Edição 399 | 20 Agosto 2012

Valério Brittos e o campo da Economia Política da Comunicação brasileira: contribuição teórica e a pauta pendente

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César Bolaño

É com angustia e tristeza que me ponho a escrever estas linhas, mas não poderia deixar de fazê-lo, pois se trata de compromisso assumido há meses com o querido amigo que se foi. A dor é tanto maior porque Valério foi meu discípulo, o mais comprometido e leal que se possa ter. Um presente, um empréstimo, do céu. Quando o conheci, em 1997, já era um intelectual formado, com livro publicado e recém-ingressado no doutoramento da UFBa, sob a orientação do nosso amigo comum, Sérgio Mattos.

Seu interesse era retomar, na perspectiva da Economia Política da Comunicação (EPC) – tal como eu a vinha desenvolvendo e divulgando através dos grupos da INTERCOM e da ALAIC, que viriam a constituir a rede EPTIC em 1999 –, o objeto do seu primeiro livro, um estudo pioneiro da TV segmentada no Brasil. Após aquele primeiro encontro, de alegre lembrança, dedicou-se com a enorme energia que o caracterizava ao desenvolvimento da EPC brasileira, ampliando significativamente o seu escopo, seja em nível teórico, seja no que se refere ao conhecimento empírico de uma realidade em transformação e pouco estudada no país. 

Aplicando o mesmo paradigma desenvolvido para a análise do mercado brasileiro de televisão (de massa), pôde explicitar a existência de um paralelismo interessante na evolução histórica de ambos os setores do audiovisual, que passam, em momentos históricos distintos, por processos de oligopolização. Em 1995, a estrutura da indústria de TV brasileira, no seu conjunto, mudara essencialmente, inaugurando uma nova situação, que denominou fase da multiplicidade da oferta, conceito que eu próprio adotaria, quando da segunda edição de Mercado Brasileiro de Televisão, em 2004, por ele prefaciada. 

Já nessa segunda edição de meu primeiro livro, um trecho foi escrito a quatro mãos, fato que se repetiria de forma ampliada no nosso livro em comum sobre a TV digital, publicado em 2007. A dedicação com que Valério assumiu o acompanhamento do mercado brasileiro de televisão (aberta e segmentada, analógica e digital) e a identidade de pensamento que tínhamos dava-me liberdade para dedicar-me a outros temas – da subsunção do trabalho intelectual à epistemologia –, ampliando o potencial explicativo do referencial teórico que estávamos, havia já dez anos nesse momento, construindo em parceria. 

No dia do seu falecimento, Valério era seguramente o maior conhecedor da situação e das tendências da TV brasileira em todas as suas modalidades. Tínhamos previsto, quando ele adoeceu, retomar a produção de outro livro comum sobre o tema, para a comemoração dos 25 anos de publicação de meu Mercado Brasileiro de Televisão, em que utilizaríamos outro conceito que Valério estava começando a trabalhar com seus alunos e colaboradores, o de pluri-TV.

Outra contribuição fundamental de Valério à construção do nosso quadro teórico foi o aprofundamento do conceito de barreiras à entrada, de larga tradição na Ciência Econômica, que eu propusera incorporar ao campo da EPC, com base na definição de Mario Possas. Valério é quem faz a classificação das barreiras em técnico-econômicas e estético-produtivas. Ademais, sendo o meu conceito de padrão tecnoestético – articulador das determinações de ordem econômica e cultural no nível das estruturas de mediação constituídas pelos capitais individuais em concorrência –, a chave para a compreensão das barreiras nas indústrias culturais e da comunicação, e tendo em vista os limites da própria EPC para defini-lo cabalmente, faltando incorporar, de forma mais sistemática, contribuições de outras origens, Valério se encarregará de montar, no interior do grupo CEPOS, um pequeno programa de pesquisa sobre o tema, apontando inclusive para a necessidade de se pensar em padrões alternativos, ligados à comunicação contra hegemônica.

Ainda na tese de doutoramento, além dos conceitos citados e da periodização da TV segmentada e da TV de massa no Brasil, Valério realizará um estudo sobre a TV portuguesa, que, em seguida, continuará acompanhando. Também a Espanha será matéria de seu interesse e de forma sistemática com a aprovação do projeto que coordenava, pela CAPES, sobre a TV digital terrestre, nos marcos do qual organizaria inclusive um importante seminário em Madrid, em 2010. Esta e outras ações em nível internacional fazem parte, aliás, de sua importante contribuição também para a organização e institucionalização do campo da EPC e da Comunicação em geral. Não há espaço aqui para esse tema. Voltarei a ele em outro momento, nesta mesma coluna. 

O fato é que, seja pela sua contribuição teórica, seja pelo seu ativismo acadêmico e institucional, Valério Brittos colocou o grupo CEPOS, por ele criado, e a UNISINOS, no centro do mapa da EPC mundial. Ao lado do OBSCOM/UFS, forma o eixo histórico principal da EPC brasileira. Do ponto de vista da pesquisa empírica, um estava mais dedicado à TV digital, o outro à economia da Internet. Os conceitos (padrões, barreiras, fases, forma, funções, convergência) que desenvolvemos visam iluminar a parte da realidade social que nos toca analisar. Isto não mudou.

O programa de pesquisas citado sobre os padrões tecnoestéticos, aliado à compreensão das tendências particulares da digitalização sobre as diferentes indústrias culturais e da comunicação, deve demonstrar o seu poder explicativo, apoiando-se no amplo marco conceitual, que Valério ajudou a construir e que permanece aberto à contribuição dos pesquisadores que constroem hoje a EPC brasileira. A eles se dirigem em especial estas linhas. Em memória do nosso mestre e amigo.

 

* César Bolaño é membro fundador do Grupo  Cepos e o atual pesquisador-líder sucedendo Valério  Brittos;  doutor e mestre em economia pela Unicamp, jornalista formado pela USP, é  professor do departamento  de economia da UFS e presidente da Associação Latino-Americana dos Investigadores da Comunicação  (ALAIC). E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. 

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