Evangelho e a abertura frente ao mundo, justamente para mulheres, é o ponto de partida decisivo para o seu posicionamento na Igreja Católica.


IHU On-Line – Qual foi a influência das mulheres para o destino do Concílio, tendo em conta os movimentos laicais oriundos da Ação Católica?

Margit Eckholt –
O Concílio Vaticano II não foi um concílio das mulheres nem sobre mulheres, mas pela primeira vez falou-se delas. Certamente isso se deu graças à visibilidade e presença delas no Concílio. Ainda na fase de preparação, mulheres isoladas como a suíça Gertrud Heinzelmann, bem como associações e organizações, como as duas principais associações de mulheres católicas alemãs – a Associação Feminina Católica Alemã (Katholischer Deutscher Frauenbund, KDFB) e a Comunidade Feminina Católica Alemã (Katholische Frauengemeinschaft Deutschlands, KFD) – participaram da comissão de preparação. Pela primeira vez num Concílio na era moderna participaram mulheres como convidadas e auditoras presentes. Paulo VI nominou no dia 20 de setembro de 1964, para o terceiro período das reuniões do Concílio, oito religiosas e sete mulheres presidentes de organizações católicas – solteiras e viúvas – como auditoras. No dia 25 de setembro de 1964, a francesa Marie Louise Monnet, irmã do pensador e lutador francês pela Europa, Jean Monnet , e fundadora e presidente do movimento internacional para o apostolado em meios sociais independentes, participou como a primeira mulher em uma reunião conciliar. Entre as religiosas participaram predominantemente superioras e conselheiras gerais, como a Ir. Mary Luke Tobin, a geral das Irmãs de Loreto e presidente da Conferência das Instituições Religiosas dos Estados Unidos, ou a irmã M. Juliana de Nosso Senhor Jesus Cristo, a superiora das Servidoras Pobres e secretária geral da União das Superioras da Alemanha. Durante o terceiro período das reuniões se juntaram mais três mulheres, entre elas Marie Vendrik, da Holanda, presidente da associação mundial católica de mulheres jovens e meninas, e durante o quarto período de reuniões mais cinco mulheres, entre elas uma religiosa da Índia, uma segunda auditora alemã, a presidente da associação feminina católica alemã, Dra. Gertrud Ehrle. Agora também uma mulher casada, a mexicana Luz-Marie Alvarez-Icaza, que junto com o seu esposo foi nominada. Além disso, mais duas mulheres latino-americanas foram convocadas como auditoras: a argentina Margarita Moyano Llerena, e a uruguaia Gladys Parentelli.


Mulheres superativas no acontecimento do Concílio

Dos relatórios das mulheres se destaca que as auditoras foram tratadas como peritas e foram participantes superativas no acontecimento do Concílio. Elas se encontraram em grupos de trabalho, consultaram de maneira engajada com os bispos e participaram em subcomissões individuais, sobretudo nas consultas do decreto sobre o apostolado dos leigos e da Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. A maioria das mulheres assumiu tarefas de liderança nas organizações da Ação Católica, em associações católicas de mulheres e congregações femininas; elas informaram intensivamente sobre os desenvolvimentos do Concílio nas suas terras de origem; as duas associações femininas católicas alemãs mantiveram informes regulares nas revistas das suas associações sobre o Concílio. Mesmo que o verdadeiro impacto das mulheres no Vaticano II fosse baixo – neste sentido certamente não foi um Concílio das mulheres –, ele tem tido um grande significado para as católicas; elas mesmas fizeram dele nos seus muitos caminhos da sua recepção – no nível da pastoral, do trabalho da associação e da teologia – um “Concílio de mulheres”, e podem contribuir assim, justamente hoje, pela releitura dos textos conciliares.


IHU On-Line – Na constituição conciliar Gaudium et Spes, o Concílio expressou apoio à luta das “mulheres que reivindicam igualdade de direitos com os homens onde ainda não a obtiveram”. Como a senhora interpreta essa mensagem?

