Edição 400 | 27 Agosto 2012

Espiritismo, religião do meio

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Thamiris Magalhães

Ele olha para o avanço científico, mas prega a moral cristã, que acredita nos benefícios da tecnologia, porém se emociona com a mensagem psicografada da mãe falecida. Por isso, apesar de sua recente internacionalização, ele é tão bem ambientado em terras brasileiras, acredita Bernardo Lewgoy

“Os cientistas sociais são péssimos profetas, mas não creio em mudanças espetaculares das tendências dos últimos censos: acredito, sim, em mais liberdade, mais diversidade religiosa, todas concentradas em agregados urbanos cada vez maiores, mais problemáticos e mais contraditórios, com escolhas religiosas relacionadas a demandas crescentes por inclusão e ascensão social”, conjetura Bernardo Lewgoy, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para ele, os dados do censo a respeito de religião são uma “caixa-preta” sujeita a interpretações variadas e não raro divergentes.

Ainda segundo Lewgoy, os dados revelam um aprofundamento das tendências já observadas no censo anterior: encolhimento dos universos católico e afro, crescimento do mundo evangélico e dos sem religião e, finalmente, um amplo crescimento do contingente de espíritas autodeclarados. E acrescenta: “Acredito que o espiritismo é invocado como recurso terapêutico em situações de crise pessoal, como doenças, separações, perdas, desemprego, etc. e que há, por um lado, uma grande circulação de pessoas não espíritas em centros espíritas e, por outro, uma grande circulação de crenças espíritas em espaços não espíritas, por outro”.

Bernardo Lewgoy possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, mestrado em Antropologia Social pela mesma universidade e doutorado em Ciência Social pela Universidade de São Paulo – USP. É professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É vice-presidente da Câmara de Pesquisa da UFRGS, membro do Conselho Deliberativo do Instituto Latino Americano de Estudos Avançados dessa instituição e membro do Núcleo de Estudos da Religião. É especialista em espiritismo e autor, entre outros, de O Grande Mediador. Chico Xavier e a cultura brasileira (Bauru: EDUSC - PRONEX/CNPQ/Movimentos Religiosos no Mundo Contemporâneo, 2004).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – O que os dados do censo revelam para a sociedade brasileira em relação à religião na contemporaneidade?

Bernardo Lewgoy –
Os dados do censo a respeito de religião são uma “caixa-preta” sujeita a interpretações variadas e não raro divergentes. Analistas com pendor mais quantitativo tendem a ver sólidos agregados homogêneos, enquanto antropólogos de histórica inclinação hermenêutica desconfiam de um olhar apenas de superfície, que não captaria as dinâmicas e estratégias de mobilidade e afiliação religiosa concreta dos atores sociais. Os censos devem ser considerados como um retrato estatístico simultaneamente estático e dinâmico de um momento da sociedade brasileira, o qual deve ser interpretado à luz de um campo social complexo e multifatorial e, de outra parte, como vetores que anunciam tendências históricas, devendo ser interpretados comparativos com censos anteriores.
Os dados revelam um aprofundamento das tendências já observadas no censo anterior: encolhimento dos universos católico e afro, crescimento do mundo evangélico e dos sem religião e, finalmente, um amplo crescimento do contingente de espíritas autodeclarados.


Mercado religioso

O Brasil é um país mais diverso, mais identitário, menos controlado por uma posição hegemônica, salientando-se uma situação de mercado religioso, onde a escolha individual tem um papel pronunciado, mas, especialmente nas periferias das grandes cidades, há um crescimento de opções evangélicas, que devem ser lidas à luz de suas promessas e êxitos em termos de transformação de estruturas sociais. Ao mesmo tempo, há um inédito espaço de liberdade e manifestação para as diferentes opções individuais em termos de sexualidade, direitos reprodutivos, aumento das intervenções de grupos a sociedade civil no sentido da defesa da cidadania, criação de novos espaços para a discussão e reivindicação da laicidade, etc. Num Brasil mais rico, mais escolarizado, mais diverso, as religiões acabam tornando-se uma caixa de ressonância para a expressão dessas diferentes expressões identitárias.


IHU On-Line – Os dados do censo indicam um crescimento dos espíritas: de 1,3% para 2%. São agora cerca de 3,8 milhões de adeptos declarantes. O que isso representa e significa para o Brasil?

Bernardo Lewgoy –
Durante muito tempo, por razões históricas, a filiação majoritária ao catolicismo indicava não apenas sua predominância numérica, mas também um grande guarda-chuva institucional que diluía e encobria práticas e adesões religiosas diversas. Hoje, vivemos uma situação diversa, em parte descrita na primeira resposta.
Esse crescimento de aproximadamente 65% no número de espíritas autodeclarados significa ascensão de prestígio e ações institucionais de proselitismo da parte dos espíritas, no qual o papel das produções cinematográficas em torno da vida e obra de Chico Xavier  tem um considerável papel.


O espiritismo no Brasil atual

Se somarmos a isso a campanha para a autodeclaração como espíritas no censo – e não mais sem religião ou inerciamente católicos nominais como antes – levada a cabo pelas federativas, assim como sua articulação com representantes do IBGE, de modo a acordar as diversas categorias que poderiam ser oferecidas, que representariam a opção “espírita” na resposta ao recenseador, temos uma situação muito interessante. Conjuga-se um ativo proselitismo com uma afirmação de identidades espíritas latentes que vão desbancando a sub-representação, de modo a que o contingente de espíritas autodeclarados vai ganhando um perfil mais completo, no qual os espíritas com identidade mais forte assumem-se com tranquilidade diante do censo. Isso é obviamente um conjunto de hipóteses sobre os mecanismos causais de crescimento recente dos espíritas e não esgota o problema do significado do movimento espírita no Brasil recente.


