Edição 396 | 02 Julho 2012

O parto humanizado – relatos

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Graziela Wolfart

Não bastaria abordar o parto humanizado do ponto de vista teórico e analítico apenas. Trata-se de um evento intenso demais para não contar com relatos de experiência de mulheres que o viveram de forma plena e satisfatória. Eis o que estas mães contaram à IHU On-Line sobre a experiência de colocar seus filhos no mundo da forma mais natural possível.
Cláudia e Artur

“A oportunidade de gerar uma vida – mesmo que sejamos apenas instrumentos do universo – já é uma emoção indescritível. Sentir este feto se desenvolver dentro do seu corpo, do seu coração, é magnífico. Foi na primeira fase da gravidez que pensei: se tenho o privilégio de viver esta grande experiência, se este serzinho quis vir ao mundo neste período e nesta família, por que não deixá-lo nascer no seu momento, e de uma maneira mais natural e, na medida do possível, tranquila? Não posso falar das vantagens médicas do parto normal, pois não é minha profissão. Mas aprendi que tudo o que é natural, é saudável tanto para a mãe como para o bebê. Durante a gravidez me preparei com aulas de Ioga, e pesquisei muito para tentar fazer o melhor para o meu filho desde antes de ele nascer. Não posso deixar de mencionar o imenso apoio de meu marido, as dicas experientes das mulheres da minha vida, o carinho das amigas queridas e, claro, minha médica fabulosa. Foi o conjunto que fez do momento mais importante da minha vida um verdadeiro sucesso. Decidimos, por inúmeras razões, ter nosso filho num hospital pequeno. E hoje sabemos que foi a melhor escolha. Semanas antes da data prevista para o nascimento fomos visitá-lo e recebemos todas as orientações para o grande dia. Foi numa quinta-feira à tarde, sozinha em casa, que minha bolsa estourou. Liguei para chamar meu marido e tomei um banho tranquilamente (sabia que demoraria para ter um momento só meu novamente). Fomos então para o consultório da médica, que constatou que a chegada do nosso filhote estava acontecendo e nos encaminhou para o hospital. Quando lá chegamos, fui recebida com toda a atenção pela equipe de enfermagem, que logo me levou para a sala preparatória enquanto meu marido resolvia a parte burocrática (foi engraçado, porque, como ele imaginava que logo que chegássemos ao hospital o bebê nasceria, ficou muito nervoso por não ter podido me acompanhar). Demorou um pouco até que sentisse a primeira forte contração, então passei bons momentos conversando com as enfermeiras, rindo e ouvindo histórias de parto. Elas me prestando toda a atenção, perguntando a melhor posição, querendo saber como eu me sentia e oferecendo opções de exercício. Sempre monitorando os batimentos do bebê. Quando a médica chegou, eu já tinha dores fortes e boa dilatação. A partir daí, passei boa parte do tempo numa bola de Pilates e fazendo os exercícios de respiração, sob os cuidados do meu marido (que pouco conseguia falar). Nas contrações muito intensas, eu quicava tão alto a bola que quase arrancava o soro da mão, e o deixava ainda mais nervoso. Quando aliviava, ríamos da situação. Em determinado momento tive que deitar na cama e me concentrar melhor nas respirações para tentar não perder a calma e o controle, pois as dores já eram muitos fortes. Então, trouxeram-me uma grata surpresa, minha mãe. Como pode a simples presença dela fazer eu me sentir tão bem? Poucas horas depois eu saberia a resposta. Começou então uma linda viagem de encontro àquela pessoinha que eu mal imaginava como seria, mas que já conhecia tão intimamente. Levada pela minha médica, enfermeiras, pediatra, anestesista e maridão, fomos para uma outra sala devidamente preparada para o parto normal. Lá, sob o comando da médica, cada um fez o seu melhor (vários de nós conheceu o poder da sua força, no sentido literal da palavra). Meu marido, que não tinha uma função física pré-determinada para o momento do parto (alem de me cobrir de carinho), tratou de se conectar em coração com nosso filho e pedir que ele nascesse sem medo, que a sua família estava ali, preparada e de braços abertos esperando por ele. Depois disso, conheci o amor absoluto, e o Artur”.

