Edição 401 | 03 Setembro 2012

Apontamentos sobre o Contexto Teológico do Vaticano II

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Cleusa Andreatta

Publicamos a seguir um texto introdutório sobre o Concílio Vaticano II, que serve de subsídio para que os leitores e as leitoras da IHU On-Line possam compreender o que foi este importante momento da história da Igreja a partir de algumas questões contextuais que antecederam o Concílio. O artigo é de autoria de Cleusa Andreatta, graduada em Filosofia e em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia e doutora em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Atualmente é professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) e coordenadora do Programa de Teologia Pública do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Eis o artigo.

Preparado ao longo de três anos desde que João XIII anunciou a decisão de realizar um Concílio ecumênico , o Concílio Vaticano II, teve sua abertura efetiva em 11 de outubro de 1962  e estendeu-se até 8 de dezembro de 1965. Sob o impulso da convocação de João XXIII a uma abertura da Igreja ao mundo de então, os esforços e as controvérsias que se desdobraram ao longo dos quatro períodos do Concílio  foram perpassados por sua proposta de um aggiornamento eclesial. Nesta perspectiva, há amplo consenso entre os estudiosos do significado e alcance deste grande evento eclesial que o Concílio Vaticano II marcou a passagem da Igreja da Contra-Reforma e da Cristandade para a modernidade, selando uma reconciliação da Igreja com a modernidade, após uma história significativa de conflitos e resistência.

A mudança de postura da Igreja frente à modernidade foi sendo gestada por uma série de movimentos teológicos, em curso nas décadas que antecederam o Concílio. Frente às grandes transformações socioculturais em andamento no período pré-conciliar, foram movimentos que caracterizaram aquele período por uma grande criatividade teológica e que foram colocando as bases para uma postura mais dialógica por parte da Igreja. Destacam-se assim o Movimento Patrístico, o Movimento Litúrgico, o Movimento Bíblico, o Movimento Leigo, o Movimento Teológico.

Com a redescoberta dos Santos Padres, o Movimento Patrístico marcou uma verdadeira volta às fontes, que só se desenvolve com o rigor do método nos séculos XIX e XX, renovando o saber teológico e a vida da Igreja desde as fontes patrísticas (ressourcement). O Movimento Patrístico vai incidir nos demais movimentos acima indicados, dado que toda a reflexão de fé dos padres da Igreja é fundamentalmente bíblica, litúrgica, cristológica, eclesial, inculturada e, portanto, plural.

O Movimento Litúrgico iniciado nos mosteiros beneditinos da França no século XIX, onde havia um grande cultivo da liturgia, depois se expandiu na Bélgica, na Alemanha e na Holanda. O desejo de fazer bem à liturgia incluía a questão da participação ativa na liturgia. Surgiram os estudos litúrgicos e a teologia litúrgica. Foram redescobertos textos litúrgicos do passado, os Santos Padres e a Bíblia. O movimento litúrgico recebeu impulso oficial com a encíclica Mediator Dei (1947) de Pio XII.

O Movimento Bíblico resultou do avanço dos estudos de exegese, com importante contribuição da ciência bíblica em âmbito protestante e aprendendo desta a aproveitar as contribuições de outras ciências (linguística e arqueologia, p.ex.). Abriu-se a possibilidade de superar a rigidez de um sentido literal e único dos textos bíblicos e de avançar na compreensão da inspiração e da interpretação dos textos. Este movimento recebeu um grande impulso com a fundação da Escola Bíblica de Jerusalém (1890) e da Revista Bíblica (1892), por  Pe. J. M. Lagrange (1855-1938).

O Movimento Teológico que ficou conhecido como a “Nova Teologia (Nouvelle Théologie), expressa o esforço por uma renovação da teologia em diálogo com ao pensamento moderno, esforço empreendido por dois centros teológicos: a Escola Le Saulchoir, Tournai, cidade belga, próxima à fronteira da França, na qual atuaram teólogos como Marie-Dominique Chenu (1895-1990) e Yves Congar (1904–1995), e Escola dos jesuítas em Lyon, França, que teve à sua frente os teólogos Jean Daniélou (1905–1974), Henri de Lubac (1896-1991), Henri Bouillard (1908-1981), Hans Urs von Balthasar (1905-1988), entre outros . 

Marie-Dominique Chenu esboçou a história e o programa da Escola Le Saulchoir no opúsculo intitulado  “Le Saulchoir: Une école de la théologie”, onde apresenta como diretrizes para a renovação teológica a afirmação do primado do dado revelado, fonte viva da teologia; a assunção da crítica bíblica e histórica como instrumento apropriado da teologia, um tomismo declarado, aberto; interesse pelos problemas do próprio tempo, numa fé solidária com o tempo .

A renovação teológica promovida pelos jesuítas teve sua apresentação no artigo programático de Jean Daniélou “Les orientations présents de la pensée religieuse” . Ao traçar este programa, Daniélou apresentou como linhas diretrizes para a renovação “a) a volta às fontes essenciais do pensamento cristão: a Bíblia, os padres da Igreja, a liturgia; b) o contato com as correntes do pensamento contemporâneo para ampliar a visão (...); c) o confronto com a vida” . Nesta perspectiva em 1942 teve inicio a grande coleção “Sources Chrétiennes”, contribuindo efetivamente para a “volta às fontes”.

Condenada por Pio XII por meio da encíclica Humani Generis em 1950, alguns desses teólogos foram depostos de sua função de professores, alguns livros foram proibidos, as contribuições da nova teologia estiveram intensamente presente no Concílio pelo fato de que alguns de seus expoentes estarão no Concílio como padres conciliares ou como especialistas.

O Movimento Leigo teve uma contribuição peculiar para a aproximação eclesial com a modernidade. Nascido em meio às transformações e exigências socioculturais do período entreguerras, está na base da preparação do Concílio Vaticano II: “os leigos da Ação Católica levaram os colegiais (JEC, Juventude Estudantil Católica), os universitários (JUC, Juventude Universitária Católica), os operários (JOC, Juventude Operária Católica; ACO, Ação Católica Operá¬ria), os jovens do campo (JAC, Juventude Agrícola Católica) e pessoas dos meios independentes (JIC, Juventude Independente Católica) a inse¬rirem-se nos seus ambientes específicos a tal ponto que eles trouxeram para dentro da Igreja toda a problemática e reflexão moderna de seus meios. Essa atuação do laicato no mundo, seu engajamento, assumindo a entrada da modernidade pela via do movimento leigo teve um reforço na teologia do laicato que se impregnara de ideias da modernidade” . Nessa perspectiva, Y. Congar elabora uma teologia do laicato (1953).

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