Edição 198 | 02 Outubro 2006

O ensino na Idade Média

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IHU Online

É um equívoco utilizar conceitos do presente para entender o passado, como a Idade Média. Da mesma forma, entender que apenas as letras são passíveis de transmitir cultura e ciência também é incorreto. Os homens medievais, por exemplo, valiam-se muito mais da expressão oral para a transmissão do conhecimento do que da palavra escrita, tão cara à Modernidade. As opiniões são do historiador Nilton Mullet Pereira, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Estamos projetando os conceitos do presente para ler a realidade medieval”, relata. “Não há dúvida de que a Igreja era a grande responsável pelo ensino e certamente muitos livros foram censurados ou proibidos pela Igreja. Entretanto, há uma série de mediações a serem feitas. Sabemos bem, por exemplo, que foi o trabalho dos monges que permitiu, em boa medida, a manutenção das obras literárias da Antigüidade”. Segundo Pereira, hoje a autonomia da universidade, uma problemática medieval, continua em discussão.

Pereira é graduado em História e mestre e doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com a tese História de amor na educação freiriana: pedagogia do oprimido. Atualmente é professor de Prática de Ensino em História na UFRGS e desenvolve um projeto de pesquisa intitulado Ensino de História, medievalismo e etnocentgrismo. Esteve à frente da condução do evento Idade Média e Cinema, organizado pelo IHU em 2005. Sua contribuição mais recente à IHU On-Line aconteceu na edição 160, de 17-10-2005, com a entrevista Em nome de Deus: um retrato de época. Para a presente edição, ofereceu valiosas dicas tanto para a elaboração da pauta, quanto de questões para os entrevistados.

IHU On-Line – Como era o ensino da Idade Média? Quem tinha acesso ao conhecimento?

Nilton Mullet Pereira
– O olhar que foi, por longo tempo, elaborado sobre a Idade Média, por meio da reprodução insistente do preconceito moderno e iluminista que marcou o medievo com a marca do obscurantismo, legou ao senso comum da nossa sociedade e aos compêndios didáticos, a noção de que os homens medievais eram incultos e que pouco sabiam e produziam de ciência e de arte. A conseqüência disso foi a disseminação da crença de que a Idade Média era uma sociedade na qual todos eram analfabetos e iletrados. Tal crença tem a ver, em primeiro lugar, com o fato de generalizarmos uma verdade que dizia respeito a apenas parte daquela sociedade e, em segundo, com o fato de projetarmos nossos conceitos do presente para entender o passado, no caso, a Idade Média. Por exemplo, os conceitos de iletrado e analfabeto servem apenas para compreendermos a sociedade do presente. O conceito de iletrado faz sentido numa sociedade que, como a nossa, desde os enciclopedistas, acredita que o único modo possível de transmissão da cultura e da ciência sejam as letras.

Obviamente, o ensino na Idade Média não era tão generalizado quanto hoje e, indubitavelmente, talvez a maior parte da sociedade medieval pouco escrevesse. Entretanto, precisamos levar em conta que, ao olhar para a civilização medieval, não devemos assimilar cultura à alfabetização, como fazemos hoje quando mencionamos que um analfabeto é um ignorante. Os medievais aprendiam mais pela palavra do que pela leitura, os livros eram importantes, mas o verbo era o mediador principal das relações entre os homens. Por exemplo, uma tese “não era uma obra impressa, mas uma discussão”, um longo debate que implicava a disputa de idéias. Pernoud  afirma que, na Idade Média, existia mesmo o que chamamos de “cultura latente”: as pessoas, em geral, tinham conhecimento, ao menos corrente do latim falado; recitavam canto gregoriano; tinham, de modo geral, um conhecimento da mitologia e das lendas.

O clero e o ensino

O ensino era ligado, evidentemente, ao clero, e as igrejas, via de regra, tinham uma escola. Há documentos que mostram a existência de escolas privadas ou fundações, mas o papel do ensino era das escolas das igrejas. Filhos de grandes senhores eram educados nas mesmas escolas que filhos de camponeses, de modo que se podia ter um ensino gratuito para os pobres e pago para os ricos. É possível dar exemplos de grandes senhores que eram homens de alta cultura, como Guilherme IX , duque da Aquitânia e Conde de Poitiers , primeiro trovador conhecido, como também temos registros de homens humildes que estudaram e galgaram postos importantes, como o Papa Gregório VII , que era filho de um pastor de cabras .

Penso que, ao ensinarmos para as crianças e para os adolescentes nas nossas escolas, que os homens medievais não tinham acesso ao conhecimento, porque ele era monopolizado pela Igreja, estamos sugerindo que a única maneira de se produzir e de transmitir conhecimento é a cultura letrada e, ao mesmo tempo, estamos afirmando e reafirmando que, na Idade Média, nada de conhecimento se produziu, ou seja, estamos projetando os conceitos do presente para ler a realidade medieval.

