Edição 198 | 02 Outubro 2006

A paixão de Jesus e a distância de Alá

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

Traduzimos e reproduzimos o artigo que segue, de autoria do antropólogo francês com uma vasta obra, autor da conhecida teoria do "bode expiatório". René Girard. O artigo foi publicado no jornal Repubblica, em 20 de setembro de 2006 e reproduzido nas Notícias Diárias da página do IHU dia 27-9-2006.

As recentes declarações de Ratzinger não foram feitas em nome do dogma, porém recordam uma douta e antiga discussão de posições. Diversamente da religião cristã, na perspectiva muçulmana os homens estão drasticamente longe de Deus. As contradições que emergiram do 11 de setembro não têm raízes religiosas. A religião é usada como um instrumentum regni [um instrumento do poder]. A luta entre judeus e árabes palestinos não é, de fato, uma guerra de religião, embora fanáticos de ambos os fronts estejam procurando torná-la isso.

Os muçulmanos sustentam que o Ocidente faz guerra ao Islã e os ocidentais, que os grupos islâmicos fazem guerra ao Ocidente: pode-se deduzir que alguma coisa esteja acontecendo.

Em Regensburg, o Papa Ratzinger declarou que a Jihad, no seu credo de violência, é contrária a Deus. E o fez, não falando em nome do dogma, mas recordando uma discussão pouco conhecida, que ocorreu entre um dos últimos imperadores romanos, o qual, como imperador de Bizâncio, estava em contato com os muçulmanos, e um culto persa na Turquia do século XIV. Cinqüenta anos antes da destruição final do império, aquele imperador afirmava que havia nos muçulmanos uma atitude, ante a violência, diversa da cristã. Estou de acordo com estas palavras, desde que seja precisado que os cristãos, na sua história, nem sempre foram fiéis ao cristianismo autêntico. Foi necessário esperar o Concílio Vaticano II, portanto há não muito tempo, para declarar a liberdade religiosa, que até aquele momento não era reconhecida oficialmente pela Igreja Católica. Ninguém ainda tinha dito que não se precisava utilizar a força para difundir o cristianismo e procurar novos adeptos.

Entretanto, é bem verdade que o apelo à não-violência é um elemento fundamental da doutrina cristã originária. O Papa citou um texto marginal, enquanto o episódio ao qual deveria, acima de tudo, referir-se é o da Paixão de Cristo. Por que Cristo a sofre? Porque, ao invés de praticar a violência, observa até o fundo, e acima de si próprio, a recomendação que consigna aos homens, ou seja, a regra do reino de Deus, a regra da não-represália, aquela que no Novo Testamento vem definida como “a regra de ouro”, e que consiste em não fazer aos outros o que não queres que seja feito a ti mesmo? Em todo o pensamento judaico-cristão se afirma rigorosamente a rejeição da violência: é melhor sofrê-la do que infligi-la ao próximo.

Na ótica dos muçulmanos, ao contrário, a Paixão é um escândalo, enquanto lhes parece indigna de Deus: é inconcebível que Deus se preste a ser uma vítima dos homens. Sabe-se que os muçulmanos consideram Jesus como um profeta que foi morto, mas para eles é inadmissível que aquele profeta possa identificar-se com Deus. De outra parte, todas as religiões, exceto o cristianismo, também consideram escandalosa tal equiparação. O primeiro dever do Papa está em recordar os propósitos de base do cristianismo. Ele deve, de um modo ou de outro, falar da substância da doutrina cristã, considerada nas suas estruturas essenciais. E, na Paixão, é Deus que aceita morrer, antes do que fazer violência aos outros. Quanto à substância do Alcorão e às diretrizes que se propõe, no seu interior se pode encontrar tudo, também o convite a difundir a fé com a espada. Em particular, é muito forte o acento na majestade divina.

Iniciadas no século sétimo depois de Cristo, as relações entre muçulmanos e cristãos sempre foram assinaladas pela hostilidade. Paralelamente, porém, esteve vivo um intercâmbio, principalmente durante a Idade Média. Na França, na cidadezinha de Le Puy, há uma magnífica catedral dedicada à Virgem, ao redor da qual, quando se procura na terra, ainda se encontram muitas moedas muçulmanas que atestam um grande número de peregrinações islâmicas provenientes da Espanha. Quero dizer que, se por um lado jamais faltou certo grau de colisão entre as duas religiões, por outro, as relações eram, no passado, mais fáceis e freqüentes, pelo menos individualmente. Não existia aquela espécie de atual uniformidade moderna que faz, sim, que o discurso do Papa em Regensburg seja difundido por toda a parte no mundo e provoque uma sublevação dos muçulmanos.

Por que o Papa considerou necessário dizer o que disse? Porque os muçulmanos se permitem a cada instante julgar o cristianismo e dizer um monte de bobagens. Os muçulmanos sustentam que os judeus e os cristãos falsificaram as suas escrituras, e que o modo autêntico de considerar Cristo é aquele promulgado pelo Alcorão, que faz dele um profeta, mas que não fala da Paixão, eliminando, assim, a própria essência do cristianismo. A partir da fundação do Papado, a função do Papa consiste em ocupar-se da doutrina, e se renunciasse fazê-lo, não seria mais do que um simples político.

Não esqueçamos, além disso, que o Papa, sempre de Regensburg atacou o Ocidente de cínico e utilitarista. Falou da periculosidade do nosso fundamentalismo iluminista que não mais escuta nenhum Deus e explicou que o Ocidente dá medo ao Islã, porque a nossa civilização não acolhe mais a idéia do sagrado. Este é um ponto em que o cristianismo tradicional acaba concordando com os muçulmanos, que ainda são incrivelmente mais conservadores do que muitos cristãos. O iluminismo drástico e auto-referencial produzido pelo Ocidente nos últimos séculos coincide com a eliminação do elemento religioso, inaceitável pelo cristianismo, que, em todo o caso, desde a Idade Média e da filosofia de Santo Tomás de Aquino, foi sempre mais racionalista, se confrontado com o credo islâmico.

O pensamento cristão, em suma, está freqüentemente numa posição que não se pode reduzir, nem ao ateísmo racionalista, nem ao pensamento muçulmano. E, em todo o caso, a concepção religiosa do cristianismo seja bem mais próxima do humanismo do que a islâmica, embora seja diversa do humanismo como tal. Na perspectiva muçulmana, os seres humanos estão radicalmente longe de Deus e, por isso, é impossível afirmar que Deus teria podido sucumbir sob os golpes dos mortais: a separação entre Deus e os homens é demasiado rígida para legitimar uma idéia desse gênero. E, no entanto, é precisamente esta a concepção fundamental do cristianismo, extraordinária e difícil de defender, porque arriscada em duas direções: aquela de um retorno às religiões arcaicas e aquela da negação de Deus. A luta entre o pensamento cristão e o muçulmano existia no passado e continuará a existir no futuro. O evento convulsivo do 11 de setembro, desprezado e incompreendido pelos ocidentais, produziu uma espécie de fermentação que suscita todo tipo de debates entre o islamismo e o cristianismo, conduzido na base de uma grande incompreensão entre ambas as partes. 

 

 

 

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição