Edição 399 | 20 Agosto 2012

Imagens técnicas, código fundante da pós-história

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Thamiris Magalhães

Elas tendem a absorver e a reinterpretar nos seus próprios termos os elementos remanescentes das imagens tradicionais e da escrita, esclarece Rodrigo Antonio de Paiva Duarte

“Flusser é um filósofo atualíssimo, pois parece ter previsto – mais de vinte anos antes que essas coisas se tornassem realidade – o nosso cotidiano totalmente telematizado da internet, da TV digital, das redes sociais, do vídeo e do áudio HD”, diz Rodrigo Antonio de Paiva Duarte, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E acrescenta: “mais importante do que essa simples previsão, é a família conceitual que ele nos legou, por exemplo, em sua obra Pós-história. Vinte instantâneos e um modo de usar, um instrumental altamente crítico (por exemplo, os conceitos de aparelho, funcionário e programa, dentre outros) para compreendermos esses novos fenômenos – e até mesmo nos valermos deles quando necessário – sem cair vítima do grande potencial de manipulação neles implícito”.

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, mestrado em Filosofia pela mesma Universidade e doutorado em Filosofia – Universität Gesamthochschule Kassel. Realizou estágios de pós-doutoramento na University of California at Berkeley, na Universität Bauhaus de Weimar e na Hochschule Mannheim. É professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais. Dentre inúmeras publicações no Brasil e no exterior, destacam-se os seus livros: Marx e o conceito de natureza em 'O Capital' (Edições Loyola, 1986), Mímesis e racionalidade. A concepção de domínio da natureza em Theodor W. Adorno” (Edições Loyola, 1993), Adornos. Nove ensaios sobre o filósofo frankfurtiano (EDUFMG, 1997), Adorno/Horkheimer e a Dialética do Esclarecimento (Jorge Zahar, 2002), Teoria crítica da indústria cultural (UFMG, 2003), Dizer o que não se deixa dizer. Para uma filosofia da expressão (Argos, 2008), Indústria cultural: uma introdução (FGV, 2010) e A arte (WMF Martins Fontes, 2012).

Confira a entrevista.



IHU On-Line – Flusser traz em sua obra A escrita – Há futuro para a escrita questões referente à especificidade do escrever, a diferença entre o pintar e o digitar etc. Mas, nesse sentido, o que ainda ficou por ser resolvido em sua análise com relação à escrita, no seu entendimento?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
Parece-me fácil constatar nessa obra uma grande ambiguidade por parte de Flusser: por um lado, ele parece dar como certo o desaparecimento da escrita, tal como a conhecemos desde aproximadamente o terceiro século antes de Cristo. Por outro, além de escrever um livro para refletir sobre essa situação, muitas vezes Flusser expressa nele certa nostalgia pela escrita, já que ela se identifica com o pensamento conceitual e reflexivo. Ele dá a entender que abrir mão da escrita, pura e simplesmente, pode ser muito perigoso, se já não dominarmos plenamente o código fundante que tende a substituí-la, a saber, o paradigma das imagens técnicas.


IHU On-Line – Qual a relação que Flusser faz das imagens técnicas com a escrita?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
À primeira vista, essa relação pode ser de convivência, tal como ocorreu com as imagens tradicionais depois do surgimento da escrita (essa se consolidou como código fundante no Ocidente apenas milênios depois de sua invenção no Oriente Próximo, por volta do século III a.C.). Mas Flusser sugere que há também uma tendência de predomínio quase total das imagens técnicas sobre os dois outros códigos que já foram dominantes (as imagens tradicionais e a escrita), o que instaura uma situação de muita incerteza, já que o potencial de falsificação e de manipulação ideológica das tecnoimagens é exponencialmente maior do que os paradigmas que as antecederam.


IHU On-Line – Qual a principal lição que Flusser nos deixou em relação à coexistência entre as imagens técnicas e a escrita?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
Como sugeri acima, esse é um tópico em que, na obra de Flusser, não parece haver muita clareza: por vezes ele parece defender um ponto de vista cumulativo entre os três códigos que geraram a pré-história (imagens tradicionais), a história (escrita) e a pós-história (imagens técnicas). Segundo essa visão, o cenário de coexistência entre os códigos poderia se prolongar quase indefinidamente. Parece-me, no entanto, que a posição mais tardia (e talvez definitiva) do filósofo é de que a pós-história é uma espécie de buraco negro que suga tudo para si, inclusive as tendências pré-históricas e históricas persistentes na experiência humana. Em outras palavras, as imagens técnicas – código fundante da pós-história – tendem a absorver e a reinterpretar nos seus próprios termos os elementos remanescentes das imagens tradicionais e da escrita.


