Edição 395 | 04 Junho 2012

Ana Maria Casarotti

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Graziela Wolfart e Thamiris Magalhães

Uma pessoa alegre, que tenta olhar a vida com esperança. Esta é Ana Maria Casarotti, que integra a equipe de colaboradores do Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Na entrevista a seguir, ela conta os aspectos mais marcantes de sua trajetória pessoal, e destaca como uma de suas marcas o fato de estar sempre fazendo perguntas, porque tem o desejo permanente de saber e aprender. “Sou uma pessoa convencida das minhas ideias. Posso até mudar, mas tem que ter uma razão ou um argumento bem forte para isso”. Conheça um pouco mais desta religiosa, que gosta de se relacionar com as pessoas e se diz bastante sensível às realidades que encontra.
Ana (no centro, de óculos) entre as Missionárias do Cristo Ressuscitado

Origens – Nasci no dia 26 de janeiro de 1964. Meus pais me deram o nome da minha avó, Ana. Sou a terceira filha entre seis. Tenho dois irmãos mais velhos. No início deste ano um deles, Alberto, faleceu de parada cardíaca, o que foi muito difícil para toda nossa família. E tenho três irmãos mais novos. A primeira filha que saiu do país fui eu. Primeiro fui para Buenos Aires, Argentina, onde morei durante muitos anos. Meu pai atualmente está aposentado, mas sempre trabalhou como psiquiatra e neurologista. Ele ama sua profissão. Por isso, aos 78 anos, continua orientando psiquiatras mais jovens que pedem referências e consultas. Minha mãe iniciou o curso de medicina, mas depois que casou com meu pai encerrou a carreira para cuidar da família. Eles ainda moram em nossa casa, em Montevidéu.

Comunidade religiosa e vocação – Pertenço a uma comunidade religiosa, chamada Missionárias de Cristo Ressuscitado. Decidi ingressar na comunidade ainda jovem, com 19 anos. Antes, eu nunca tinha pensado em consagrar minha vida a Deus. Mas, aos 17 anos, estava em uma busca muito séria na minha vida. Meus pais ofereceram para todos nós uma formação católica, mas muito livre. Em minha busca, eu pensava que, se Deus não tinha sentido para mim, não podia me considerar católica. Eu precisava conhecer outra coisa que fosse mais vital, mais experiencial, mais real na minha vida. O que eu conhecia até aquele momento não alcançava essa dimensão. Então, no meu aniversário de 17 anos, pedi uma resposta. Eu nem sabia o que eu estava perguntando. Mas no fundo eu me questionava: para que estudar, para que fazer as coisas, para que viver? Nessa época eu troquei de escola e comecei a estudar num Colégio Salesiano. E lá foi muito forte a experiência de ver jovens que eu considerava “normais”, que preferiam rezar 10 minutos em uma capela antes de ir ao bar tomar alguma coisa. Eles eram pessoas novas, da minha idade, que eram legais, boa companhia para sair. E eu me perguntava o que acontecia na vida dessas pessoas? A minha busca foi um pouco direcionada. Comecei a participar de um grupo de jovens que se preparavam para receber o sacramento da Crisma. No final daquele ano descobri essa nova realidade mais profundamente, no sentido de encontrar Deus como uma pessoa que estava próxima e viva. Senti o convite a comunicar a vida de Deus, e decidi trabalhar para que meus amigos e amigas pudessem conhecê-lo e que nos dedicássemos juntos ao serviço aos menos favorecidos. Aos 19 anos, consagrei minha vida a Deus numa comunidade nova na Igreja Católica que estava apenas iniciando. Hoje continuamos em processo de fundação, sempre caminhando juntas. O que eu sempre agradeço a Deus é que nunca tive dúvidas dessa minha vocação. Passei muitas situações difíceis, muitos problemas, mas conseguimos vivê-los com esperança e superá-los. Gosto de ter dedicado a vida toda ao trabalho pastoral. Em Montevidéu, até morei em uma comunidade bem precária, inserida em uma favela. Em Buenos Aires, trabalhei na formação de grupos e pessoas que até hoje continuam engajadas em diferentes áreas da realidade social. Junto com outras religiosas, que moravam numa comunidade igualmente précaria. Eu colaborava no seu projeto social trabalhando com os adolescentes e jovens. Nessa época também trabalhava como coordenadora de catequese de um colégio.