Margit Eckholt –
A constituição pastoral pertence aos textos mais controversos durante e depois do Concílio. À sua missão da evangelização, segundo Gaudium et Spes, pode a Igreja apenas atender quando a percebe com um olhar aos sinais dos tempos. Durante o período conciliar e durante no tempo imediatamente após o Concílio apareceram diversas publicações na Alemanha em relação à imagem e posição da mulher na sociedade e na Igreja. Nisso residiu uma revisão da antropologia teológica no centro – saindo da tese da “não derivação de ser-mulher do ser-homem” e da “mesma imediatez de ser-humano no homem como na mulher”, assim formulou a teóloga de Osnabrück, Elisabeth Goessmann: “nenhuma discriminação da mulher frente ao homem, seja na sua vida espiritual, seja nas novas funções descobertas no estado leigo, seja no reconhecimento da sua eficácia na sociedade moderna e vida pública. Os textos conciliares não falam em nenhum lugar de uma estrutura hierárquica do matrimônio, portanto descrevem verdadeiramente sob o pensamento de amor uma forma parceira de lidar com o matrimônio. O resultado dos textos conciliares para a mulher, então, é a igualdade de direitos com o homem no estado leigo, se queremos assim comentar”.


Pouca percepção aos trabalhos teológicos das mulheres

Assustador é constatar quão pouco percebidos foram os significativos trabalhos teológicos que Elisabeth Goessmann, Elisabeth Schuessler e com elas muitas outras mulheres, já antes e durante o período do Concílio, apresentaram. Nos documentos eclesiais e textos mais recentes do Magistério – como a carta de João Paulo II às mulheres (1995) e a carta sobre a colaboração dos homens e das mulheres na sociedade e na Igreja (2004) – continua sendo transmitida uma imagem tradicional da mulher. Além disso, falta uma discussão diferenciada com os mais recentes desenvolvimentos nas ciências sociais e humanas; “estudos de gênero” científicos e qualificados não estão sendo recebidos. Certamente se deve criticar a categoria de gênero, quando ela – como em tentativas individuais deconstrutivistas – leva a uma dissolução dos conceitos de sujeito e identidade; mas ela pode ser útil quando se trata de um questionamento crítico de atribuições aos papéis de gênero culturalmente definidos e associados com poder. Por isso o desafio mencionado no texto Gaudium et Spes é importante ainda hoje. Mostra-se claramente quando associações femininas católicas participam no equal pay day e no processo atual de diálogo da Igreja Católica na Alemanha que coloca a “colaboração de parceria de homem e mulher na Igreja” em primeiro lugar da pauta.


IHU On-Line – E a Igreja pós-concílio, que perspectivas se abriram para as mulheres, em termos de efetiva participação na vida e missão da Igreja? Depois de 50 anos da abertura do Concílio, como a senhora compreende o atual contexto de Igreja?

Margit Eckholt –
Na Igreja local da Alemanha – como também na maioria das outras Igrejas da Europa e dos Estados Unidos – as mulheres podiam se estabelecer em novas profissões como agentes comunitárias e pastorais, ou assumir responsabilidades nas associações do catolicismo leigo. A comunidade feminina católica e a associação feminina católica alemã convocaram mulheres para a posição de conselheira espiritual. Na Suíça, mulheres formadas como teólogas podem tomar a frente na liderança das comunidades. Assim também outras mulheres assumiram tarefas de liderança em agremiações de nível diocesano. Elas podem atuar no tribunal eclesial e nos escritórios pastorais. Os estudos da teologia e igualmente a carreira científica – o doutorado catedrático – estão abertos às mulheres. Elas foram convocadas às cadeiras teológicas dentro das faculdades, institutos e academias. Certamente, isso deveria ser visto como algo positivo, precisamente pensando no curto período que resultou renovações. Portanto, com esta “história de sucesso” estão sendo associadas também muitas conhecidas – e ainda mais desconhecidas – histórias de luta e sofrimento, de rupturas e decepções profundas, e cada vez mais uma história de êxodo silencioso de, sobretudo, mulheres jovens saindo da Igreja. As imagens de mulheres fora – na sociedade e na cultura – e dentro da Igreja se distanciaram tanto que é muito difícil nos países europeus motivá-las para uma colaboração. A Igreja perdeu os seus trabalhadores durante o século XIX e no início do século XX; no século XXI ela corre o risco de perder as mulheres. Por isso a “questão das mulheres” é hoje ainda, mais do que durante os tempos do Concílio, um dos mais decisivos sinais dos tempos. A Igreja deve abrir espaços justamente para mulheres jovens nos quais elas possam viver a sua fé segundo as suas próprias experiências. As formas vividas da fé, a linguagem da liturgia e da confissão, devem reconquistar a fascinação de grande amor e amizade para as pessoas hoje a fim de que elas deixem tudo e se coloquem no caminho de Jesus de Nazaré. Mulheres em papéis de liderança e coordenação na Igreja são uma prova de sua autenticidade para mulheres jovens, independentemente se elas possam imaginar um papel assim para si mesmas.
 