IHU On-Line – Qual o principal legado deixado por Vilém Flusser para os nossos dias?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
A meu ver, Flusser é um filósofo atualíssimo, pois parece ter previsto – mais de vinte anos antes que essas coisas se tornassem realidade – o nosso cotidiano totalmente telematizado da internet, da TV digital, das redes sociais, do vídeo e do áudio HD. E, mais importante do que essa simples previsão, é a família conceitual que ele nos legou, por exemplo, em sua obra Pós-história. Vinte instantâneos e um modo de usar, um instrumental altamente crítico (por exemplo, os conceitos de aparelho, funcionário e programa, dentre outros) para compreendermos esses novos fenômenos – e até mesmo nos valermos deles quando necessário – sem cair vítima do grande potencial de manipulação neles implícito.


IHU On-Line – Flusser acreditava no avanço, cada vez maior, das imagens técnicas. Nesse sentido, qual a visão que o autor tinha com relação ao futuro da escrita?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
Minha resposta a essa questão será muito semelhante ao que disse acima: Flusser não ousa afirmar categoricamente que as imagens técnicas substituirão totalmente a escrita, mas vê tendências muito claras nessa direção (que parece não lhe agradar totalmente, já que ele afirmou numa carta a Leônidas Hegenberg que “ainda não cheguei a nenhuma conclusão, salvo esta: a única vida digna é a diante da máquina de escrever”).


IHU On-Line – Vilém Flusser se tornou mundialmente conhecido pela sua teoria dos novos media, na qual se destaca o conceito de imagem técnica ou tecnoimagem. Do que se trata essa teoria? Qual a sua relação com o conceito de pós-história da qual o próprio autor trabalha?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
Seria muito difícil resumir a teoria das imagens técnicas em poucas linhas sem distorcê-la. O próprio Flusser começou a desenvolvê-la no final da década de 1970, e até sua morte, em 1991, ainda estava elaborando-a, adaptando-a aos novos tempos da digitalização dos media, que se anunciavam então. Muito resumidamente: Flusser afirmava que o processo civilizatório é um processo de abstração no qual a humanidade, ao tirar uma dimensão das três existentes na realidade vivida, inventou primeiramente as imagens tradicionais – código bidimensional (ou plano) enquanto um primeiro método para orientação no mundo. Ao abstrair mais uma dimensão, a humanidade estabeleceu a escrita: código unidimensional (ou linear) que a permitiu pela primeira vez conceptualizar suas vivências. Esse dois estágios iniciais, como se sugeriu acima, correspondem respectivamente à pré-história e à história. Quando a humanidade se viu pela primeira vez em condições de abstrair mais uma dimensão, estabelecendo um código zero-dimensional (ou pontual), isso significou o surgimento das imagens técnicas (em meados do século XIX, com a invenção da fotografia) e a colocação no horizonte, pela primeira vez, de uma experiência pós-histórica.


IHU On-Line – Flusser acreditava que as imagens, e não mais os textos, são, na contemporaneidade, os media dominantes? Se sim, por quê?

Rodrigo Antonio de Paiva Duarte –
Basta olhar ao nosso redor para ver como são influentes e determinantes em nossa vida os media relacionados com as imagens técnicas (fotos, vídeos, filmes etc.). Isso certamente caracteriza uma situação de predomínio das imagens técnicas sobre os outros códigos que já foram – cada qual em sua época – determinantes em nossas vidas. Por outro lado, se o que está em questão é conceptualizar, não conhecemos código melhor do que a escrita. Os media associados às tecnoimagens até agora não se mostraram adequados à conceptualização. Flusser chegou a sugerir que deveríamos aprender a dominar uma imaginação que fosse para as imagens técnicas o que a conceptualização é para a escrita. Mas esse tópico permaneceu algo muito obscuro em sua obra e confesso que não tenho a menor ideia de como isso poderia ser feito. Isso talvez explique por que esta entrevista, a ser vinculada num meio digital – portanto relacionado com as imagens técnicas –, se apresenta sob a forma de escrita.

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