Edição 399 | 20 Agosto 2012

Personagem enigmático do século XX

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Thamiris Magalhães

Uma das peculiaridades do pensamento flusseriano é a dificuldade que ele suscita, no leitor, em concordar ou discordar dele, ou seja, a dificuldade de definir o que seria exatamente o êxito, destaca Gustavo Bernardo Krause

Questionado sobre quais as principais descobertas realizadas por Flusser referentes às imagens técnicas, Gustavo Bernardo Krause diz, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, que Flusser relaciona, de maneira muito sofisticada e difícil de resumir, o problema da comunicação através das imagens aos problemas centrais da religião. “Sua filosofia dos media é basicamente uma epistemologia, isto é, uma teoria do conhecimento, sempre nos perguntando como não sabemos o que não sabemos e, então, por que precisamos fingir que sabemos, por exemplo, através da produção e reprodução das imagens – no caso das imagens técnicas, através da sua produção e reprodução compulsiva e infinita”. Para Krause, a circunstância de a vida de Vilém Flusser ser tão instigante quanto a sua obra merece, algum dia, um romance ou um filme. “Filósofo extremamente criativo e produtivo, professor extremamente carismático e, ao mesmo tempo, uma pessoa de trato extremamente difícil, constitui a si mesmo como um personagem enigmático que pode muito bem resumir o homem ocidental do século XX”.

Gustavo Bernardo Krause é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ e doutor em Literatura Comparada pela mesma instituição. Fez estágio de pós-doutorado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Trabalha como professor-associado na UERJ, lecionando a disciplina Teoria da Literatura. Bolsista do CNPq, desenvolve o projeto intitulado “Da metaficção de volta à metafísica: o Deus da ficção e a ficção de Deus”. Publicou um livro de poemas, dez romances e dez ensaios. Organizou ainda oito coletâneas.

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Qual o mérito da obra A filosofia da caixa preta – Ensaios para uma futura filosofia da fotografia de Vilém Flusser? 

Gustavo Bernardo Krause – É uma das obras filosóficas mais importantes sobre a fotografia em todos os tempos, lado a lado com as de Roland Barthes  e Susan Sontag . Sua reflexão sobre a fotografia, na verdade, se aplica a todos os meios de comunicação.

IHU On-Line – Quais as principais descobertas realizadas por Flusser referentes às imagens técnicas? 

Gustavo Bernardo Krause – Ele relaciona, de maneira muito sofisticada e difícil de resumir, o problema da comunicação através das imagens aos problemas centrais da religião. Sua filosofia dos media é basicamente uma epistemologia, isto é, uma teoria do conhecimento, sempre nos perguntando como não sabemos o que não sabemos e, então, por que precisamos fingir que sabemos, por exemplo, através da produção e reprodução das imagens – no caso das imagens técnicas, através da sua produção e reprodução compulsiva e infinita.

IHU On-Line – De que modo Flusser percebeu a importância fundamental da comunicação para o homem e a sociedade, tanto na forma do diálogo interpessoal como na forma midiática?

Gustavo Bernardo Krause – Ao reconhecer que toda a ciência é essencialmente linguagem e não verdade, ele se dedicou a estudar as formas dessa linguagem, a saber, as formas contemporâneas de comunicação, que passam pela procura da verdade e pelo discurso sobre a verdade. Para pensar apenas em termos de cada pessoa, não falamos o que pensamos, mas pensamos quando falamos e porque falamos, isto é, quando e somente quando nos comunicamos.

IHU On-Line – De que maneira Flusser relacionou filosofia e comunicação? Qual a influência da fenomenologia para seus estudos comunicacionais? 

Gustavo Bernardo Krause – A relação se dá exatamente pela via da fenomenologia, que é antes um método, e não uma escola filosófica. Esse método se dedica a suspender o juízo o máximo de tempo possível, aperfeiçoando a epoché dos antigos céticos, para permitir a emergência de uma perspectiva diferente da habitual, diferente do senso comum. 

IHU On-Line – De que maneira Flusser se apropriou da cibernética em seus estudos?

Gustavo Bernardo Krause – Quando ganhou de presente uma máquina de escrever elétrica de um de seus filhos, Flusser a recusou, argumentando que a máquina de escrever manual lhe dava muito mais responsabilidade sobre o que escrevia, enquanto a elétrica o desresponsabilizaria, devido à sua facilidade de voltar atrás e corrigir-se. Até o fim da vida, datilografou tudo o que escreveu na sua velha máquina manual. Todavia e ao mesmo tempo, tornou-se um dos principais pensadores da computação e da cibernética, antecipando as mudanças no pensamento e na sociedade que seriam provocadas pela nova linguagem e pelas novas práticas dela derivadas. 

IHU On-Line – Como podemos definir a teoria da comunicação proposta por Vilém Flusser? 

Gustavo Bernardo Krause – Ele formula sua teoria da comunicação principalmente em três livros: A filosofia da caixa preta, A escrita e Comunicologia. Dos dois primeiros já estão publicadas as versões em português. Não é uma teoria fácil de resumir. É basicamente uma teoria antiessencialista, explorando o axioma nietzschiano de que não há fatos, apenas versões – isto é, gestos de comunicação. Nessa teoria, ele quebra as fronteiras entre ciência, religião, filosofia e arte, vendo esses quatro campos como variações do mesmo campo, o da comunicação.

IHU On-Line – Qual a peculiaridade de Flusser, relacionado a outros estudiosos no campo da comunicação? De que maneira o autor, reunindo correntes teóricas muitas vezes bastantes distintas, como a semiótica, a fenomenologia e a cibernética, conseguiu obter êxito em suas pesquisas?

Gustavo Bernardo Krause – Uma das peculiaridades do pensamento flusseriano é a dificuldade que ele suscita, no leitor, em concordar ou discordar dele, ou seja, a dificuldade de definir o que seria exatamente o êxito. Sua filosofia menos ensina ou descreve do que provoca e estimula. Nesse sentido, sua ela é antes arte do que ciência, justificando que ela ficasse conhecida, conforme a famosa atribuição de Abraham Moles , pela expressão “ficção filosófica”.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?

Gustavo Bernardo Krause – A circunstância de a vida de Vilém Flusser ser tão instigante quanto a sua obra merece, algum dia, um romance ou um filme. Filósofo extremamente criativo e produtivo, professor extremamente carismático e, ao mesmo tempo, uma pessoa de trato extremamente difícil, constitui a si mesmo como um personagem enigmático que pode muito bem resumir o homem ocidental do século XX.

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