IHU On-Line – A senhora é signatária do manifesto “Igreja 2011: uma virada necessária” , que teve ampla repercussão mundial. De modo geral, o que expressa o manifesto?

Margit Eckholt –
O manifesto “Igreja 2011: uma virada necessária” foi publicado no dia 4 de fevereiro de 2011. Um total de 144 professoras e professores de teologia foram os primeiros assinantes e depois outros colegas de países latino-americanos se juntaram a eles. O manifesto reagiu à crise na Igreja local da Alemanha, que, depois da descoberta dos abusos em muitas dioceses e congregações religiosas alemãs, chegou ao seu cúmulo. Segundo o presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha, o arcebispo Dr. Robert Zollitsch, em sua colocação inicial durante a assembleia geral dos bispos alemães (sob o título Futuro da Igreja – Igreja para o futuro. Discurso por uma Igreja peregrina, ouvinte e servidora), o manifesto é um apelo à vitalidade da Igreja, à sua “capacidade de conversão, de uma nova virada e de uma nova evangelização”. A Igreja na sua autenticidade como portadora da evangelização está sendo desafiada. Teólogas e teólogos, como cientistas, estão a serviço da transmissão da fé, de uma tradução contemporânea da fala de Deus e da busca por formas vivas de ser-Igreja, que levam os sinais dos tempos a sério. Assim, o manifesto olha para as comunidades eclesiais que são maiores, as formas da participação e colaboração dos sacerdotes e leigos, dos homens e mulheres, a liberdade da consciência e a cultura da justiça, a busca das formas de reconciliação frente à culpa e à falha, e então se inscreve nos questionamentos do processo de diálogo da Igreja alemã. Em uma das publicações dos iniciantes do manifesto, estas questões referentes à teologia foram aprofundadas . Certamente o manifesto reagiu à situação concreta no contexto alemão eclesial, mas é uma indicação de um “engarrafamento de problemas” na Igreja do tempo presente, pelo qual as igrejas locais de outros continentes também estão sendo atingidas.


IHU On-Line – Como o Vaticano II pode inspirar a Igreja, no contexto do século XXI, a buscar esse novo aggiornamento indicado pelo manifesto?

Margit Eckholt –
A auditora conciliar norte-americana, Ir. Mary Luke Tobin, escreveu: “‘o Concílio foi uma porta largamente aberta – larga demais para ser fechada.’ Renovação nunca para. Se é para continuar a dar vida, deve seguir adiante”. Exatamente isso é o que desejo para os nossos tempos: um estudo profundo e diferenciado dos textos e dos impulsos seguintes ao Concílio Vaticano II, que contribuam para que as portas da Igreja permaneçam abertas a serviço do Evangelho e do ser humano. Em uma sociedade mundial cada vez mais polarizada e dividida, a Igreja é autêntica quando abre fronteiras, constrói pontes, oferece reconciliação, pratica hospitalidade, e quando ela permite a si mesma ser continuamente aberta pelo “estranho”. Justamente isto o Concílio pode nos ensinar: viver do Espírito do novo Pentecostes, na profunda ancoragem no movimento da encarnação do Evangelho. A renovação da Igreja é um presente do Espírito: quando caminhamos nos caminhos do Bom Samaritano e nos convertemos novamente ao Deus da Vida, o Deus-conosco, Jesus Cristo, e à terna e sanadora sabedoria de Deus, quando pedimos novamente a bênção de Deus por nós, pelo mundo, pela Igreja, então Deus, assim nós esperamos, dá a força, que novos horizontes se abrem à Igreja, para que realmente possamos “ser Igreja em parceria”.



Leia mais...

Margit Eckholt já publicou um artigo no sítio do IHU. Confira:

• Ante o próximo Congresso de Teologia. Artigo publicado em 25-08-2012

 

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