Cláudia Zirbes, de Montenegro-RS, formada em Comércio Exterior, coordenadora do setor de exportação em uma indústria e mãe do Artur, de 1 ano e dez meses 

“Meu primeiro filho foi planejado e me preparei na gestação para recebê-lo da forma mais natural possível. Quando engravidei já imaginei o parto em casa, com parteiras. Sou naturalista, vegetariana, trabalho com o conceito do sagrado feminino e tenho essa visão mais humana do mundo. Fiz um curso de preparação para o parto em casa, o que me ajudou a me empoderar, a ganhar confiança em mim mesma, no meu corpo, me mostrando que sou capaz, como toda fêmea, de parir de forma natural. Somos animais e quanto mais animal a gente for, melhor será o parto, porque estaremos ajudando nosso instinto mais primitivo a fazer esse trabalho. O parto é fisiológico, não tem que ser cirúrgico, é um evento do corpo que acontece naturalmente. A mente é que nos faz bloquear essa condição física. Na verdade, é uma questão de confiança na natureza e na perfeição de nosso corpo. O primeiro parto foi um pouco mais difícil, porque o corpo está aprendendo ainda e o bebê estava com o cordão em volta do pescoço, o que deixa mais lento o trabalho de parto. Eu fiz muita força para ajudar meu filho, Inti Cairé, mas ele saiu tranquilamente, o que prova que cordão enlaçado não é motivo para fazer cesariana. O segundo filho não foi planejado, foi muito perto um do outro (um ano e quatro meses de diferença) e estávamos num momento de transição em nossa vida, tornando a gravidez bem conturbada e sem muito sossego. No entanto, o parto foi ótimo. Daí pensei: nossa, foi fácil demais, maravilhoso. Foi um parto muito rápido, não fiz força nenhuma, só relaxei e ele foi saindo, descendo. Comecei o trabalho de parto durante a mudança para outra casa, no carro. Quando cheguei, chamei a parteira, que me examinou e viu que eu já estava com 9 centímetros de dilatação, quase lá. Comecei a fazer movimentos circulares com o corpo e fiquei na grama, porque eu queria desde sempre parir na terra, para a terra, como um agradecimento e uma reverência à mãe terra, com meu sangue sendo doado para a terra, devolvendo a ela essa nutrição, numa forma ritual de oferenda do meu sangue. E foi como eu queria. Tive meu segundo filho embaixo de uma árvore. E ele saiu tão rápido que a parteira quase não pega o bebê. Eu estava de joelhos perto da grama e a mãozinha do bebê ficou cheia de grama. Foi muito simbólico. Coloquei o nome dele de Aman Terra. Foi um parto abençoadíssimo. Eu estava muito conectada com a energia da mãe divina. Já o terceiro parto foi da minha menina. Eu queria muito fazer o ciclo feminino da família, de ver a filha parir. Então não podia morrer antes de parir uma mulher. Me abri a essa energia para o universo e engravidei da Aylinn. O parto dela foi também muito bom, no mesmo lugar do Aman, embaixo da árvore, do mesmo jeito. Só que foi um pouco mais longo, porque o cordão dela era bem curtinho, então ela demorou para nascer. Mas foi ‘de boa’. Eu estava numa total entrega, toquei tambor, me pintei de urucum, na mesma lógica ritualística. A diferença é que no parto dela, no momento expulsivo, quando ela estava saindo, eu soltei um grito, de mulher primitiva, o que não tinha acontecido antes”.

Kalinne Ribeiro, de Recife-PE, cantora, compositora e mãe de Inti Cairé (5 anos), Aman Terra (4) e Aylinn (1 ano e 9 meses)