Presença espírita

Já escrevi em diversas ocasiões sobre o sentido dessa presença espírita, alocado numa classe média urbana pós-católica que se moderniza, combinando a crença espiritualista na reencarnação com o reconhecimento da importância de avanços científicos. Surpreende é a resiliência dessa cultura espírita como alternativa diante do encolhimento do catolicismo e dos cultos afro e do crescimento dos evangélicos e dos sem religião. Como já salientei, o espiritismo passa de minoria religiosa para alternativa religiosa, que oferece explicação de sucessos, conforto para fracassos e aflições e cura espiritual de infortúnios, bem como doenças, dentro de uma doutrina que se pretende simultaneamente racional e religiosa.


IHU On-Line – Os espíritas, de acordo com o censo, formam o núcleo que tem os melhores indicadores de educação, envolvendo o maior número de pessoas com nível superior completo (31,5%). O que esse dado nos revela?

Bernardo Lewgoy –
Não há grande novidade em relação a censos anteriores, mantendo-se a consistência da ênfase de uma religião de letrados, que valoriza o conhecimento formal e a leitura de livros, constituindo um nicho de desencantamento do mundo no sentido weberiano clássico, do afastamento de causas mágicas (no caso, suas concorrentes católica e afro, mas que não se vê a si mesmo como “mágico”) e na explicação das coisas ordinárias, o qual mantém seus paradoxos por enfatizar uma complexa composição com elementos da cultura católica brasileira, como no caso de Chico Xavier, ele mesmo também um santo das letras.


IHU On-Line – O senhor acredita que as crenças e práticas espíritas têm uma alta “ressonância social”, transbordando a dinâmica de vinculação aos centros espíritas? Por quê? 

Bernardo Lewgoy –
Acredito que o espiritismo é invocado como recurso terapêutico em situações de crise pessoal, como doenças, separações, perdas, desemprego, etc. e que há, por um lado, uma grande circulação de pessoas não espíritas em centros espírita e, por outro, uma grande circulação de crenças espíritas em espaços não espíritas.
Gilberto Velho  já havia chamado atenção, há vários anos, para esse ecumenismo alternativo da linguagem dos espíritos na sociedade brasileira, onde o transe e a presença dos mortos no cotidiano resistem fortemente a uma ideia linear de modernização e desmagificação do mundo, sendo este um aspecto cultural próprio do Brasil.


Religião do meio

Em contraste com sociedades para quem transe e possessão são elementos exóticos, o espiritismo, a macumba, o candomblé e mesmo o neopentecostalismo afirmam esses componentes como centrais numa cultura popular religiosa, ocupando espaços sociais não colonizados pelo registro da cultura científica ou mesmo das religiões tradicionais, com sua fria despersonalização da explicação e ritualização do sentido da experiência humana. O espiritismo é exatamente a religião do meio, a que olha para o avanço científico, mas prega a moral cristã, que acredita nos benefícios da tecnologia, porém se emociona com a mensagem psicografada da mãe falecida. Por isso, apesar de sua recente internacionalização, ele é tão bem ambientado em terras brasileiras.


IHU On-Line – Qual o significado de ser “sem religião”, mas com Deus? A crença em Deus é diferente da adesão a uma determinada religião?

Bernardo Lewgoy –
Sem religião é um guarda-chuva onde espiritualistas não organizados, ateus declarados e pessoas com variadas simpatias, mas sem afiliação explícitas, se identificam. É uma categoria polissêmica que se define em oposição a uma filiação identitária mais explícita, padecendo dos males e virtudes da negatividade. Como categoria, acredito que ela não capte senão uma tendência à indiferença perante as religiões tradicionais ou herdadas e uma vontade individual de liberdade em face de obrigações e compromissos religiosos. Ela, como categoria, diz muito pouco sobre as crenças e práticas religiosas (no sentido amplo) dos sem religião, marcando antes uma não filiação ou não identidade, característica da experiência urbana e individualista moderna, com sua grande ênfase no respeito à escolha individual. Com certeza, muitos sem religião acreditam em Deus, mas isso não tem propriamente um sentido socioantropológico senão quando essa crença tem implicações em termos políticos, educacionais, conjugais e reprodutivos, além dos propriamente confessionais. Sem dúvida, o termo “sem” acaba sendo mais importante do que “religião” ou “Deus” para este grupo.


IHU On-Line – Qual será, a seu ver, o futuro das religiões daqui para frente de acordo com os dados divulgados pelo último censo?

Bernardo Lewgoy –
Os cientistas sociais são péssimos profetas, mas não creio em mudanças espetaculares das tendências dos últimos censos: acredito, sim, em mais liberdade, mais diversidade religiosa, todas concentradas em agregados urbanos cada vez maiores, mais problemáticos e mais contraditórios, com escolhas religiosas relacionadas a demandas crescentes por inclusão e ascensão social.


Leia mais...

Bernardo Lewgoy
já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. Confira:

O espiritismo kardecista Edição 169 da revista IHU On-Line, de 19-12-2005

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição