Edição 396 | 02 Julho 2012

“É paradoxal dizer que possa existir uma ‘mídia’ no meio digital”

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Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

Na verdade, tudo o que existe e é visível no e através do computador é ou hardware ou software, afirma Cícero Inacio da Silva

“Chamar as representações, que agora são parecidas com as ‘antigas’ representações que tínhamos até então, faço alusão ao rádio e à televisão, é uma mera falta de capacidade, comum à humanidade, de criar uma linguagem própria à cultura do computador. Por isso, ela ainda imita os meios anteriores e tende a considerar o que é veiculado nesses meios como ‘mídia’, o que é um tremendo engano”, frisa o professor Cícero Inacio da Silva, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo Cícero, o Facebook é uma rede que no início tinha uma forma bastante próxima das “repúblicas” de estudantes norte-americanos, que exigiam uma “triagem” e uma “validação” para aceitação de membros internos, no caso, os “amigos” ou a “fraternidade”. “Isso funcionou muito bem durante um tempo, até se tornar uma mídia de massa bastante homogênea e que tende a pasteurizar fatos e notícias”.

Cícero Inacio da Silva é graduado em Psicologia pela Faculdade Paulistana de Ciências e Letras, possui mestrado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutorado em Comunicação e Semiótica pela mesma universidade. Tem pós-doutorado pela University of California, San Diego (UCSD).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em primeiro lugar, o que o senhor entende por mídia digital?

Cícero Inacio da Silva –
Particularmente, sigo uma noção bastante diferente da estabelecida no Brasil, por uma leitura que faz somente alusão às representações superficiais geradas por máquinas computacionais, geralmente visualizadas em “browsers” de internet, e que são normalmente pouco ligadas ao início da “cultura computacional”, vamos assim dizer. Penso que o digital diz mais respeito às materialidades dos processos computacionais que geraram e que fundam basicamente a nossa sociedade contemporânea mediada via o digital, ou seja, que é fundamentalmente ligada à própria história do computador como máquina cultural. Essa visão de mundo não é muito comum no Brasil e é bastante comum em países que tradicionalmente lidam com o computador de maneira mais dinâmica. Isso tem a ver talvez com o fato de que essas culturas tenham basicamente desenvolvido essa máquina que tem transformado a forma como vivemos e talvez por isso essas culturas tenham uma visão bastante diferente dessa mais “filosófica” que tende a interpretar o computador como uma máquina que só reproduz coisas, como a antiga televisão e o rádio.


O computador não é meramente uma máquina de “comunicar”

Partindo do ponto de vista de que o computador não é meramente uma máquina de “comunicar”, mas sim de ser capaz de antecipar processos e de inclusive proporcionar a existência de elementos até então humanamente impossíveis, tendo, então, a seguir uma análise que aponta que é paradoxal dizer que possa existir uma “mídia” no meio digital, tendo em vista que tudo o que existe e é visível no e através do computador é ou hardware ou software. Chamar as representações, que agora são parecidas com as “antigas” representações que tínhamos até então, faço alusão ao rádio e à televisão, é uma mera falta de capacidade, comum à humanidade, de criar uma linguagem própria à cultura do computador. Por isso, ela ainda imita os meios anteriores e tende a considerar o que é veiculado nesses meios como “mídia”, o que é um tremendo engano.


IHU On-Line – Qual a diferença entre mídia digital e rede social?

Cícero Inacio da Silva –
Mídia digital dizia respeito a tudo o que antigamente era veiculado nos computadores com linguagem ou idêntica ou bastante similar à da televisão, do jornal, do cinema ou do rádio. Já rede social é uma utilização dos processos digitais para conexões entre sujeitos ligados a máquinas com processamento computacional (tablets, celulares e computadores), que permite o compartilhamento de informações em tempo real e também a modificação das informações por parte deste “conjunto” dinâmico de sujeitos conectados a essa “grande máquina universal”, que são as redes sociais.


