Edição 396 | 02 Julho 2012

Lima Vaz, Taylor e MacIntyre: perplexidade em relação à situação da sociedade

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Márcia Junges

Pensadores tecem diagnóstico da situação social contemporânea e concordam com o mal-estar que se faz sentir em nossos dias, aponta Elton Vitoriano Ribeiro

Um dos pontos de consonância entre as filosofias de Charles Taylor, Henrique Cláudio de Lima Vaz e Alasdayr MacIntyre é a perplexidade em relação à situação atual da sociedade, destaca o pesquisador Elton Vitoriano Ribeiro na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. MacIntyre se refere a um “desacordo moral da modernidade”, enquanto Taylor aponta o individualismo, o primado da razão instrumental e um “despotismo suave” como fundamento do agudo mal-estar social. Já Lima Vaz classifica a sociedade contemporânea como enigmática, caracterizada pelo avanço em sua razão técnica e indigência na razão ética. A discussão está presente na obra há pouco lançada por Elton, Reconhecimento ético e virtudes (São Paulo: Loyola, 2012), que norteia as questões que se seguem. O livro se originou de sua tese de doutorado, intitulada Entre Charles Taylor e Alasdair MacIntyre: Reconhecimento ético e virtudes na filosofia de Henrique C. de Lima Vaz, apresentada na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma.

Graduado em Filosofia e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, de Belo Horizonte, Elton Vitoriano Ribeiro é mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio com a dissertação A questão da intersubjetividade no pensamento ético filosófico de H. C. Lima Vaz.  É professor na FAJE, no Departamento de Filosofia.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Quais são os principais pontos de diálogo entre as filosofias de Lima Vaz , MacIntyre  e Charles Taylor ?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Em minha interpretação, apesar das diferenças de abordagem à questão ética e filosófica por parte destes autores, eles apresentam uma mesma preocupação com a dimensão comunitária, vale dizer intersubjetiva, da questão ética na sociedade contemporânea. Não é de surpreender-se que MacIntyre e Taylor são colocados entre os filósofos comunitaristas, e a mesma preocupação não é ausente na reflexão de Lima Vaz. Porém, diferente de MacIntyre, que faz uma reinterpretação da tradição aristotélica das virtudes, e diferente de Taylor, que faz uma reinterpretação da tradição hegeliana do reconhecimento, Lima Vaz interpreta aquilo que ele chama de categoria de intersubjetividade ética, numa dialética construída entre a ideia hegeliana de reconhecimento com a noção aristotélica das virtudes. Dessa forma, a reflexão de Lima Vaz, ao se situar com e entre MacIntyre e Taylor, acrescenta um elemento de novidade ao construir uma leitura da intersubjetividade ética a partir de uma interpretação que, à sua maneira, relacione dialeticamente Aristóteles e Hegel. Aristóteles, a partir de uma leitura acerca do conteúdo das virtudes. Hegel, a partir de uma leitura da forma dialética do reconhecimento. Para mim, este intento faz parte do esforço filosófico de Lima Vaz de interpretar a “tradição na contemporaneidade”.


IHU On-Line – A partir desse diálogo, como se dá a tentativa de interpretar a intersubjetividade ética na sociedade contemporânea a partir das categorias de reconhecimento ético e virtudes?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Para responder a essa questão eu apresento, no livro, a reinterpretação que MacIntyre faz da tradição aristotélica das virtudes na sua tríplice recontextualização: com relação às práticas, com relação à compreensão narrativa da vida humana e com relação à renovação da ideia de tradição. Recontextualização que deve ser lida em confronto com a tese de MacIntyre de que os seres humanos, como animais racionais dependentes, precisam das virtudes. Depois discuto a proposta da interpretação da categoria de reconhecimento feita por Taylor. Começo, partindo da questão da formação intersubjetiva da identidade humana e seu aporte ético, até a formação intersubjetiva da sociedade.

Em um segundo momento, eu examino a construção da categoria de intersubjetividade ética no pensamento de Lima Vaz, e de como essa pode ser interpretada como uma proposta de relação entre as categorias de reconhecimento e virtudes, mostrando assim o entre Taylor e MacIntyre. Em minha argumentação, a proposta de Lima Vaz é interpretada como uma tentativa de captar a tradição na contemporaneidade. A tradição representada pela tradição aristotélica das virtudes, na contemporaneidade da questão hegeliana do reconhecimento.