Família e irmãos – Meu irmão mais velho, Eduardo, também optou por seguir a vida religiosa e decidiu ser padre. Nós nem imaginávamos. Ele entrou para a Companhia de Jesus aos 24 anos. Hoje ele é reitor na Universidade Católica do Uruguai, que está sob a responsabilidade dos jesuítas. Nossos outros irmãos casaram-se.

Educação – Sempre agradeço ao meu pai pelo fato de que ele insistia na importância de que devíamos estudar e aprender línguas. Ele e a minha mãe fizeram um esforço muito grande para isso. Todos estudamos em um colégio francês. Depois aprendi inglês, concluindo também os estudos neste idioma.

Brasil – Eu tinha grandes desejos em minha vida, depois da minha entrega a Jesus: conhecer mais a palavra, estudar a Bíblia; e conhecer outras culturas. Isso me levou para a Índia, fazer voluntariado, em 2000. É muito impressionante as diversas realidades que podemos encontrar naquele país. Outro sonho era conhecer as terras da origem da minha fé: Terra Santa. Alí mora também um irmão de meu pai junto com sua mulher e algumas de suas filhas. Como presente pelos 25 anos de vida consagrada recebi um convite para participar de um curso sobre “Women's roles in the work for peace and reconciliation” organizado pelo Instituto de Teologia da Suécia em Jerusalém (STI). Participamos doze mulheres de diferentes continentes: Ásia, África, América e Europa. Partilhamos a vida, conhecimentos, problemáticas e desafios que se nos apresentavam. Nunca deixarei de agradecer a possibilidade que me foi oferecida.
Como eu sempre gostei da pluricultura e da multidiversidade do Brasil, tinha vontade de morar aqui. Depois de viver tantos anos na Argentina, pedi para vir para cá. Quando acabei meus estudos de Teologia – sou graduada em Teologia pela Pontificia Universidad Católica Argentina Santa Maria de Los Buenos Aires – UCA –, vim para o Brasil. Era o ano de 2007.

Formação e trabalho – Além da graduação em Teologia, fiz um curso de especialização em Assessoria Bíblica na Escola Superior de Teologia – EST, de São Leopoldo. Durante o curso, fui para Israel, onde fiquei durante dois meses, e foi uma experiência incrível. Na época, eu já colaborava na criação de cursos de Espiritualidade Bíblica em EAD no Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Sempre gostei de colaborar no IHU, que é um espaço amplo e de muitas possibilidades; está sendo muito bom para mim. Fiz o mestrado em Teologia também na EST e atualmente estou fazendo o projeto do doutorado para ingressar, em breve, na FAJE, de Belo Horizonte. Meu projeto é sobre as mulheres no Evangelho de João. Aqui no IHU estou no programa Teologia Pública, trabalhando especificamente na área da espiritualidade, onde temos o atendimento e os pedidos de orações, por exemplo.

Nas horas livres – Gosto de estar com pessoas, de conhecer lugares novos, ir ao cinema.

Música – Folclore. E minha cantora preferida é Mercedes Sosa, por suas letras e sua voz.

Filme – Gosto bastante de filmes argentinos, mas também de filmes que tenham a ver com histórias reais. Por exemplo, Homens e Deuses, Central do Brasil, El pianista, ou os seriados dos anos 1980 que estão passando agora no Chile.

Livro – Leio diferentes tipos de livros, por exemplo, Crime e castigo de Dostoievsky, Cartas de Nicodemo de Dovrasczinsky, El librero de Kabul. Gosto de livros que contam histórias de vida de pessoas que deixaram sua marca neste mundo. Leio bastante as narrativas bíblicas também.

Sonho – Conhecer mais o Brasil. As pessoas falam que existem cinco brasis. Ainda conheço pouco.

Unisinos – Apresenta a possibilidade de conhecimento, de saber mais sobre diversos pensadores, especialmente aqui no Instituto Humanitas. Temos uma abertura muito grande no sentido de compreender uma religião que dialoga com a ciência, não fechada em normas, mas respeitando-as e tendo em conta as diferentes realidades da pessoa humana. Agradeço muito o convite para trabalhar aqui e a confiança que depositam em mim.

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