Edição 396 | 02 Julho 2012

Uma estreia apaixonante? A versão brasileira das indústrias criativas

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João Martins Ladeira

No Brasil, as indústrias criativas estão na moda. Não espanta. A ideia contém lá o seu frisson, como acontece com aquilo que, de vez em vez, desembarca em nosso país. A cultura com um viés prático e não como erudição barata! Sua conveniência como modo de libertar pessoas, comunidades ou regiões da carência material, evitando a eutanásia de talentos.

Tais imagens seduzem. Adere-se (ou repele-se) a tais propostas, sem atenção à complexidade envolvida. Apreender seu real significado implica perguntar: afinal, o que há de novo em tal modelo? Serão as indústrias criativas realmente uma estreia apaixonante ou apenas a reedição de algum espetáculo passado?

Por um lado, sim; por outro, não. Vejamos. De certo ângulo, a ideia sugere a imagem de um mercado novo em folha, pronto a ser ocupado pelos empreendedores em geral. Uma observação detalhada revela que sua instituição se obtém, na verdade, a partir das ações do Estado, e não por qualquer outro meio.

Espanta: a ideia de indústrias criativas mostra-se não como o resultado da rebelião de artistas ou designers. De fato, tal proposta emerge como tentativa contemporânea destes Estados variados afirmarem sua capacidade de influir em mercados de cultura, com soluções pontuais adotadas em cada país.

O trabalho destes aparatos estatais em tornar tal tema coisa verdadeiramente importante se exerceu desde a gênese da proposta. Todos sabem: foi no distante ano de 1998 que o novo trabalhismo inglês apresentou seu projeto de renomear o Department for National Heritage inglês em Department for Culture, Media and Sport.

À decisão atrelaram-se diversas ações voltadas à promoção da cultura com viés intensamente comercial. Alguns viram nisso uma conspiração do “capital” ou coisa que o valha. Não espanta. A figura do intelectual solitário – textos em punho, crítica em riste – não existe sem a sombra do poder invisível a qual se contrapor.

O caso, como sempre, é mais complexo. Entender o que tais aparatos estatais produziram e a maneira pela qual buscaram incentivar ou proteger empreendedores criativos, de um lado, ou convencer a sociedade sobre a relevância de sua nova invenção, de outro, guarda a chave da questão.

A ideia possui formato caótico, decerto. Afinal, o que reuniria atividades tão distintas como “apresentações artísticas; arquitetura; artes e antiguidades; artesanato; cinema; mercado editorial; moda; música; publicidade; software; software interativo de entretenimento; televisão e rádio”?

Frente a esse caos, quatro soluções buscaram afirmar a unidade de tais políticas mundo afora. A primeira apostava na ênfase à “criatividade”. Todos esses setores, afinal, lidariam com um recurso intangível extremamente relevante.

Se a primeira opção se concentrava na origem de tais bens, a segunda atentou aos seus resultados. Tais produtos seriam especialmente capazes de proteger através das famigeradas normas de propriedade intelectual e isso, por fim, os definiria.

A outra possibilidade apostava na ênfase às tecnologias necessárias à constituição de tais riquezas. A contraparte da proposição é a importância, para os negócios criativos, dos modelos flexíveis de organização. Obviamente, as empresas em rede logo vêm à baila.

O último ponto – polêmico – indicava a possibilidade de romper com as distinções entre alta, média e baixa cultura ou com a diferenciação entre artes industriais e eruditas. No cerne da proposta estava a necessidade das indústrias criativas serem irremediavelmente lucrativas.

Cada uma destas definições tem lá os seus problemas. Isoladamente nenhuma delas consegue dar conta de descrever de modo pleno tal projeto. Traços específicos retirados de cada uma, porém, contêm material relevante para clarear a discussão.

A versão brasileira de tal ideia, como de praxe, é lida com estas propostas, porém com suas especificidades. Aqui, a ênfase na noção de desenvolvimento parece intensa, ímpar na verdade, em comparação a outros contextos. Isso se percebe atentando àquilo que a Secretaria da Economia Criativa, associada ao Ministério da Cultura, expôs.

A ênfase, para nós, reside em traços já conhecidos. Novamente, depositam-se grandes expectativas na criação de novos mercados através da destruição criadora, confiando na força dos arranjos produtivos locais e regionais gerados através de parcerias público-privadas voltadas à capacitação técnica, assim como na garantia de apoios financeiros.

A valorização da habilidade inventiva individual, regional ou nacional; a tentativa de produzir empreendimentos autônomos e sustentáveis; a oportunidade de ampliar a riqueza individual e coletiva; todas são opções consideradas relevantes devido aos resultados coletivos possíveis de gerar.

Nossa adaptação das indústrias criativas justifica-se ao se afirmar como política capaz de gerar não resultados egoístas, legitimando-se pela ênfase em algum tipo de interesse coletivo. Sua força reside em retomar o arrazoado sobre desenvolvimento, com tanta atenção no Brasil contemporâneo, contrapondo-se ao ganho individual representado pelo relé crescimento.

Mais que isso. Não é a primeira vez que, no Brasil, se aposta tanto nos negócios baseados em redes de colaboração possíveis de alavancar o desempenho nacional em mercados com importância global. Este retrato, na verdade, já havia sido pintado para as políticas voltadas às tecnologias de informação imaginadas durante os anos 1990.

O projeto, então, parece mais uma reprise de algo em cena no Brasil desde a última década do que alguma transformação radical no espetáculo. Só não se sabe se a direção escolhida pode conduzir ao resultado esperado. A resposta sobre o que existe de criativo na ideia de indústrias criativas permanece em aberto.

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