IHU On-Line – Quais são as peculiaridades da leitura que fazem de Aristóteles e Hegel?

Elton Vitoriano Ribeiro –
A herança aristotélica de MacIntyre eu encontro em sua reinterpretação da ética das virtudes. Para MacIntyre, os fundamentos da lei e das virtudes devem ser buscados nas tradições e nas relações intersubjetivas que constituem uma determinada comunidade. O vínculo central é uma visão dos bens comuns partilhados pelos membros de determinada tradição e comunidade. Essa é a forma de restituir a inteligibilidade e a racionalidade no empenho moral e social das sociedades contemporâneas. A herança hegeliana de Taylor encontro na reinterpretação da questão do reconhecimento. Ainda, para Taylor o homem é um animal social que age privilegiando certos fins e valores que são normalmente compartilhados socialmente. Tais fins e valores fazem parte do horizonte de sentido compartilhado a partir do qual cada indivíduo vive sua identidade. A partir de Hegel, Taylor interpreta a eticidade e a racionalidade como sendo fundadas socialmente.
Por sua vez, Lima Vaz herda de Aristóteles a interpretação do ethos como mundo das coisas humanas. Mundo onde o ser humano vive racional e livremente suas práticas éticas, as quais se traduzem em exercícios das virtudes como uma ordenação permanente e progressiva do agir ético ao horizonte universal do bem. Assim, a virtude, como qualidade do sujeito e como movimento para um crescimento humano, é a categoria segundo a qual deve ser interpretada a universalidade da razão prática operando na vida do indivíduo e na vida da comunidade. De Hegel, Lima Vaz herda a questão do reconhecimento como o primeiro momento para a efetivação concreta da autoafirmação do sujeito como eu, que acontece sempre no encontro com o outro. Neste encontro, o co-existir é constitutivamente um co-existir em um espaço ético, espaço de relações, de fins comuns e de horizontes partilhados.


IHU On-Line – Qual é a originalidade da leitura de Hegel empreendida por Taylor e Lima Vaz?

Elton Vitoriano Ribeiro –
A originalidade, eu a interpreto em duas direções. Primeiro, o estudo dos textos hegelianos dilatou os horizontes filosóficos destes dois pensadores. Essa abertura aconteceu na direção do método dialético e na direção dos problemas da história e da sociedade, particularmente do Estado moderno. Segundo, na compreensão de que um ser humano absolutamente isolado em sua existência é sempre uma abstração. Desde o nascimento, passando pelas mais variadas etapas do desenvolvimento até o fim da vida, cada indivíduo está sempre envolvido em uma rede de relações. Nesta rede de relações, o primeiro momento da autoafirmação do indivíduo como eu acontece em seu encontro com outro indivíduo. O encontro intersubjetivo é o início da interpretação da dinâmica ética da sociedade. Tanto Taylor como Lima Vaz, a partir de suas leituras de Hegel, sustentam que a dialética do reconhecimento explicita a intersubjetividade humana em sua dimensão ética.


IHU On-Line – Taylor acentua que compreender o outro é o grande desafio do século XXI. Em que medida a questão da alteridade permeia o pensamento desses três filósofos?