IHU On-Line – Qual era a relação da Igreja com o ensino?

Nilton Mullet Pereira –
Dizer que a Igreja tinha o monopólio do ensino, o que não seria falso, pode parecer que ela impossibilitava o debate acadêmico, a disputa de idéias e os estudos das ciências e das artes profanas. Segundo o modo como aprendemos Idade Média nas escolas, poderíamos concluir que as escolas e as universidades medievais ensinavam apenas teologia e que os escritos dos antigos clássicos eram sempre proibidos e, por vezes, incendiados. Então, é preciso ter cuidado. Não há dúvida de que a Igreja era a grande responsável pelo ensino e, certamente, muitos livros foram censurados ou proibidos por ela, entretanto, há uma série de mediações a serem feitas. Sabemos bem, por exemplo, que foi o trabalho dos monges que permitiu, em boa medida, a manutenção das obras literárias da Antigüidade. As escolas monásticas, a propósito, irão se constituir não apenas para formar monges, mas, com o tempo, se tornam escolas para o público externo, com o objetivo de ensinar os leigos. E esse ensino não se resumia ao estudo da bíblia, ao ler e ao escrever, mas também ao ensino de aritmética, de retórica, de dialética e de gramática.

Em Paris, havia importantes escolas que contribuíram para a efervescência cultural da cidade: a escola Notre-Dame, as escolas das abadias como Sainte-Geneviève, Saint-Victor ou Saint-Germain des Près e as escolas formadas por mestres com licença para ensinar. A essas escolas se dirigiam jovens de todas as partes, muitas vezes atrás de um mestre como Pedro Abelardo – o primeiro professor, como diz Le Goff. Pelas ruas de Paris transitavam estudantes de todas as partes, inclusive os chamados goliardos, estudantes que se deleitavam e cantavam os prazeres da vida na cidade. A referência que faço aos goliardos quer mostrar um pouco da indulgência que, sobretudo o clero, tinha com os jovens estudantes, que levavam riqueza e progresso à cidade.

IHU On-Line – Quais seriam as principais contribuições dadas pela Idade Média às universidades, criadas nessa época, e que persistem nessas instituições até os nossos dias?

Nilton Mullet Pereira
– A Idade Média inventou a universidade. E, ao que parece, àquelas questões com as quais a universidade se debatia na época, subsistem no nosso tempo. Talvez o centro da discussão tanto na Idade Média, quanto hoje, seja a possibilidade da autonomia da universidade. A universidade medieval buscava sua autonomia ante o poder secular e o poder da Igreja. A propósito disso, é interessante mencionar que o desejo pela autonomia nas corporações universitárias, na Idade Média, levou o Chanceler, em 1213, em Paris, a perder praticamente o privilégio de conceder a licença para ensinar; esse privilégio passou a ser dos mestres da própria universidade. Ainda vale a pena lembrar que, em 1301, a universidade deixa de estar sob a jurisdição do Bispo . Foi lutando ora contra os poderes eclesiásticos, ora contra os poderes leigos que a universidade medieval procurou conquistar sua autonomia.

Creio que os dias de hoje muito têm a aprender com os estudantes e mestres das universidades medievais quanto à luta pela autonomia universitária, pois se por um lado, a constituição brasileira concede ampla autonomia à universidade, por outro, institui uma série de medidas, de regulamentos e de programas obrigatórios que, a meu ver, solapam esse princípio constitucional .

IHU On-Line – O que é o "dispositivo da medievalidade"? Qual é a sua relação com os estereótipos que ainda persistem a respeito da Idade Média?

Nilton Mullet Pereira
– O dispositivo de medievalidade é um operador analítico. Ele se constitui como conceito que se propõe a verificar as estratégias discursivas que, no âmbito dos discursos escolares, particularmente, nas publicações didáticas para o ensino de História, têm construído uma visão negativa da Idade Média. Então, o dispositivo é um conjunto de práticas discursivas e de práticas não-discursivas que criam um campo possível de produção da verdade. Os livros didáticos de História, as metodologias de ensino e a instituição escolar em si, são considerados como espaços de veiculação de discursos que criam os nossos modos de olhar para o mundo e, neste caso, de olhar para a Idade Média.

O objetivo da pesquisa que realizo – Ensino de História, medievalismo e etnocentrismo – é, justamente, compreender como essa visão negativa de Idade Média foi construída no interior da escola e como ela tem se reproduzido ainda nos dias de hoje. Além disso, a pesquisa quer compreender as relações entre os estereótipos construídos pelo discurso Iluminista acerca da Idade Média e os estereótipos construídos pela Europa Esclarecida sobre os povos conquistados.