IHU On-Line – Em que sentido o senhor afirma que “não existem mídias digitais, apenas softwares”?

Cícero Inacio da Silva –
No sentido de que o que se vê em um computador não é uma “mídia”, mas sim o resultado de um processo computacional que “imita” as mídias anteriores. Nós só assistimos vídeos ao computador por não sabermos exatamente o que vamos produzir e então buscamos referências no passado, no vídeo cassete, no cinema, na televisão. O computador é capaz de produzir outras coisas, mas ainda estamos no início de um processo mais dinâmico de compreensão do que essa máquina faz. Por isso ainda somos tão ligados à imagem em movimento da maneira como ela era vista até os anos 1990. Como exemplo, gosto de citar os jogos e os livros que são lidos em “redes sociais” visualizáveis, que são como ambientes de jogos gráficos avançados, mas com a diferença de que neles centenas, senão milhares de pessoas, se encontram diariamente para “escrever” ou “ler” histórias em conjunto e desfrutar de um momento de compartilhamento de leituras e visões de mundo sobre determinados textos. Eu chamaria isso de “leitura social”. E isso é só um dos modelos que podemos pensar.


IHU On-Line – Quais os desafios para a área da comunicação e da sociologia em função dos avanços na área da comunicação digital?

Cícero Inacio da Silva –
Creio que analisar o que é exatamente o computador. Ainda não temos a mínima ideia do que é essa máquina.


IHU On-Line – Qual sua opinião sobre o Facebook? Quais as possíveis críticas que o senhor faria a essa rede social que cresce tanto no Brasil?

Cícero Inacio da Silva –
Não tenho nenhuma restrição particular ao Facebook. Eu, particularmente, tinha uma conta nessa rede, que desativei há alguns anos. Eu tendo a não gostar de coisas massivas, por isso me dou o direito de não comer no McDonalds, no Burger King e a não ter uma conta no Facebook.


IHU On-Line – Qual a especificidade do Twitter em relação ao Facebook, principalmente em relação à linguagem e aos tipos de conteúdos postados?

Cícero Inacio da Silva –
São duas redes com objetivos distintos, que operam sob as mesmas bases. Em uma, você torna públicas questões pessoais ou mesmo comerciais em pequenos posts, que tendem a “imitar” a lógica do que antigamente se chamava “autenticidade”. Essa rede é o Twitter, que criou uma espécie de “fantasmagoria” do “autêntico” que se expande. Nessa rede, tudo parece sair no estilo #prontofalei, mas sabemos que quase todas as contas oficiais, tanto de autoridades como celebridades, são mantidas e atualizadas por “consultorias” especializadas em criar fatos ao “estilo #prontofalei”.


O Facebook

O Facebook, por outro lado, é uma rede que no início tinha uma forma bastante próxima das “repúblicas” de estudantes norte-americanos, que exigiam uma “triagem” e uma “validação” para aceitação de membros internos, no caso, os “amigos” ou a “fraternidade”. Isso funcionou muito bem durante um tempo, até se tornar uma mídia de massa bastante homogênea e que tende a pasteurizar fatos e notícias.


Mídias sociais

Se você analisar, as mídias sociais seguem a hegemonia dos grandes formatos de mídias massivas, mas com uma diferença: quem replica é você, eu e nossos vizinhos, e de graça, já que não ganhamos nada quando trabalhamos para o Facebook replicando ou “gostando” de um post. Por outro lado, essas redes tendem a aproximar as pessoas, colocar em contato pessoas que você não tinha mais acesso etc. Isso gera uma sensação de pertencimento e de “familiaridade” globais quase incomuns. Contudo, vale lembrar que toda “familiaridade”, segundo o próprio Freud, carrega em si um tremendo “terror” da não distinção entre o que é meu e o que é do “outro”. E isso talvez venha a criar no futuro toda uma geração que se negue a utilizar “redes socais” exatamente para não se deparar com esses “tantos familiares” que lhe causam mais ojeriza e terror do que propriamente uma sensação de pertencimento.

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