Elton Vitoriano Ribeiro –
Para Taylor, MacIntyre e Lima Vaz, a identidade é a compreensão de si que o sujeito elabora na relação com os outros. Ou seja, nós definimos nossa identidade sempre em diálogo com as coisas que nossos outros significativos desejam ver em nós – e por vezes em luta contra essas coisas. A identidade humana não é algo que realizamos sozinhos, de forma monológica, mas sim dialogicamente. O diálogo é uma característica importante, definitória, dos seres humanos. Dialogar é central para compreender a realidade que nos circunda, mas, antes de tudo, para compreender a nós mesmos.
Ora, ao nos autointerpretarmos, constituímos nossa identidade enquanto pessoas que vivem em uma complexa rede de situações com outras pessoas. Por isso nossa autointerpretação não é uma atitude destacada e neutra de auto-observação e observação do mundo. Nossa autointerpretação acontece no diálogo com os outros e com padrões presentes na cultura em que vivemos. Nessa permanente conversação com os outros nós adquirimos formas de expressão que são socialmente partilhadas. Tais formas de expressão são as linguagens que precisamos para nos definirmos. Aqui a linguagem deve ser entendida em seu sentido amplo como modo de expressão. Estas formas nós as adquirimos especialmente por meio das relações com aquelas pessoas que são importantes para nós: os outros significativos. Por exemplo, a relação de uma mãe com um filho é uma das primeiras formas de reconhecimento do valor da alteridade em nossas vidas. Quando a mãe chama o filho pelo nome, fala com ele, se esforça para entender suas primeiras formas de expressão: o choro, o sorriso, os gritos. Essa primeira forma de relação dialógica, que pode ser uma primeira forma de reconhecimento, marca profundamente nossa identidade.


IHU On-Line – Em que sentido MacIntyre critica a moralidade contemporânea e propõe novos desafios para a ação e reflexão ética e política em nosso tempo?

Elton Vitoriano Ribeiro –
A tentativa de postular uma desordem na sociedade contemporânea, como faz MacIntyre,  pode ser vista, muitas vezes, como uma atitude saudosista. Contudo, ele também é critico com o passado. O importante para MacIntyre na filosofia é a busca de um caminho comunitário e não apenas individual. Uma reflexão comunitária onde o indivíduo não pode ser interpretado isoladamente das relações com os outros na sociedade concreta em que vive.


IHU On-Line – Por que você se refere a uma “perplexidade com relação à situação atual da sociedade” presente no pensamento destes três autores? Qual seria o diagnóstico de cada um desses autores nesse contexto?

Elton Vitoriano Ribeiro –
No caso dos autores estudados, é importante perceber semelhante avaliação de perplexidade com relação à situação atual da sociedade. Nesse sentido, MacIntyre fala de um desacordo moral da modernidade, em que a linguagem da moralidade contemporânea está num estado tão grave de desordem que não possuímos mais que fragmentos de um esquema conceitual que juntos não formam um todo coerente. Para Taylor, a sociedade contemporânea sofre um agudo mal-estar que tem suas raízes no individualismo, no primado da razão instrumental e num despotismo suave no qual as instituições e as estruturas da sociedade técnico-industrial restringem nossas escolhas. Este mal-estar triplica-se numa perda de sentido, a qual obscurece os horizontes morais (nível ético), eclipsa o horizonte dos fins (nível teleológico) e diminui o horizonte da liberdade (nível político). Por sua vez, para Lima Vaz, a sociedade contemporânea se apresenta como enigmática, a saber, como uma sociedade avançada em sua razão técnica e indigente em sua razão ética.


Leia mais...

Elton Vitoriano Ribeiro já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira:

* A dimensão comunitária de Lima Vaz, Taylor e MacIntyre. Edição 374 da revista IHU On-Line, de 26-09-2011

* Uma obra basilar na reflexão de Lima Vaz. Edição 393 da revista IHU On-Line, de 21-05-2012




Baú da IHU On-Line

A IHU On-Line já publicou outras edições cujos temas se relacionam com a temática do legado filosófico de Henrique Cláudio de Lima Vaz. Confira:

* Henrique Cláudio de Lima Vaz. Um sistema em resposta ao niilismo ético. Edição 374 da revista IHU On-Line, de 26-09-2011

* Sábio, humanista e cristão. Edição 19 da revista IHU On-Line, de 27-05-2002

* A política em tempos de niilismo ético. Edição 197 da revista IHU On-Line, de 25-09-2006

* Fenomenologia do espírito de Georg Wilhelm Friedrich Hegel. 1807-2007. Edição 217 da revista IHU On-Line, de 30-04-2007

* Platão, a totalidade em movimento. Edição 294 da revista IHU On-Line, de 25-05-2009

* Niilismo e relativismo de valores. Mercadejo ético ou via da emancipação e da salvação? Edição 354 da revista IHU On-Line, de 20-12-2010

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