Certamente, o que se pensa hoje sobre a civilização medieval, é tributário, em larga medida, daquilo que aprendemos na escola, mas outros espaços de práticas discursivas assumem um papel importante na reprodução desses estereótipos. O cinema, por exemplo, é responsável por grande quantidade de produções que informam a nossa sociedade sobre o que foi a Idade Média. Obviamente, devemos considerar que o cinema cria a Idade Média segundo a ótica de diretores, de produtores e segundo as circunstâncias sociais que condicionam a criação cinematográfica. Então, é verdade que não é apenas na escola que, ainda hoje, a noção de uma Idade Média como reino das Trevas e/ou reino da Fantasia é afirmada e reproduzida.

Entretanto, creio que a escola é um lugar privilegiado para a revisão dos modos de ver o mundo que transitam na nossa sociedade, particularmente, no que se refere à visão construída sobre a Idade Média. A sala de aula deve permitir o debate sobre como se escreve a história, discutir os propósitos de quem escreve e o contexto no qual escreveu. A sala de aula precisa, principalmente, historicizar as histórias contadas, de maneira a que as novas gerações olhem para o conhecimento histórico como algo que é produzido no interior de relações de força que marcam determinada época. Recontar a história da Idade Média nas escolas e recontar a nossa própria história é também uma maneira de redefinirmos o conceito de história que transita no senso comum da nossa sociedade.

IHU On-Line – Por que a Idade Média é envolta em preconceitos como a alcunha de Idade das Trevas? Essa concepção está mudando? As escolas têm trabalhado nesse sentido?

Nilton Mullet Pereira
– A noção de Idade das Trevas tem sido bastante criticada nos meios acadêmicos. Nas últimas décadas, os estudos medievais têm se desenvolvido bastante no Brasil, fato que tem feito crescer muito o interesse dos estudantes pela Idade Média. Entretanto, apesar disso, os progressos da pesquisa sobre o medievo não chegaram até os bancos escolares, prova disso é que uma rápida miragem em publicações didáticas de História nos leva a concluir que as novas gerações ainda aprendem que o feudalismo é sinônimo de Idade Média, e que esse sistema teria iniciado no século V. Além do mais, as publicações didáticas mostram que o sistema feudal funcionou do mesmo modo em todas as partes da Europa.

Penso que a pesquisa sobre ensino de História preocupou-se, num movimento muito forte desde os anos 80, em deslocar o ensino do discurso da Europa do Esclarecimento e, sem dúvida alguma, causou um impacto muito significativo nas salas de aula e nas publicações didáticas, desfazendo muitos dos preconceitos que os bancos escolares ajudaram a produzir e a reproduzir sobre os povos conquistados. No entanto, no que concerne à visão de Idade Média que o discurso iluminista criou, pouco foi pesquisado. Isso talvez se explique devido à urgência que os professores de História tinham em elaborar a crítica à chamada história tradicional e em levar às novas gerações a pensarem sobre sua própria história e se apropriarem dela sob outra ótica, que não a visão de mundo européia.

Creio que este momento é propício para continuar o fecundo trabalho de crítica iniciado pelos pesquisadores da área de ensino de História e aprofundar o estudo sobre o modo como olhamos para a civilização medieval, como fez, por exemplo, José Rivair de Macedo .

IHU On-Line – Quais são os traços daquela época que permanecem no ensino atual?

Nilton Mullet Pereira
– O Ocidente nasceu na Idade Média. A época medieval foi o momento no qual foram elaborados os traços que formaram a sociedade ocidental. O reconhecimento do papel da Idade Média para a formação do Ocidente, tem sido importante para a desconstrução do discurso negativo e preconceituoso que mostra a civilização medieval como um intervalo de trevas entre o classicismo greco-romano e o classicismo renascentista.

Hoje, podemos ver inúmeras práticas sociais e traços culturais que foram concebidos na época medieval e que fazem parte do nosso modo de vida: o casamento cristão, monogâmico e sacralizado, foi elaborado no interior da sociedade medieval, no século XII; também foi lá que os trovadores criaram o amor cortês, no qual o amante deve obediência e servidão à mulher amada, que lança as bases do que hoje conhecemos como amor romântico. Vale lembrar ainda o processo de formação do catolicismo brasileiro, pois na Idade Média, ao mesmo tempo que o cristianismo se paganizou, o paganismo se cristianizou; no Brasil, o mesmo processo ocorreu quando aconteceu a cristianização do culto africano e a africanização do cristianismo. (FRANCO JR, Hilário. A Idade Média: O nascimento do Ocidente. São Paulo: Brasiliense, 2001)

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