“Era uma linda manha do dia 28 de abril quando comecei a sentir uma leve cólica, então percebi que a minha espera de exatamente 42 semanas chegava ao fim, ou melhor, estava chegando o tão esperado dia... Depois de consultar 5 obstetras e ficar muito decepcionada com tudo o que nós ouvíamos (eu, meu marido e às vezes minha irmã) agendei uma consulta com o Dr. Ricardo. A primeira consulta durou um pouco mais de 2 horas e saímos de lá confiantes que enfim tínhamos achado alguém que nos entendesse. Afinal, eu não queria fazer Cesariana de jeito nenhum, queria muito que fosse parto normal. Durante as consultas de pré-natal, a ideia e a possibilidade de dar a luz em minha própria casa ficavam cada vez mais reais, a cada conversa com o obstetra, a cada encontro com minha Doula querida, ficávamos muito confiantes. Sempre tive internamente uma certeza de que tudo daria certo, é difícil de explicar, mas a sensação era de que as coisas aconteceriam conforme eu planejei. No dia do nascimento da Sophia eu havia dormido na casa da minha sogra, quando comecei a sentir as contrações fui  “correndo" pra casa, no caminho parei para comprar umas flores. É engraçado, pois normalmente quando as mulheres começam a sentir as contrações vão correndo pro hospital, eu não! Eu queria chegar depressa em casa, pra curtir cada momento, cada contração, eu queria estar com quem eu escolhi para estar comigo naquele dia, o meu marido Arthur, a minha irmã gêmea Nadia (que é enfermeira), a minha Doula amada Zezé, meu medico Dr. Ricardo e a Zeza, enfermeira/doula que atua com ele. Quando cheguei em casa, liguei para minha irmã e para meu médico (que estavam em Porto Alegre) avisando a situação. Liguei também para minha cunhada Rafaeli que veio me ajudar enquanto os demais não chegavam. Durante as contrações ela me apoiava “intuitivamente” enquanto eu fazia os exercícios na bola. As contrações começaram a ficar mais forte por volta das 12h, liguei pra minha Doula que me orientou sair de casa, então fomos no mercado. Quando voltei já estava em intenso trabalho de parto. A partir deste momento entrei no que chamamos de "partolandia", me interiorizei e passei a curtir cada contração com pouca interação com os presentes no momento. Sentia sensações intensas, poderosas, de uma força interior que nunca antes eu havia sentido. Durante o trabalho de parto caminhei pela casa, fui para o chuveiro pra relaxar, enquanto minha irmã e meu marido organizavam a banheira no meu quarto. O mais engraçado disso tudo é que no dia faltou água. O contato com a água foi surreal, passei quase que todo tempo na água, meu marido estava na banheira comigo e pude ficar deitada de lado no colo dele, tive momentos de extremo relaxamento entre uma contração e outra, quase que cochilando. Em alguns momentos mais fortes as palavras mágicas da minha doula Zezé e o olhar da enfermeira Zeza, me davam força e coragem, ganhei massagens do meu marido e muito carinho da minha irmã. Anoiteceu e começou a surgir no céu, exatamente na janela do meu quarto uma lua cheia gigante, linda e magnífica que iluminava o quarto que estava com pouca luz. Por volta das 19h30min as contrações se intensificaram e percebi que minha filha estava quase chegando. Então, parece que o tempo acelerou, e em duas contrações fortes nasceu a nossa Sophia ao som da música de Caetano “Você é linda, mais que demais, você é linda sim... você é forte, dentes e músculos, peitos e lábios” ... A sensação que tive naquele momento foi de uma forte explosão de amor, ela nadou e escapou das mãos da enfermeira Zeza. Em seguida foi colocada sobre meu peito onde se aninhou e choramos todos juntos, muita, mas muita alegria... indescritível! Levantei-me da banheira com a Sophia no colo e, claro, com o apoio do meu médico. Secaram-me e eu deitei em minha cama. Esperamos até que o cordão umbilical secasse para que meu marido pudesse cortar. O apoio de todos aqueles que estavam presentes foi fundamental, eu confiava em quem estava comigo naquele momento. Quando a Sophia tinha 9 meses, engravidei do Pedro Henrique, e claro, que minha ideia era que ele também pudesse nascer em casa e na água. Mas, não foi possível, ou pelo menos não foi possível na banheira... Minha bolsa rompeu quando eu estava com 34 semanas de gestação e por ele ser prematuro, não podíamos arriscar. Fiquei 5 dias com a bolsa rota, até que optamos em induzir o parto. Cheguei ao hospital pela manhã, em seguida chegou a minha doula Zezé, o Dr. Ricardo e a enfermeira Zeza. No início da tarde, o trabalho de parto ainda estava lento, então aumentamos a medicação, apagamos a luz, ouvimos Enia e Daniel Namkhay. Quando chegou o final da tarde, eu já estava em estágio bem avançado e as contrações estavam muito dolorosas. Eu estava muito cansada e queria ir para o chuveiro, eu precisava muito da água, sabia que era a água que me ajudaria. Fui para o banheiro do quarto junto com meu marido e ali fiquei por quase 30 minutos deixando a água escorrer pelas minhas costas e recebendo massagens do Arthur. Senti que o Pedro estava encaixado e que nasceria naquele momento. Estava tocando uma música linda do Namkhay que se chama “o despertar de um guerreiro” então chamei a doula e avisei que ele nasceria. Levantei e me dirigi para o quarto, o Arthur sentou na escadinha e me atirei de costas no colo dele, foi então que em uma contração forte nasceu meu lindo guerreiro, pesando 2.650kg e 50 cm. E novamente tive a sensação de uma explosão de amor, orgulho e muita felicidade. Vivi duas experiências muito marcantes, dois partos normais, mas diferentes. Percebi que temos um poder interior maior do que conhecemos e, principalmente aprendi que o pensamento é peça principal para atingir aquilo que planejamos. Para se ter um parto normal/natural em casa e claro, humanizado, é importante que se estude muito sobre o assunto e principalmente que tenha um acompanhamento de quem tem experiência com o assunto”. 

Neide Calixto, graduanda em Administração, funcionária do setor de Relações com o Mercado da Unidade Acadêmica de Educação Continuada da Unisinos, mãe de Sophia, de 2 anos e 3 meses e do Pedro Henrique, de 9 meses.

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