Edição 396 | 02 Julho 2012

Parto normal: fisiologicamente o melhor para a mãe e o bebê

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Graziela Wolfart

O pediatra Marcus Renato Carvalho pondera que o parto domiciliar não aumenta a mortalidade nem os riscos para a mãe e o bebê, desde que seja com gestantes saudáveis e que estejam bem acompanhadas

“Todo pediatra consciente e atualizado é a favor do parto humanizado, respeitoso à mulher, ao bebê e ao pai, porque traz muitos benefícios para a família”. A afirmação é do pediatra Marcus Renato Carvalho, especialista em aleitamento materno. Na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line, Marcus aponta que “há estudos mostrando que os bebês nascidos por cesárea são mais alérgicos, menos amamentados ou em menor tempo, são mais propensos à obesidade, têm mais risco de morrer, têm aumentadas as chances de ter problemas respiratórios e podem ter o vínculo com as suas mães prejudicado também”.

Graduado em Medicina pela UFRJ, Marcus Renato Carvalho é especialista em Medicina Preventiva e Social pelo IMS/UERJ e tem mestrado em Saúde Pública pela Fundação Oswaldo Cruz. Docente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da UFRJ, é especialista em Amamentação pelo International Board Certified Lactation Consultant desde 2001. Editor do site www.aleitamento.com desde sua fundação, em 1996, editou o livro Amamentação – bases científicas que já está na sua terceira edição pela Editora GEN/Guanabara Koogan. 

Confira a entrevista.  

IHU On-Line – Como o senhor, enquanto pediatra, se posiciona em relação ao parto humanizado?

Marcus Renato Carvalho – Todo pediatra consciente e atualizado é a favor do parto humanizado, respeitoso à mulher, ao bebê e ao pai, porque traz muitos benefícios para a família. O contato pele a pele, olho no olho, libera um poderoso hormônio chamado ocitocina, que é uma espécie de “endorfina” do prazer, das contrações, dos orgasmos masculinos e femininos. Ele é fisiologicamente o melhor para a mãe e o bebê.

IHU On-Line – Então, por que é raro encontrar pediatras adeptos do parto humanizado?

Marcus Renato Carvalho – Realmente, houve uma falha na formação desses profissionais. Sou docente na faculdade de Medicina da UFRJ e a maternidade-escola onde dou aula não é um hospital amigo da criança até hoje. Apesar de todos nossos esforços de fazer uma medicina mais cuidadosa e humanizada, há um sistema e modelo biomédico, obstétrico, tradicional que nos impede um pouco. Contudo, sou um otimista. A formação vem mudando. O número de adeptos ao parto humanizado vem aumentando muito. Por exemplo, há um esforço da Sociedade Brasileira de Pediatria, através dos cursos de reanimação neonatal, que já incorporam a humanização do nascimento como um procedimento, uma atitude da equipe perinatal nas salas de parto. O Ministério da Saúde explicitamente através de resoluções, manuais, iniciativas e publicações recomenda com veemência uma postura menos invasiva e mais cuidadosa com o recém-nascido. 

IHU On-Line – Que diferenças o senhor aponta entre cesárea e parto normal quando o assunto é o aleitamento materno?

Marcus Renato Carvalho – Há um ditado popular que diz que “cesárea não dá leite”. Isso não é verdade. Mas, se não tivermos cuidados especiais, a cirurgia cesariana pode prejudicar muito o estabelecimento da amamentação. Como nós vivemos uma epidemia de cesarianas no Brasil, elas são geralmente pré-marcadas, sem a mulher estar em trabalho de parto e sem o hormônio ocitocina estar circulando no seu sangue, promovendo a apojadura, que é a primeira descida do leite. Às vezes a apojadura da mulher cesariada, que tem essa cirurgia pré-marcada, demora até 4 ou 5 dias. E há um medo e um risco desse bebê entrar em hipoglicemia devido ao colostro não ser suficiente. Então, geralmente esses bebês se iniciam com fórmula infantil no berçário. Outro motivo da cesárea não dar leite é que medicamentos sedativos são dados às parturientes, fazendo com que fiquem afastadas dos recém-nascidos às vezes por mais de 12 horas. Outra razão é a separação, considerando os hospitais em que os recém-nascidos ficam em berçários e isso induz ao consumo de fórmula infantil, desprezando o poderoso colostro que toda parturiente tem em suas mamas. Além disso, as dores da cicatriz cirúrgica impedem que a mulher cuide do seu filho sozinha, requerendo um acompanhante em tempo integral, o que muitas vezes não é permitido nas maternidades ou nem sempre as famílias têm essa disponibilidade.

IHU On-Line – Qual é o tipo de tratamento que um recém-nascido deve receber no momento do nascimento e quais as diferenças entre o atendimento rotineiro e o atendimento humanizado?

Marcus Renato Carvalho – No parto humanizado o cordão umbilical só é cortado quando para de pulsar, por exemplo, e esse é um procedimento recomendado pelo Ministério da Saúde. O recém-nascido não é separado da parturiente e é enrolado em um pano previamente aquecido e enxugado, em um ambiente que não é frio e deveria estar com pouca luz. Ele não é aspirado de rotina, a não ser que necessite. Não se aplica nitrato de prata nos olhos do bebê para evitar conjuntivite gonocócica. Para a avaliação do Apgar  no primeiro e no quinto minutos de vida, o recém-nascido pode ser examinado no seio materno, entre as mamas, pelo pediatra. Esses são alguns dos procedimentos humanizados. 

IHU On-Line – Há alguma estatística sobre a nota Apgar em bebês nascidos de parto normal em relação aos nascidos por cesariana? 

Marcus Renato Carvalho – Nos bebês que nasceram por cesariana os índices de Apgar são menores, pois há um sofrimento do recém-nascido que nasce por essa forma. A cesárea geralmente é pré-marcada. Então, há um risco desses bebês nascerem prematuros, ou seja, não nasceram na hora em que estavam preparados para nascer. Há estudos mostrando que os bebês nascidos por cesárea são mais alérgicos, menos amamentados ou em menor tempo, são mais propensos à obesidade, têm mais risco de morrer, têm aumentadas as chances de ter problemas respiratórios e podem ter o vínculo com as suas mães prejudicado também. 

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre o parto domiciliar? Já participou de algum? Qual o papel do pediatra nesse contexto?

Marcus Renato Carvalho – Eu sou favorável ao parto domiciliar para as gestantes que fazem um bom pré-natal, de baixo risco, que não tenham nenhuma patologia, que estejam preparadas em grupos de gestantes para esse tipo de parto e acompanhadas por parteiras, obstetrizes, doulas e obstetras que fazem parto domiciliar e que tenham um plano B, caso o parto não evolua como o esperado, tendo um apoio obstétrico hospitalar se necessário. O parto domiciliar não aumenta a mortalidade, nem os riscos para a mãe e o bebê desde que seja com gestantes saudáveis e que sejam bem acompanhadas. Eu já participei de parto domiciliar e percebi que os bebês nasceram bem; felizmente não precisei atuar como neonatologista de forma interventora ou medicamentosa. Nesses partos, da mesma forma que os outros partos na maternidade, é preciso aquecer o bebê, colocá-lo em contato com a mãe, é importante também – o que é mais difícil no domicílio – pesar, medir o comprimento e o perímetro cefálico ao nascimento, pois esse é um indicador importante, e realizar um exame físico completo, no domicílio.  

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